A Casa do Quinino e outros comércios no Picão

Há alguns meses, descrevi a Casa do Quinino, por ser um espaço que funciona como restaurante local na zona de Picão o qual visito sempre que posso. Desde então muitas mudanças aconteceram. O Quinino alargou o espaço, ergueu-lhe algumas paredes para divisão de áreas ao nível do rés-do-chão, pelo que já não se pode andar a explorar a casa como anteriormente, apesar de as galinhas, galos e frangos continuarem à solta. A televisão apresenta agora uma imagem estável e sem interferências. Mas a maior surpresa de todas, a minha grande descoberta, é outra: afinal o menino que enrolara a irmã Roberta no pano e me deixara fotografar todo o processo, não é um menino: chama-se Elsi. Eu tinha, afinal, feito uma grande confusão, que felizmente posso desfazer agora. Foi toda uma reflexão que partiu de um pressuposto errado. Pareceu-me um menino na altura mas na minha visita seguinte àquele espaço tornou-se evidente que se trata de uma menina. Se eu já tivesse abandonado o Príncipe nunca iria descobrir este desfecho de que, meses atrás, era uma menina a cuidar da irmã mais nova, carregando-a nas costas. Tenho visitado a Casa do Quinino muitas vezes, e apesar de não ter confessado este mal-entendido à Elsi, já sei há muito que me precipitei naquele julgamento inicial. Mas na Casa do Quinino, é outra alegria precisamente por causa das crianças que costumam lá estar, sobretudo, durante os fins-de-semana. Além das moradoras mais novas: a pequena Roberta (a bebé) e a irmã Elsi; nas últimas visitas, tenho encontrado as suas primas, a Yara e a Bruna. Estas meninas gostam de entrançar cabelos, falar, rir e interagem muito bem comigo. Quando há dias visitei o porto da Roça do Infante e encontrei aquele cenário repleto de seixos, ocorreu-me que as crianças pudessem utilizá-los como matéria-prima para os pintarem e vender aos turistas. Falei à Yara e à Bruna sobre isto. Elas gostaram da ideia mas disseram que a Roça do Infante fica muito longe, o que é verdade. Tenho pensado numa solução mas não é fácil alguém lá ir buscar pedras porque as viaturas não têm acesso ao trilho; a não ser que se arranjasse um barco para recolher os seixos na costa, um barco que lá chegasse directamente por via de mar. A ideia de se pintarem pedras e com isso fazer reverter algum dinheiro para as comunidades poderia ser interessante. Nesta realidade, não há muitas oportunidades de se comercializar o que quer que seja. Felizmente, no Príncipe não existe o hábito de pedinchar, como se conhece em São Tomé. O que não quer dizer que estas pessoas não tenham carências, que as têm, apenas lidam com a situação de maneira diferente. Existe um grande espírito de entreajuda nas comunidades locais. Penso que seja sobretudo essa a grande diferença entre as sociedades. Agora a Yara e a Bruna presenteiam-me com pedras quando lá vou. Faltam os marcadores ou a tinta. Talvez consiga fazer chegar à ilha esse material no princípio do próximo ano. 

O Picão é uma das zonas de que mais gosto do Príncipe, pois fica perto da cidade, entre Santo António e o Aeroporto. Outra particularidade desta área é o comércio de colares – chamam-lhes “jóias” mas deveriam chamar-lhes acessórios – que são produzidos a partir de chinelos de praia que vão sendo retirados do mar por mulheres residentes na comunidade de Picão. Este Projecto chama-se Facilita fora Umuen, que significa justamente “chinelo fora do mar”. A sola dos chinelos é perfurada com um pilão de ferro no qual se martela sobre uma base rígida: o resultado são pequenos pedaços circulares com a altura das solas. Depois, é necessário fazer passar uma agulha com linha grossa no centro, por forma a fabricar um colar ou uma pulseira. O jogo de cores que se consegue é interessante. Estes colares resultam bem se forem usados vários misturados em volta do pescoço. O efeito é divertido dependendo da indumentária que se vista, que convém que seja simples, e com cores sóbrias, para a “jóia” se destacar. Presentemente, está a ser construída uma barraquinha para estas mulheres do Picão terem um estaminé dedicado à venda das peças. Os colares actualmente são vendidos a 200 dobras, o que corresponde a 8 euros. Não é barato. Penso que quem compra expressa mais uma certa vontade de ajudar as pessoas envolvidas no Projecto do que atribui o valor pedido às peças. 

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