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Páscoa na Savana

Se calhar, fazemos a nossa vida, levados ao colo pela Providência. A oportunidade Dela me fazer repetir a experiência de um safári, fez-me sentir mais espiritual durante esta Páscoa. Os dias são cheios de vida para descontar ao tempo que se passa no escritório. E, nesta época de gente de máscara e pouco abraçada, não preciso de levar nada precioso na mala para casa. É simples: o meu ouro é o do brilho do Sol, escorrido no dorso das girafas; e do cinza aveludado dos elefantes chega-me a prata. A van vai seguindo sem pressa, de capota levantada, porque um corpo de pé alcança muito mais. E sinto-me a balouçar as pernas de uma tábua invisível, ao avistar ao longe um horizonte sem fim. Os jipes ficam minúsculos lá ao fundo, como um brinquedo de criança, e compreendo a imensidão desta África, à escala de todas as outras áfricas irmãs dentro do mesmo continente. Tecnicamente, com a exceção da estrada e da ponte dos chineses, os ponteiros dos relógios param dentro dos parques naturais. E, nesse entretanto, do lado direito da estrada escapa-se uma leoa sedenta. O palco é dela, mais à frente dos antílopes, depois dos búfalos junto ao lago, a seguir dos javalis, dos pequenos macacos, e das aves que se fazem ouvir. Todos em movimento contrastam com a nossa imobilidade (própria para contemplação) entre as cores, sempre as mesmas cores, muito presentes da terra. E todos os animais são livres nessa aridez. O ar agita um pouco o calor. Às vezes saímos do carro, procurando brincar mais de perto naquela terra que não nos pertence. E é esse o fascínio que recebemos ali sem artifícios, sem papel de alumínio, sem plástico. Recebemos dos ramos abertos a sombra da fauna, onde os animais descansam. Não há direções certas para os encontrarmos, nem tempo. Como dizia, os ponteiras param. À chaque instant/ Dans chaque chose/ L’éternité est là. Como naquelas obras de galeria que demoramos a perceber. Eu, pelo menos, gosto de me demorar nas coisas bonitas. Melhor ali onde nada há para sonhar mais perfeito: tudo apenas para deixar subir ao coração. De resto, já era um amor perpétuo desde a Tanzânia. Agora revisitava esta nova savana, tão hipnotizada quanto antes, por esta beleza e este silêncio que só entende quem o conhece e o viveu. São lições que se adquirem naquele espaço, com o olhar e o pensamento. E na falta de páginas para ler, tento a capa do Sul, e visto a bandeira numa espécie de homenagem a estes animais e a esta terra honesta. Porque a savana voltou a oferecer-me um novo corpo para vestir a alma. E para purificar o espírito, “God Knows I’m available” sempre.

Viver em África: Uganda

“Uganda cena!…” dizia-me alguém muito próximo após lhe revelar o país africano que tem um grou-coroado no centro da bandeira, e que me viria acolher durante a execução de um projeto de Oil & Gas. De qualquer forma, de projeto em projeto, a pandemia continua a trocar-nos as voltas um pouco por todo o lado, por isso, vou andando ao sabor desta nova corrente sem fazer grandes planos de me demorar em cada geografia. E o melhor é aproveitar que vim uns tempos para África e tentar conhecer o que é já inolvidável. Ao cabo do primeiro mês, a primeira coisa que salta à vista em Kampala (e nas principais estradas nacionais) é a presença de taxistas de motorizada, os “boda boda“, que são o meio de transporte mais popular entre os Ugandeses. Independentemente da teoria das regras de condução, é aceitável encontrarmos 3 passageiros além do motorista, incluindo crianças, ou objetos de dimensão considerável serem transportados de motoreta nas estradas do país. Os capacetes são apenas ocasionais. E as senhoras equilibram-se bem, sentadas de lado, com as mãos livres e uma confiança que me faz questionar o excesso de zelo europeu. Mais regras no Uganda: fumar dentro do veículo e na via pública dá direito a prisão, e andar de skate é também proibido:

Mas a polícia não atua perante a condução em sentido contrário, talvez por o tráfego ser muito intenso, especialmente, ao início do dia e ao final da tarde. Ou por no meio de tanta contramão deixar de haver um sentido para considerar contrário e um sentido para avaliar como certo. E assim é a vida na capital. Quando subimos para norte, a paisagem muda, aproximando-nos da natureza. Depois de muitas horas de caminho, os motociclistas desaparecem totalmente do cenário. Agora o horizonte é mais denso e verde enquanto o sol se deita e é altura de parar para pernoitar na redoma das redes mosquiteiras do lindo refúgio da Saltek Forest Cottages, em Masindi. De manhã, os macacos bem despertos abrem as hostes em família, trepando e descendo as árvores para nos virem aceitar oferendas de fruta fresca num jogo quase igual de interação homem-macaco. Segue-se a aguardada incursão no Parque Nacional do Murchison Falls, na Provícia de Buliisa, pela grande estrada de asfalto que os chineses construíram, e onde a vida selvagem se encontra à espreita e me permite relembrar as aventuras de há dez anos na Tanzânia. São os babuínos que se atravessam na estrada à procura de comida, as gazelas, e os pássaros. Os big five ainda estão escondidos mas a cerca de 20 Km das cascatas do Nilo, de repente, uma mancha escura sugere algo novo que eu nunca tinha visto: os raros macacos da espécie Colobos Guereza de pêlo comprido preto e branco que se abraçam aos galhos no cimo das árvores deixando as caudas felpudas ao dependuro. Não consegui ainda fotografá-los devido à velocidade da pick-up a caminho das reuniões mas, eu hei-de voltar.