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Em busca do “Stonehenge” português

A euforia de pisar o Alentejo era evidente. Não é uma boa fotografia porque o vento despenteia-me o rosto e, devido à écharpe, lembro-me sempre do destino fatal da Isadora Duncan, porém, aquele ficar em suspenso no ar serve para eternizar o poslúdio do meu riso desse dia. E isso, de não deixar a menina interior crescer, faz-me sempre sentir feliz. Como sinto um prazer imediato quando me rodeio de campos floridos e sempre que respiro o cheiro da terra. É o tal amor à natureza, que me foi passado pela minha mãe, nas múltiplas formas de o demonstrar, como o gosto em abraçar árvores, uma sensação de bem estar que já pus em prática em muitos cantos do mundo onde existem árvores e a elas me é permitido o acesso. Mas o objectivo desta viagem era encontrar o Cromeleque dos Almendres que se encontra um pouco escondido em Évora, mais precisamente em Nossa Senhora de Guadalupe. Um lugar recôndito, com esse monumento feito de pedras gigantes de granito, edificado (pensa-se) há cerca de 7 mil anos, longe de Arquimedes demonstrar a lei da alavanca e, portanto, deixando em aberto a passagem dos Nefilins pela Terra. Curioso ser um conjunto empedrado muitíssimo mais antigo do que o conhecido Stonehenge em Wiltshire ou o Círculo de Dromberg em Cork na Irlanda. Por outro lado, este é um lugar sagrado no Alto Alentejo que remonta ao início da civilização e justifica a excursão porque (mesmo com toda a informação em teoria) a surpresa do que se encontra é grande. Após o improvisado espaço destinado ao estacionamento, seguimos a pé no caminho de terra batida, para contemplar e tocar os perto de cem menires voltados a nascente a subir a colina. Monumentos alinhados com as constelações e, sábia e remotamente, com os solstícios de Verão e de Inverno. O culminar do trajecto encontra-se em propriedade privada, vedada por rede malhasol, após um estreito troço ladeado por silvas, e a mais de um quilómetro de distância do restante grupo de pedras, sob a forma de um monólito isolado, mais alto, como um dedo de gigante a apontar o céu. Ou, como outros defendem, um elemento fálico símbolo do sagrado masculino para representar ideias de fertilização. Não se pode adivinhar em rigor o figurado que as enormes pedras polidas teriam para os nossos antepassados, mas (antes de descer até à Pousada do Alvito) escolho como Gedeão uma “pedra cinzenta em que me sento e descanso” para honrar as entidades superiores, detentoras de todas as respostas.

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Setúbal, o Rio de Janeiro português

Cheguei a Setúbal em 2008 com um contrato de trabalho, uma mala no carro, e nenhumas referências sobre onde iria dormir, onde jantar, onde acordar. Ao almoço, estaria acompanhada pelas pessoas da empresa, o resto teria que arranjar-se no decorrer do dia e dos dias seguintes. Foi um desafio bem maior do que outros, que anos mais tarde viria a ter fora de Portugal, e se resumiriam a entrar num avião com todas as comodidades à minha espera além fronteiras. Lembro-me de chegar a Setúbal pela auto-estrada desde o Porto, abrandar junto à rotunda do Alegro (onde ainda era o Jumbo), escolher uma saída ao acaso e seguir. Não sei a razão mais lógica mas tudo nesta cidade nos impele para as suas margens. Talvez a força das correntes verde-turquesa obrigue a uma espécie de testemunho, um essencial baptismo dos olhos. Talvez o declive das avenidas a descer, ajude a descer. Na altura, parava-se dentro da Rotunda de Portugal. Foi a única vez que uma rotunda me tomou de surpresa. Mais à frente, passava o Hospital, a Tebaida, a Estação, o Bonfim para ver o Estádio à direita e continuar. Talvez fosse a fortuna do caminho dos carros no sentido da costa, mas senti uma tendência de não voltar atrás até chegar à avenida Luísa Todi, sem saber que estava na Luísa Todi. E lembro-me de virar à direita, e de me deparar com aquela rocha maciça, enorme, mesmo em frente, cada vez mais perto, e de me reclinar para olhar o lugar onde a serra acabava e assistir à grandiosidade que era a Arrábida. E que cidade era aquela protegida por uma montanha, cheia de muitas serras, deitadas até um outro lado. Arrábida, lugar de oração, imperatriz da região. Majestosa, detentora de um castelo que ela mesma parecia engolir, e de um convento ainda melhor escondido. Lembro-me de guiar serra adentro e sentir o assombro que era meio quilómetro de altura escarpado, e mesmo de Inverno as cores com cheiro a Verão e lembro-me de pensar quando ali cheguei: “Isto há-de ser o Rio de Janeiro português” e tive a certeza que havia um fascínio qualquer por explicar que nunca mais me deixaria. E nunca mais deixou. Talvez a magia do estuário se espalhe em moléculas que inspiramos ou vapores que nos embriagam os sentidos e seja esse o segredo do deslumbramento que se encontra ali. Uma metamorfose líquida, onde o Sado e o Atlântico se acarinham, embrulhando-se, transformando-se, e renascendo numa outra coisa. E o magnetismo dessa simbiose de águas esteja presente até ao outro lado no areal onde se estende Tróia. Ou talvez seja Tróia erguida ao longe quem nos acene junto às águas protegidas pela encosta. Um paraíso onde também os golfinhos se deixaram ficar. E assobiamos ao lado deles de barco para os assistirmos em mergulhos de mariposa,  e que sejam para sempre selvagens mas, simultaneamente, da terra. Tudo junto, tanto encanto e beleza naquele lugar. Como eu costumo dizer, cumprimentei Setúbal com o coração com vontade de falar e com o respeito que nunca senti por outra cidade. Há qualquer coisa no estado bruto da reserva natural, uma mesma magia com que ali se amarravam os barcos entre partidas de recreio e chegadas da pescaria. Foi feliz que me senti ao pensar que começava ali mais uma parte da minha vida. Foi o ano do choco frito e dos rodízios de peixe, o ano dos almoços mais frescos da minha existência. Foram os encantos da serra, desde a base onde residem as praias mais bonitas que conheço, até ao regresso a casa. Morei em Setúbal até ao ano seguinte com uma vista tremenda, provavelmente a mais perfeita que se podia ter de um 8.º andar na cidade: onde cabia o estuário, a península de Tróia com os neóns do casino na vigia nocturna da marina, os prédios coloridos, o hospital azul-clarinho, e, nas traseiras, o castelo de Palmela. E era a privacidade dos banhos de sol no terraço. Com tempo quente, os fins-de-semana tinham sempre sabor a férias. O ócio era também chegar à Figueirinha, ter a sorte de arrumar o carro e alugar um chapéu. E em companhia de gente da terra, ir conhecer cada uma das outras praias, para testar a delícia da água morna a sul do Tejo. Experimentar Galápos, descer à Galapinhos, desbravar a dos Coelhos e perceber, um pouco mais à frente, o recanto de paraíso que o Portinho é. Fora da água, a areia de Julho até Setembro a queimar os pés, a procura da sombra, as bebidas dos bares de praia, a fruta fresca trazida do Livramento, os gelados da Olá a fazer sorrir e muito protector solar. E, no final do dia, subir aos miradouros serpenteando a Arrábida para avistar uma única moldura de areia, guardada pela Anicha. Mais em frente, outra vez Tróia e as línguas de areia ora fora de água ora em horas de mergulho, e avistar Palmela do outro lado da serra. O bom de estar em Setúbal era também apanhar o ferry cor-de-alface com filtros de saturação e ir para Tróia passar o dia com os pés descalços na areia fininha e cuidada numa espécie de Algarve sem confusão e ruído, a 40 minutos de Lisboa. E 10 anos depois, habituei-me à euforia de chamar o táxi boat em Albarquel e seguir com o vento na cara a galope nos sulcos do estuário irrompido com velocidade, para descer directamente nas águas tranquilas de Tróia porque Setúbal é a cidade que me espera em Portugal. Entretanto, Albarquel ganhou um parque para as pessoas, e a cidade renasceu sob muitos aspectos. A Casa da Cultura ao lado da taberna medieval trouxe exposições, concertos e uma nova dinâmica. O fórum reabriu com novos espectáculos e um café concerto no piso 6 onde se vê o sol a por-se vaidoso no horizonte. Uns metros à frente, “o rapaz dos pássaros” eternizado no Largo Zeca Afonso. E eu gosto tanto de pássaros que os encontro, muitas vezes, em misteriosa comunhão comigo. Acho que, no essencial, nos percebemos bem porque, como alguém disse, ser livre é uma coisa muita séria.

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O jardim oriental à beira mar plantado

Quando se está em Lisboa, só é preciso fazer 70 quilómetros para encontrar um pouco de Ásia. Na verdade, são 35 hectares que surpreendem em homenagem aos dois budas gigantes de Bamiyán (Património Mundial da UNESCO, no Afeganistão) que foram destruídos em 2001, ao longo de 25 dias, pelo governo talibã. O Bacalhôa Buddha Eden foi criado como símbolo de protesto. Apesar da grandiosidade do espaço, podemos viajar num pequeno comboio turístico que reduz as caminhadas e as distâncias. Não é o mesmo que subir no bondinho para o Corcovado mas são coisas construídas à nossa medida. As comparações nem têm sentido mas não existem paisagens inúteis neste planeta, por isso, eu nunca compreendi Tom Jobim nesta canção.  Voltando ao nosso jardim agigantado, muitas coisas ardiam ao sol fazendo boas fotografias. Eu fixava o olhar como agora me lembro: há figuras míticas que parecem ter nascido ali, petrificadas após um passeio de verão; e colos de budas dourados onde nos podemos sentar. Em toda a parte, o ambiente é bastante relaxante e colorido, e, espreita-nos através – não dos olhos mas – do riso permanente deles, aquela humildade asiática que engravida sorrisos na cara das pessoas. Mais do que um parque ajardinado, trata-se de um museu ao ar livre. E nem aqui há pretensões de ser uma outra coisa. Ao lado, depois da baía das palmeiras, a secção de esculturas africanas em pedra com bancos para contemplação e pausa. A seguir, uma outra área onde encontramos um desfiladeiro estático de soldados em terracota pintados à mão. Tudo isto com muitas palmeiras em redor, lagos com as carpas Koi do Japão e nenúfares. Muitas coisas de que gosto de desfrutar. Então encostei-me a uma escultura de pedra levando comigo o meu mantra Nam-myoho-renge-kyo, a pensar no circuito budista em Banguecoque e, depois, fomos comer um gelado.

Atrás, a grande roda do mundoVista da escultura de David Breuer-WeilCabeça de Buda deitadoPés de Buda deitadoCoreto com vista para a outra margemEncostar docemente na pedraAquele que ri, felizLavar a cara com o solEntre budas

Com adrenalina na Madeira

Adrenalina na Madeira é ser levado dentro das cestas pelo asfalto abaixo. As casinhas  tradicionais são excelentes postais. O teleférico é mais um teleférico com as suas vistas en dessous. Mas são os cerca de dois quilómetros que valem a experiência de não sabermos bem se os senhores vestidos de branco sabem mesmo o que estão a fazer. As cordas, a forma de travar e a inclinação da rua. Parece tudo imprevisto mas a prática do ofício ganha. No final, as cestas são carregadas num camião até ao ponto de partida.

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Sem ordem, mas por acaso

Esta cruzada será um pouco aleatória. Há muitas fotografias e vontade de falar sobre elas, recordando-as. Os dedos ajudam na tarefa de eternizar estas palavras que a boca não chega a dizer. Esta fotografia veio da Madeira, mais concretamente, no alto da Ponta do Pargo, um lugar mágico, onde havia um salão de chá chamado «O Fio» que encontramos por acaso. Um dos lugares mais bonitos onde estive até hoje.

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