Manhã de Inverno

Chego à praia para caminhar enquanto a manhã se levanta. O Sol vai-se destapando, e no Seu silêncio, majorando a luz, como quem fecha devagarinho a porta à noite, paulatinamente instalando-se. Às vezes, penso na responsabilidade que há-de dar ser-se aguardado em metade do mundo a uma hora certa e nunca falhar esse encontro. Nunca falhar um turno, nunca perder a vontade de emergir ao céu, e, nem que por uma só vez, desejar experimentar algo diferente e interromper a prática de carregar ao colo uma nova manhã. A ideia de o Sol um dia não subir no horizonte é todo outro grau de terror. Ainda que o ignore, o Sol é o grande vira-calendários e a sua falta encerrar-nos-ia na escuridão, levando-nos o tempo, e com o tempo a vida. E de repente, em face desse pensamento, todos os problemas deixam de existir. Tal como o nosso planeta, ou melhor, todos os planetas, também o Sol é redondo para que nos curvemos perante a sua magistralidade. É certo que a vida em curvas é muito mais apetecível do que em retas. As órbitas no espaço, as trajetórias dos cometas, são coisas que vão além de ser-se humano. Talvez quando um novo Ícaro nascer, se venha a provar que o Sol é efetivamente muito mais do que sabemos. Por agora analiso de longe. Aquele enorme braço de luz que irrompe ao fundo e se espelha no rio embaixo. E no conjunto, vejo, através da luz pendente, com algum movimento, dançando muito levemente com a água, o que poderia – dito por outras palavras – definir uma manhã de Inverno. Seja lá o que for que acontece enquanto o mundo amanhece, é difícil acreditar que o Sol não seja o grande protagonista da vida: um corpo de incêndio sem cheiro, sem olhos, sem sangue, dotado, no entanto, de uma pontualidade inabalável. Uma circunferência de perfeita definição, cumprindo o ofício estoico de abrir o palco de cada dia. É de se Lhe tirar o chapéu; ao Sol, razão primeira de haver chapéus, mas mesmo assim tirava. Não há outro igual. Ninguém se daria ao trabalho de mudar este primeiro ato que se exibe desde que a Terra é Terra, e desde a inauguração do mundo. E poder-se-á dar o caso de sermos mesmo muito pequenos para sonhar algo tão grande como o prazer de conhecê-Lo melhor. Continuo a caminhar. A água ainda espelha o braço de luz mas estou certa de que, se chover, o Sol há-de deitar uma mão lá dentro para agarrar o arco das sete cores para se proteger. Parece um convite à brincadeira. Primeiro esconde-se, vaidosamente, entre as árvores, naquela maneira pueril e tão Sua de manifestação artística. Depois, tento jogar um jogo mais sério, feito de mais regras. O universo arbitra. Caminho alguns passos atrás, inclino o pescoço para ver e o Sol encesta perfeitamente. O poste não mexe, nem a tabela e nem a rede de basquetesol, mas a Sua proeza é por mim fotografada. Abandono o jogo revigorada por pulsar melhor, ávida de aprender mais sobre este Sol todo ele explosão infinita de vida, fonte de felicidade. Finalizo o percurso na esplanada. Ainda é cedo, mas quando a noite vier roubar a luz à cidade, sonharei com uma mistura nova de cera de abelha e cola que não derreta com o calor.

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