Amizade em Tempos de Guerra

O cerco vai-se apertando na Ucrânia e os noticiários não emitem outra coisa. O horizonte a leste é um lugar de incertezas, de receios, porque ali acordaram o mal. Um bicho de oito cabeças sem freio que vai cuspindo bolas de fogo enquanto avança a uma velocidade lenta, porém, impiedosa. Agora tudo é indeciso, angustiante. E vivemos a experiência do coletivo que assiste à perda da paz na Europa. Já todos fomos colhidos nesta tempestade e não há água benta para nos exorcizarmos. Mas é preciso continuar a subir a montanha porque a montanha continua lá! E no topo a fé é inquebrantável perante a lonjura da serenidade do que vê. Há sempre outras fogueiras em atividade para nos reunirmos uns com os outros, pensarmos, partilharmos o que pensamos e continuarmos a existir com vontade de viver com o mesmo “v” de verdade e não menos. Não podemos depender ansiosamente do futuro. Ficamos hipnotizados com as manchetes das próximas horas. Desvitaminados porque o defeito do pensamento é aceitar o negativo que recebe a cada segundo e sem filtros. Às vezes, o melhor é desligar a televisão e carregar lenha nova para acender um fogo blandicioso, abrindo outras possibilidades. Iluminar o sorriso. O ano ainda há pouco começou e sinto-me grata, muito grata, por estas primeiras semanas. Apesar das restrições da pandemia, sobrevivemos. Apesar da guerra, sobreviveremos também. A Amizade é uma forma de saber que #vaificartudobem. A Amizade é retirar a máscara de proteção para dividir um jantar, um almoço, um passeio, um café, um par de horas. A Amizade é dividir alegrias e partilhar angústias. Sou grata pelos amigos que tenho e que soube manter ao longo dos anos. Pelos que se fazem à estrada para me reencontrarem. Pelos que me reservam uma fatia do bolo de anos. Pelos que me indicam livros e me apresentam autores. Pelos que chocam o vidro do copo comigo, para nos rirmos de tudo o que foi e de tudo o que ainda virá. Pelos que dividem a esplanada comigo à beira do rio nesta cidade sem Inverno. Pelos que recebem o Sol na minha varanda. Pelos que caminham comigo na areia. Pelos que me recordam histórias antigas que já não lembrava. Pelos que me confiam segredos e detalhes sobre novos projetos em áudios e chamadas cheias de cuidado e de presente. Pelos que me pedem ajuda para arranjar um CV, ou afinar uma carta de apresentação e parece que subimos juntos esses degraus da vida. Obrigada pela confiança. Obrigada também por me trazerem as vossas crianças em fotografias e em braços. Nesta grande viagem, a Amizade é uma estação onde me apraz parar muitas e muitas vezes para apreciar o presente que a vida é.

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