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Encontrar os restos de um avião em Sólheimasandur

Por coincidência, estou a escrever esta crónica exactamente 44 anos depois do avião da marinha americana ter caído na praia de Sólheimasandur. Foi um dos principais objectivos da viagem, descobrir este cenário místico, perto de Vik, no sul da Islândia: até hoje, o mais parecido com cumprir o desejo de desembarcar em solo lunar. Mas para lá chegar há que ter realmente vontade. Não existe sinalização na estrada a indicar este spot. Sabe-se que fica a cerca de 4 quilómetros em direcção perpendicular, por isso, convém prestar atenção a carros estacionados junto a uma cerca, numa zona em nenhures. Depois, há que andar em frente e ir perguntando o caminho às poucas pessoas que se encontram a regressar do local. Estacionamos no sítio previsível cerca das 3 da tarde. Não se via ninguém no terreno mas trespassamos a propriedade com a força da intuição. Fizemos algumas paragens para tentar decifrar o caminho certo. Quanto mais longe da estrada se está mais dúvidas nos chegam. E nem se consegue perceber aonde fica, afinal, o meio-caminho entre a estrada segura onde deixamos o carro e os destroços do avião junto ao mar. A dada altura apetece voltar para trás. E se de repente começar a chover? Na Islândia o tempo é algo absolutamente incerto. Olhei para o lado e vi um arco-íris lindíssimo. Depois sentei-me numa rocha onde estava pousado um i-phone. Procura-se um avião e acha-se um telefone. Porém, nem uma pessoa a passar durante mais de 10 minutos. Olhávamos em 360.º sem percebermos ao certo onde estava, agora, a estrada. A bússola era a grande montanha. Vik fica à esquerda, por isso, devemos continuar em frente na direcção do mar. Foram cerca de 40 minutos até se vislumbrar um ponto possível ao fundo que era, afinal, a ruína de um avião. E passou uma hora até lá chegarmos. Havia pessoas entretidas a fotografar. Esperamos que fossem embora. Ficamos com o avião só para nós. Tinha visto imagens dele menos despedaçado. Um dia, não sobrará mais nada. Não quiseram remover os destroços mas a natureza encarregar-se-á. Ela é a verdadeira dona de tudo. Eu podia ter espetado uma bandeira de Portugal, que se visse da lua. Depois da caminhada de regresso ao carro, dirigimo-nos ao Hotel Katla. Não vi a temperatura ao final da tarde mas, logo depois do check in, a sauna estava perfeita e o jacuzzi exterior foi outra experiência memorável desta viagem.

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A lagoa azul da Islândia

O avião pousa. Quase não acredito que cheguei a este país tantas vezes sonhado. E foi a música que me trouxe ali. Está, então, o avião no chão. Em breve, ficarei a saber que as malas de porão seguiram para um outro destino, e, irão demorar algum tempo a voltar às nossas mãos, mas isso nem é tão importante. Esta viagem foi programada com agenda. Por isso, tratadas as burocracias relacionadas com a perda de bagagem, é tempo de seguir caminho. A cerca de dez quilómetros de distância, depois de levantarmos o carro alugado, está, quanto a mim, o primeiro ponto de paragem obrigatória: a Blue Lagoon. Sabemos quando estamos a chegar: as águas na proximidade da estância apresentam-se já da cor azul céu com aquela saturação que só conheço dali. Entramos. As instalações são de primeira classe, modernas, com grandes vidros de separação para o exterior onde se vêem as pessoas banhando-se. O aquecimento do espaço gera conforto para se tirar alguns dos agasalhos. Há uma enorme afluência de visitantes. As filas, porém, não demoram a reciclar-se. Chegados ao balcão as notícias não são boas. Não compramos as entradas antecipadamente e dizem-nos, que será impossível acedermos hoje. É preciso fazermos as reservas no site do spa. Os 6100 ISK fixos de taxa de entrada são o valor mínimo tabelado, cerca de 50 EUR, que dão acesso à piscina e oferecem uma máscara de argila para hidratação da pele. Vamos tentar fazer o booking naquele momento mas sem sucesso. Não há vagas para nós. Nem pagando algum valor suplementar, nada. Aproveitamos para visitar o espaço, a loja e a cafetaria, para passar o tempo na esperança de que, com o avançar da tarde, haja desistências. Umas horas passadas, e com alguma conversa ao balcão, própria de quem não vai arredar dali, lá conseguimos entrar pagando directamente na caixa. A perseverança vence! Em poucos minutos enchemos os cacifos e trocamos de roupa. Finalmente, chegamos ao exterior e confirmo que a água é efectivamente quente. O corpo sente-se pesado para nadar mas é uma experiência maravilhosa movermo-nos naquela água que escalda, em contraste com a temperatura gelada do ar. Vamos colocar na pele a máscara à qual temos direito e buscar bebidas ao bar. Um bar dentro da piscina para que possamos sentir em pleno o momento de relaxamento. A noite tende a cair devagarinho. A bola da lua vê-se alta no céu a definir-se. Não se sente frio nenhum. Cada vez temos mais espaço livre porque as pessoas vão saindo da água. Não se vê muito bem mas sinto que reacendi a alma, é o universo a mostrar-me aquele céu nocturno, vaporizado de azul, ao qual assisto deste relento quente. Não tenho vontade de ir embora porque reconheço que estou numa das maravilhas do mundo moderno mas, esta noite, vai também marcar o dia em que vou chegar a Reykjavik, daqui a pouco. Adoro sentir a vida a soprar.

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A terra que não é só feita de gelo

A Islândia é muito mais do que uma terra de gelo. Normalmente, é um céu de nevoeiro a descer, mas que permite ver a grandes distâncias. Respira-se ali a ordem regida pela natureza. É também uma ilha de fogo, de vulcões que se escondem, por vezes, debaixo de glaciares. Onde há, provavelmente, as melhores lagoas de águas termais do mundo. E geysers para vermos a terra viva espirrando água a ferver. Há também cascatas enormes de água fresca a rasgar montanhas. Há planícies verde-musgo sob campos de lava seca. Praias de areia preta e colunas de basalto como colmeias vistas do céu. E as estradas na maior parte do tempo, durante longos minutos, só nos levam a nós. Ao longo da estrada principal, que circunscreve a ilha inteira, há imagens bucólicas, e terrenos a perder de vista. E há cercas de madeira e arame a delimitar esses terrenos. Há animais guardados em vastas áreas dentro dessas cercas. E foi por isso que paramos. Vimos um conjunto de cavalos no pasto castanho. Majestosos, com crinas fortes e espessas mas de porte baixo, e sempre amigáveis. Viram-nos sair do carro e vieram imediatamente ao nosso encontro. Foi por eles, e por nós, que pulamos a cerca. Os cavalos têm esta afinidade com as pessoas. Este tipo de episódios dá-me uma alegria enorme. Os cavalos a galope até nós. Depois, aqueles minutos de apresentação sem palavras, enquanto não consigo deixar de pensar que, ao mesmo tempo, nos estamos a despedir para sempre. Se calhar eles também sabem, assim como nós, que aqueles minutos são pó cósmico que o universo lançou. E aconteceu mais de uma vez, a muitos quilómetros de distância. Campos de cavalos para aproveitarmos a viagem para parar. Se calhar faz parte da aventura, trespassar ligeiramente as proibições. Eu, não sou boa a pesar os prós e contras, deve ser por sentir esta liberdade sartriana que até me pode aprisionar um pouco as vontades próprias. Mas gosto de estar em contacto com os animais, e, neste que é um dos países mais seguros do mundo, apesar do afastamento da capital, e das inúmeras paisagens inóspitas e enigmáticas nos encherem os olhos de mar, eu não tenho receio de nada. Por vezes, apetece assumir que a liberdade nos faz mais espontâneos, ou ali, mais vikings e, sem dúvida, mais felizes, com o Dougy Mandagi a cantar por perto o Sweet Disposition.

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