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Páscoa na Savana

Se calhar, fazemos a nossa vida, levados ao colo pela Providência. A oportunidade Dela me fazer repetir a experiência de um safári, fez-me sentir mais espiritual durante esta Páscoa. Os dias são cheios de vida para descontar ao tempo que se passa no escritório. E, nesta época de gente de máscara e pouco abraçada, não preciso de levar nada precioso na mala para casa. É simples: o meu ouro é o do brilho do Sol, escorrido no dorso das girafas; e do cinza aveludado dos elefantes chega-me a prata. A van vai seguindo sem pressa, de capota levantada, porque um corpo de pé alcança muito mais. E sinto-me a balouçar as pernas de uma tábua invisível, ao avistar ao longe um horizonte sem fim. Os jipes ficam minúsculos lá ao fundo, como um brinquedo de criança, e compreendo a imensidão desta África, à escala de todas as outras áfricas irmãs dentro do mesmo continente. Tecnicamente, com a exceção da estrada e da ponte dos chineses, os ponteiros dos relógios param dentro dos parques naturais. E, nesse entretanto, do lado direito da estrada escapa-se uma leoa sedenta. O palco é dela, mais à frente dos antílopes, depois dos búfalos junto ao lago, a seguir dos javalis, dos pequenos macacos, e das aves que se fazem ouvir. Todos em movimento contrastam com a nossa imobilidade (própria para contemplação) entre as cores, sempre as mesmas cores, muito presentes da terra. E todos os animais são livres nessa aridez. O ar agita um pouco o calor. Às vezes saímos do carro, procurando brincar mais de perto naquela terra que não nos pertence. E é esse o fascínio que recebemos ali sem artifícios, sem papel de alumínio, sem plástico. Recebemos dos ramos abertos a sombra da fauna, onde os animais descansam. Não há direções certas para os encontrarmos, nem tempo. Como dizia, os ponteiras param. À chaque instant/ Dans chaque chose/ L’éternité est là. Como naquelas obras de galeria que demoramos a perceber. Eu, pelo menos, gosto de me demorar nas coisas bonitas. Melhor ali onde nada há para sonhar mais perfeito: tudo apenas para deixar subir ao coração. De resto, já era um amor perpétuo desde a Tanzânia. Agora revisitava esta nova savana, tão hipnotizada quanto antes, por esta beleza e este silêncio que só entende quem o conhece e o viveu. São lições que se adquirem naquele espaço, com o olhar e o pensamento. E na falta de páginas para ler, tento a capa do Sul, e visto a bandeira numa espécie de homenagem a estes animais e a esta terra honesta. Porque a savana voltou a oferecer-me um novo corpo para vestir a alma. E para purificar o espírito, “God Knows I’m available” sempre.

Pessoas com música por dentro

O melhor de andar pelo mundo é o que acontece enquanto se vai. Não é o destino, não é a origem: é o trajeto e o estado de nunca saber o que pode acontecer entre dois pontos. E desconhecer o comprimento entre um princípio e um fim sem anúncio, é imenso. Não conhecer os dados nem quantas vezes os deuses respondem. E o número, ao todo, de quantos procedimentos. Quantos planos. Quantos desejos de morangos silvestres. Quantos cafés. Quantos buracos na estrada. Quantas moradas diferentes. Quantos tijolos de xisto. Quantas notícias de longe a accionar-me a turbina do peito. Aqui, há nuvens que caem do céu. Saudades da praia. Nomes noutros dialetos. Muitas vezes uma vontade enorme de rir. E tantas vezes fitas de embrulho, brilhantes. Novas canções na rádio. Músicas cor de pérola onde coexistimos na mesma vibração. Como dínamos. E, aqui e ali, pessoas com outra música por dentro. Servidas em travessas de prata. Muito limpa para refletir em espelho. Deixar o presente ser igual ao presente. Rir. Porque os outros são cidades cheias de janelas, memória e dia. Pequeníssimos universos a sós cheios de estrelas por cima. São também estórias passadas e sonhos de futuro. Mares mal medidos e ventos de outra temperatura. São aqueles que não vencem nem perdem sozinhos. Cálcio de outros ossos mas água do mesmo mar. Caminhos longos que te intersetam numa breve eternidade. E quantos nesses caminhos, quantos sem rosto levas que, entre um segundo e um segredo, dançam para ti?

Pinturas da Natureza

Movimento-me enquanto fotografo da janela. Não sei exatamente onde estou mas (após as barracas da aldeia, dos postos de gasolina, depois das motos e das populações) vejo o contorno das árvores a passarem. Aqueles tons homogéneos, de verde em harmonia com outro verde parecido. E, pela frente, as linhas de troncos, equidistantes e muito equilibradas. Podia ser uma pintura de Monet, onde a complexidade da vida se interrompe. Ou sou eu que a interrompo para me deixar naquela ausência onde a natureza vive. A forma como aceitamos o que nos oferece o mundo é o que nos distingue uns dos outros. A forma como desejamos escalar o ombro das montanhas ou deslizar na neve. Pois o mundo, desde o começo, que se verga perante a nossa vontade. Não há lugar a contratos. E em diferentes circunstâncias recebemo-lo, ora com mais amor aguardando o por-do-sol, ora com menos cuidado a decifrá-lo. Tantas razões para me perder no seu mistério, tantas para aprender a lição que a pedra ensina. Pensar na morte impossível das águas do mar, transformadas em chuva. Por que tudo corre e passa desde a infância.

Movimento-me enquanto olho da janela. Nesta África, não existe Inverno. Sinto a pulsação do verde que o carro vai deixando para trás. Parece um jogo de espelhos num qualquer tempo, num qualquer século. O alinhamento da natureza integrada com as raízes ainda na terra, naquele sentido vertical, de ascender (nunca descer) durante o crescimento. Ou talvez no sentido de irromper uma visão ali tão simples: sem artefatos, sem o elemento humano, sem pássaros. Nem sequer um raio de sol a incidir para algum ponto particular. Nenhuma luz a retocar o rosto do dia entre os corredores de árvores. E nesse reino, à minha volta, somente um movimento levemente arrastado de vento a levar um pouco das folhas consigo. Penso nisto, e na minha maneira de não escapar às palavras, e na minha alegria de, com elas, digerir as minhas respostas, em qualquer geografia, defronte de qualquer horizonte ou fotografia. Há sempre poemas pois não sinto nenhum país como estrangeiro. Penso numa bola a orbitar alucinadamente. Um único mundo, uno, no seu próprio enigma. Com pessoas, como eu, tu, e outros que (ainda mais euforicamente) abraçam flores frescas à tona da tinta panorâmica, que observam com espanto, todos os dias.

“Negative thoughts just didn’t work in this room. I think this paiting is just too beautiful to support anything that is not optimism.”

A Origem das Cores do Nilo

Finalmente, chegou o dia da visita à nascente do rio Nilo. As estradas não são fáceis, não há tração nem suspensão automóvel que nos livre do efeito dos desníveis do terreno. As placas com as direções também não abundam, e o GPS na maioria dos casos não reconhece as estradas. O melhor é o motorista ir consultando os locais. Vou tirando fotos aleatórias da janela, porque em andamento, e com disparos a 1/2000 não há leopardo que eu não detenha congelado no meu cartão. Em todo o caso, hoje, não é dia para encontrar vida selvagem. Hoje, vemos sobretudo duas cores predominantes: o verde e o ocre férrico, tudo o resto é muito uma questão de sorte. Mesmo assim, atravessamos as localidades e encontramos os camiões do lixo, as lojas improvisadas com tudo e com nada, e os meninos que carregam o que lhes pedem as mães, naqueles caminhos africanos que não têm início nem fim, mas onde esses meninos vão sempre a caminhar. E era o lugar do começo do rio que tínhamos como destino. É claro que este assunto é susceptível de debate. O merchandising regional diz que é em Jinja a “Source of the Nile” mas, segundo Neil McGrigor, a origem poderá estar algures nas profundezas da floresta de Nyungwe, no Ruanda, e não no grande Lago Vitória. Em boa verdade, eu não me ocupo muito com a sua origem. Lembro-me de avistar este mesmo Nilo da varanda do Hilton no Cairo. E, se olharmos ainda mais de cima, é uma corrente de água a invadir 11 países, atravessando-os, sem distinguir fronteiras. E é esta a força que a Natureza tem. Basta estarmos atentos. A primeira paragem é nas cascatas de Itanda Falls. Depois de cobradas as entradas, há uma espécie de guia para ciceronizar o caminho que é evidente até às águas. Só há um lugar em frente onde a terra se detém. Ao longe, ouvimos a força das águas embrulhando-se apressadamente colina abaixo. Impondo respeito. E ficamos ali um pouco a tentar trazer aquilo dentro da câmera. A ver as poses que fazem os outros. A experimentar os vídeos. Mas por vezes, o melhor é mesmo só observar. Sentir a água correndo-nos num trajeto perpendicular, imparável e indiferente. Olhar essa beleza límpida de tão verdadeira, desmoronando-se na gravidade. E ler devagar as mesmas águas no seu violento e infinito incesto. Porque a natureza nem sempre cabe em fotografia e nem em palavras, mas lembrei-me do Herberto ter escrito:

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.

e era aquela mesma impossibilidade de descrição. No regresso ao carro, dirigi-me a uma família que cortava mandioca. A mãe passou-me um bebé para o colo, sem qualquer tipo de hesitação. A alegria dela por ver a minha é um daqueles momentos que não estavam previstos na viagem. É consolador notar a simplicidade de um povo. Doce, descalço, puro. E mesmo que não seja, nestes instantes é. Ou então, é minha a fortuna de conseguir olhar aquele mundo assim. Uma gente que permanece na infância, com olhos negros preciosos de ônix e sorrisos sagrados de alma. Com tanto disto, a palavra pobreza não lhes assenta bem mas a felicidade sim.

Continuamos para Jinja. E Jinja, é um daqueles lugares onde se pensa um dia voltar mas aos quais nunca se regressa. Depois de um ritual de batismo na nascente, o almoço é demorado mas o restaurante francês “Source of the River Nile“, que se localiza atrás do memorial a Gandhi, é uma espécie de esconderijo idílico junto à água que convida a ficar. De regresso a Kampala, paramos. As vendedoras de fruta correm até nós ao verem o carro chegar. De uma avalanche, erguem os pequenos cestos de fruta, desejando que as escolhamos. Sempre simpáticas, a sua alegria contagiante faz com que a compra de fruta seja um outro tipo de experiência. Pode haver uma ou outra exceção mas, sobre o que tenho conhecido, as africanas são pessoas com música por dentro. Entre o laranja e o amarelo predominantes, tiro fotos com elas que me pedem para rever e comentam. Ao final da tarde, já esgotou o ananás mas, trago cachos de bananas, e maracujá. Depois da pratada de peixe ao almoço e da grande oitava dos risos que ouvi ao longo do dia, um sumo natural parece-me um jantar extraordinário.

Funny Birds e Os Mercados de rua no Uganda

Dizem que África é toda igual mas não… Eu não concordo, eu acho que é mesmo tudo diferente. E há sempre aprendizagens para fazer; basta sair de casa e observar à volta. Por exemplo: nos mercados de rua ugandeses (que existem em todas as esquinas), podemos encontrar Rolex mas nem tudo é o que parece. Aqui, trata-se de um snack de pão indiano enrolado com recheio de omelete que já se tornou uma iguaria nacional. E, além deste, há outros mal entendidos para degustação: Assim que paramos o carro, vêm tentar vender-me nacos de carne em jeitinho de espetadas de galinha mas que, naturalmente, também escondem alguns mistérios. Em conversa com os locais com quem fui ganhando confiança, acabei por me informar que normalmente são vendidos “Funny Birds” em lugar de chicken sticks. Faltava saber que gatos são estes que nos querem fazer passar por lebres… As pesquisas na web, dizem tratar-se de abutres! Portanto, a parar ao pé da estrada, continuarei a optar sempre pela saborosa fruta por descascar desta “Pérola de África”, como bananas Matoke e ananás. Em todo o caso, são estas paragens ao longo do caminho, que nos permitem conhecer os ugandeses. É assim que aprendemos a decidir que são um povo simpático, curioso, e que não se inibe de se chegar a nós para conversar. No escritório em Kampala a interação é mais filtrada, pode haver algum assunto que nos melindre mutuamente, mas quando ficamos mais à vontade, a comunicação faz-se nos dois sentidos e às vezes é surpreendente. A Selma que trabalha no condomínio perguntou-me: “Are there African people in Portugal?” deixando-me feliz por ajudá-la em 2 minutos a transpor 2 continentes. Mas é na rua, entre estranhos, que misturamos as nossas culturas com maior liberdade e sem filtros. E, ao longo destes percursos prolongados de muitas horas, o caminho faz-se em grande parte através da janela, onde o movimento cria uma variedade de cores e de formas desconcertante, sempre ao nível térreo pela escassez de construção em altura, como no imaginário do cinema western. Durante as paragens, enquanto observo as pessoas, sinto-me observada, mas é só porque o Sol nos fez diferentes. As crianças com a sua luz transcendente ainda nos encaram de uma mesma realidade. É como se àquela distância, ainda não se detetem as diferenças que inevitavelmente aparecem socialmente com o avanço do tempo.

Da janela, o caminho vai ficando para trás. As localidades assemelham-se a quartos de brincar com tudo espalhado ao acaso. No espaço em redor, há certas preciosidades inesperadas como um new beetle junto a uma sucata, ou uma cabra a sair de uma loja, entre tecidos africanos dispostos em charriots de pau, pirâmides de hortícolas e artigos singulares que se distribuem pelas bancas até ao infinito das estradas nacionais. No entanto, é dentro da própria cidade, nas filas intermináveis de trânsito, que podemos observar com mais atenção as coisas de perto. E, além das máscaras de prevenção Covid, há muitas vendedoras e vendedores que carregam objetos diversificados, como coçadores de costas, quadros, coadores, alguidares, e até animais vivos. Há muitas crianças nas vendas carro-a-carro. Há oferta de muita coisa nas margens das estradas: sofás, roupa – os manequins do lado exterior das lojas exibem indumentárias estranhas – e o que quer que pareça fazer falta em dias de muito calor. Há apenas que saber procurar. E há sobretudo muito trânsito. Entre os muitos boda bodas apressados, há tudo de tudo, e cada pedaço que cabe na janela é irrepetível fazendo do Uganda um gigante patchwork animado. Tenho a certeza que amanhã já nada será igual.

Viver em África: Uganda

“Uganda cena!…” dizia-me alguém muito próximo após lhe revelar o país africano que tem um grou-coroado no centro da bandeira, e que me viria acolher durante a execução de um projeto de Oil & Gas. De qualquer forma, de projeto em projeto, a pandemia continua a trocar-nos as voltas um pouco por todo o lado, por isso, vou andando ao sabor desta nova corrente sem fazer grandes planos de me demorar em cada geografia. E o melhor é aproveitar que vim uns tempos para África e tentar conhecer o que é já inolvidável. Ao cabo do primeiro mês, a primeira coisa que salta à vista em Kampala (e nas principais estradas nacionais) é a presença de taxistas de motorizada, os “boda boda“, que são o meio de transporte mais popular entre os Ugandeses. Independentemente da teoria das regras de condução, é aceitável encontrarmos 3 passageiros além do motorista, incluindo crianças, ou objetos de dimensão considerável serem transportados de motoreta nas estradas do país. Os capacetes são apenas ocasionais. E as senhoras equilibram-se bem, sentadas de lado, com as mãos livres e uma confiança que me faz questionar o excesso de zelo europeu. Mais regras no Uganda: fumar dentro do veículo e na via pública dá direito a prisão, e andar de skate é também proibido:

Mas a polícia não atua perante a condução em sentido contrário, talvez por o tráfego ser muito intenso, especialmente, ao início do dia e ao final da tarde. Ou por no meio de tanta contramão deixar de haver um sentido para considerar contrário e um sentido para avaliar como certo. E assim é a vida na capital. Quando subimos para norte, a paisagem muda, aproximando-nos da natureza. Depois de muitas horas de caminho, os motociclistas desaparecem totalmente do cenário. Agora o horizonte é mais denso e verde enquanto o sol se deita e é altura de parar para pernoitar na redoma das redes mosquiteiras do lindo refúgio da Saltek Forest Cottages, em Masindi. De manhã, os macacos bem despertos abrem as hostes em família, trepando e descendo as árvores para nos virem aceitar oferendas de fruta fresca num jogo quase igual de interação homem-macaco. Segue-se a aguardada incursão no Parque Nacional do Murchison Falls, na Provícia de Buliisa, pela grande estrada de asfalto que os chineses construíram, e onde a vida selvagem se encontra à espreita e me permite relembrar as aventuras de há dez anos na Tanzânia. São os babuínos que se atravessam na estrada à procura de comida, as gazelas, e os pássaros. Os big five ainda estão escondidos mas a cerca de 20 Km das cascatas do Nilo, de repente, uma mancha escura sugere algo novo que eu nunca tinha visto: os raros macacos da espécie Colobos Guereza de pêlo comprido preto e branco que se abraçam aos galhos no cimo das árvores deixando as caudas felpudas ao dependuro. Não consegui ainda fotografá-los devido à velocidade da pick-up a caminho das reuniões mas, eu hei-de voltar.

Cairo

Começamos pelo lounge ainda no Koweit. Tomando o elevador para o amplo átrio com refeições à descrição, fruta e vegetais muito frescos a meias com doçaria variada. Algum tempo mais tarde várias opções para almoço. Um excelente recinto de descanso. Sofás espaçosos, poltronas e um toque árabe percorrendo o ambiente em redor. Os tons em pastel e molduras com a temática do país. De qualquer forma, o espaço apresenta já uma mistura de culturas. Começa a tornar-se evidente que a Europa se aproxima do médio oriente. A chegada ao Cairo é antevista das pequenas janelas ovais do avião. São aglomerados de prédios, mais ou menos organizados em tons de areia escura. Percebe-se que o tempo está quente. Há um prenúncio de África antes mesmo de aterrar. Depois, instante a instante, instala-se o caos africano na nossa rotina e na quebra das expectativas: o taxista do hotel, agendado com tanta antecedência, não apareceu. Isto iria revelar-se importante devido ao pouco tempo livre na cidade. Quando decidimos optar pelo serviço de Limusine (que é como nalguns países se chama ao serviço normal de Táxi), já se haviam gasto incontáveis telefonemas com o Hotel, para tentar perceber se o motorista nos viria recolher ao aeroporto. Foi mais de 1 hora que se perdeu sem uma real resposta. O taxista que se arranjou no aeroporto não se exprimia num inglês fácil de decifrar mas, mais do que falar e ouvir, era preciso observar bem o caminho até ao Hilton: constatar a loucura do trânsito no Cairo, os ocupantes das motorizadas sem capacetes, às vezes 3 outras vezes 4 ocupantes numa normalidade arrepiante; os condutores dos automóveis ao telemóvel; os minibus repletos até à porta. A noite caiu rapidamente entre o pára-arranca e as desvairadas mudanças de faixa. O hotel estava cheio, mas rendeu-me a vista do décimo sétimo andar para a largueza do Nilo e o burburinho do trânsito a ver-se pelo movimento dos pequenos pontos de cores brilhantes que a noite trazia nas margens. No rio, também algum movimento, os barcos-restaurante, que tive oportunidade de ver de perto depois do jantar. Foi bom visitar um bar ao cabo de algumas horas e poder agir de uma maneira natural com a liberdade mais própria da minha querida Europa. E horas depois o sabor de brindar à vida com uma Stella fresca no copo entre locais no Zamalek Rooftop no terraço superior do Nile Zamalek Hotel. Tive a sorte imensa de avistar o Nilo dali, com o vento na cara aproximando a água, o céu e todas as coisas, depois de ter vagueado quilómetros pelas margens do Rio, atravessando-o a pé na ponte com a certeza sólida porém maravilhosa de que o Cairo me ficaria na região do coração que se liga às melhores memórias que o cofre do cérebro contém. Antes, tivemos uma experiência completamente diferente aquando do acesso à Golden hour no Business Lounge no vigésimo quarto andar do Hilton, com comida e bebida à descrição e uma vista magnifica da cidade, num ambiente estranhamente descontraído e com a quantidade de luz que considero ideal, algo entre o essencial para ver o espaço interior e o exterior, simultaneamente. O dia seguinte começou a poucos passos do hotel, no Museu do Cairo. Já bastante congestionado à hora de abrir. Depois da aquisição dos bilhetes, fomos directamente para a ala de Tutankhamun. Por razões impartilháveis relacionadas com relatos de experiências vividas ali, gostava de ter visitado esta sala sozinha mas desta vez não aconteceu. Estranhei haver uma janela aberta com luz natural, devo dizer demasiada claridade, principalmente àquele hora em que o dia está já bem acordado, porque a verdade é que a luz em excesso dissemina a espiritualidade e o credo, e a luz desregulada nesse sentido confere essa pouca cerimónia à sala. Uma das poucas onde não é permitido fotografar. A máscara do faraó egípcio data de 1332 antes de Cristo e é uma das obras mais conhecidas mundialmente. A máscara foi descoberta em 1925. É preciso fazer uma pausa para pensar que passaram mais de 3250 anos entre estes factos. A máscara observada de perto é um objecto de uma beleza rara, foi restaurada em 2015 após a parte da barba ter caído provavelmente devido a descuidos de manutenção. Também devido a este detalhe, este foi o museu mais extraordinário que já visitei: a disposição das peças, em grande parte sem quaisquer etiquetas de identificação; as múmias expostas num estado real de preservação absolutamente incrível, algumas ainda com olhos e cabelo deixando-nos a refletir alguns segundos sobre o respeito por aqueles seres sem tempo sem qualquer proteção face à nossa curiosidade, especialmente na Royal Mummy Room. No espaço gigante do museu, as obras apresentam-se em geral cobertas de pó, assim como a mobília das peças que não estão expostas diretamente. A enormidade de algumas peças, que vemos divididas em grandes blocos (provavelmente despedaçadas antes de transferidas para o museu) é impressionante. Penso que a forma como o museu se apresenta se alinha com o país. Imagino que todas estas peças, se num outro lugar do globo, poderiam estar catalogadas de forma totalmente diferente mas na verdade pertencem ali. E isto é que é o certo. Impressionaram-me igualmente, os inúmeros sarcófagos desenhados e pintados de forma exímia. As peças turquesa. A joalharia do império egípcio de uma beleza inegável: simples por ser minimalista em termos de ornamentação mas muito preciosa. Até hoje foram as peças mais bonitas que vi. Depois do museu, fomos alugar um taxista ao hotel durante as horas seguintes e fomos rapidamente reposicionados no seio do trânsito devido à presença do presidente Abdel al-Sisi de passagem pelo centro da cidade mas era imperativo ir a Giza ver as pirâmides. O caminho foi principalmente feito numa estrada asfaltada que seria uma via rápida ladeada por edifícios singulares, que se aparentam a habitações sociais, mas dissemelhantes entre eles. Alguns com muita cor. E, num momento sem anúncio, vislumbramos as pirâmides ao longe, já próximas. Estrondosa, a vista daquelas pessoas em condomínios tão despojados de luxo. Lembrei-me do Rio de Janeiro, e das belas vistas de acesso fácil aos menos favorecidos. Condomínios a preços elevadíssimos para pessoas mais incorporadas nos termos esperados nas nossas sociedades. Perguntei-me se as pessoas haveriam de reparar na beleza, na história, na beleza dentro daquela própria história, ilustrada até ao bico afunilado pelas pedras. Entretanto, chegamos a uma localidade. O motorista acedeu a uma rua de via única onde a população caminhava em nosso sentido. Tinha acabado a hora das orações da manhã e todos se precipitavam a regressar a casa ou às suas vidas. O motorista fazia marcha-atrás praguejando em árabe. Era como se repetisse “Saiam da rua e deixem-me passar” sem ninguém ouvir. À terceira tentativa vieram carros que também nos fizeram recuar. Finalmente, conseguimos passar. No fim da rua, percebemos que os carros estavam estacionadas depois de um mercado de rua e ao lado de animais e carroças.  O local onde o taxista nos deixou, dizendo que não se podia continuar de carro mais para a frente, estava repleto de homens com intenção de nos vender o serviço de sermos transportados dali até às pirâmides, ora por dromedários ora por meio de pequenas carroças levadas por cavalos, todos à disposição rumo às pirâmides. Face à nossa resistência, um deles ofereceu a alternativa de nos alugar o terraço de sua casa, ali mesmo ao pé, prometendo uma deslumbrante paisagem das pirâmides. Em alturas como esta, em que me vejo com o carro parado e trancado, no momento em que se discute o que me vai acontecer a seguir, e em que sinto ser uma ocasião de algum risco, onde não se há qualquer tipo de confiança pelos locais e onde o taxista acaba de nos enganar, penso que é bom não estar sozinha. Por causa dos animais, o cheiro não era bom, mas era bastante intenso. O estado dos dromedários e dos cavalos levou-nos à relutância de desistir do lugar de forma convicta e até algo abrupta. Pedimos ao taxista para nos levar de volta, o que causou ainda mais discussão com os outros. Ao cabo de alguns minutos, fomos embora e o taxista decide descer a avenida principal para constatarmos que estávamos afinal à porta do recinto de entrada das Pirâmides de Giza. A passagem pelo lugar precedente é muito provavelmente uma obrigatória forma combinada de extorquir dinheiro aos turistas mas não há nada a fazer antes de se saber. Pedimos ao taxista que esperasse. O lugar onde as pirâmides se situam está circunscrito por um muro relativamente baixo, de não muito difícil acesso, mas está patrulhado pela polícia egípcia que aparentemente  se dedica a proteger as pirâmides, a esfinge e também os turistas. Apesar da maravilha que se antecede, é importante referir que a ante-câmara a céu aberto das pirâmides está cheia de detritos, especialmente plástico que facilmente se consegue disfarçar apontando a câmara para outro lado mas que faz parte do que se está ali a experienciar. Ainda não fez um mês, e continuo a lembrar-me do melhor e do pior com uma nitidez surpreendente. As carroças com os cavalos estão permanentemente em uso dentro do recinto, depois de passarmos o acesso assim como a proposta para os passeios de camelo. Foi bastante impressionante num sentido menos bom ver os cavalos a puxarem as carroças nas descidas de uma forma muito cuidadosa, com pequenos passos, por o piso os fazer escorregar devido ao estado dos cascos aliado ao declive do terreno. E durante as subidas, serem fortemente batidos com paus e chicotes para acelerarem o galope até ao cimo da estrada na zona de entrada das pirâmides. A vida é um isto de acontecimentos, mas alguns são impossíveis de aceitar. Mas ir ao Cairo implica, e felizmente que é assim, ir até Giza para sentir o que é isso de sentir as pirâmides do Egipto.

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A linguagem dos peixes de Zanzibar

Esta viagem tem quase 10 anos. E Zanzibar, sugere-me um verbo de movimento. Como era dançar com os peixes dentro de água, ou simplesmente caminhar ao sol com os pés no Índico porque as ilhas (mesmo as mais pequenas) têm sempre estes dois elementos de mão dada, a terra e o mar. Mas, em árabe, Zanzibar traduz um conceito mais amplo sem variação de posição: A Costa dos Negros. E isto é a impressão do biótipo de um povo num nome. Nome que grita África, contudo, a lembrar também um paraíso de areia-farinha, mais incandescente do que branca, por o Sol a fazer estrela. A vida é tão maravilhosa mas na altura não damos por ela. Na altura, não se percebe que era aquele momento, depois de o barco parar e de escolhermos os fatos do nosso tamanho, e as barbatanas que nos serviam, em que estávamos prestes a mergulhar nesse espantoso mundo. Para, a seguir, nos rodearmos de silêncio dentro das águas. Se calhar não era silêncio porque os peixes não caminham nem correm mas dançam permanentemente. Então de que notas cristalinas, de que pautas límpidas e lúcidas podíamos entender e assisti-los, ora mais perto ora mais à distância? Era aquele momento de mistura dessa natureza aquática e de liberdade mágica, que dissolvia talvez algo mais puro e mais limpo. De repente, a surpresa de um ambiente sincronizado de cardumes e a sabedoria de não se atropelarem nos seus cruzamentos; a beleza dos corais, e da flora perfeitamente disposta no fundo. Era aquele o momento de reparar em tudo aquilo indiferente ao resto, um todo lá fora, agora sem nenhuma importância, para nunca mais me desligar dessa experiência. Não tenho fotografias dos peixes, nem vídeos, somente a minha memória. A simplicidade dos rapazes que nos levaram aos corais, e nos diziam, sorrindo: You cannot stop here. Mas os corais impunham uma espécie de contemplação que nos fez permanecer alguns segundos, ainda que sem lhes tocar. Pouco antes de alcançarmos a morada dos milhares de peixes de multifeitios e cores nos seus compassos harmónicos perfeitos. Qualquer coisa de extraordinário e que mudou a minha vida. Mas não há palavras certas para esta estória porque é uma viagem que se deve fazer. As palavras vão-nos conduzindo o pensamento e a imaginação, e desviando da verdade. Ali, é como ouvir Miles Davis desacompanhado de voz, é precisamente subtrair o barulho de fora e imergir na linguagem dos peixes para sentir a precisão do que comunicam entre eles. E o que sabia eu sobre o que escondiam aquelas ondas turquesas? Muito menos do que as doces crianças que esperam os barcos na praia.

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Amanhecer em Zanzibar

Em Zanzibar, o nascer do sol acontece pelas seis da manhã. O amarelo irrompe muito tímido do mar. Enquanto as matizes de lilás, que saem de dentro da noite, vão tomando conta de tudo. Podemos ver o reflexo do sol, espelhando-se na água, em crescendo. E, do lado do céu, é um justo ponto de exclamação. Também eu me admirei com a extraordinária beleza de uma areia branca, ainda morna, que nos faz descalços. Os pescadores, que madrugaram muito antes da ilha, passam na horizontal ao longe. E o Índico azul-paraíso vai empurrando os seus cabelos de algas para a margem. Cheira a maré, cheira a novo dia. Em Zanzibar, enquanto esperamos o sol aparecer, há crianças que passam na praia sem estarmos à espera e param para conversar. Meninos sem horários, sem medos e muito cheios de liberdade: são eles os pescadores de amanhã. Em Zanzibar, não há dia nem há noite sem acasos. Aos poucos, a praia refaz-se da escuridão.  As algas vadias entretanto secaram largadas na areia. O Sol senta-se no seu trono ao fundo e o dia acontece. Então, naquela geografia, cheia de ausentes e cheia de luz, percebemos que ninguém é dono de nada.

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Entardecer na savana

Os dias em África são felizmente longos mas, quando o Sol se põe, o Sol deslumbra. Então Deus há-de ser um arquitecto de paisagens mais ocupado com este continente do que com qualquer outro. Um jardineiro sagrado maquetizando as suas obras-primas cá em baixo. A bola amarela girando até cair na linha da terra ao fundo. E o papel de parede, que é o céu por esta hora, fica numa espécie de cromatografia celeste, destilando-se num dégradé vermelho a roxo, com as nuvens tapadas atrás. Então, todos os dias, as árvores acordam para se transformarem em silhuetas ao entardecer. Todos os dias, alguém, por certo, a puxar o Sol para baixo. Ou, todos os dias, apenas a vontade dos astros e do universo inteiro em deixar cair o círculo de fogo, devagarinho, naquele pôr-do-sol.

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O rei da savana, aquela música e eu

É na savana, onde existe uma árvore aqui e outra ali e abunda a vegetação rasteira, que reina o leão, confundindo-se na mesma cor africana que pinta tudo o que é árido e seco. Depois há o esplendor da planície infinita a que os Masai chamaram Serengeti. Olhamos em redor e o horizonte acaba sempre da mesma maneira: uma linha distante e impossível de alcançar. Há a beleza das manhãs, ou da luz que nos acorda em África e ostenta toda aquela dimensão. Mas, enquanto ao longe a terra se difunde no céu, a algumas dezenas de metros há milhares de animais que se movimentam. Vamos andando à velocidade lenta do jipe. E podemos contemplar o que vemos durante alguns momentos à procura dos big five. A temperatura vai subindo e retirando alguma leveza ao panorama, fazendo mais contraste. Paramos perto de um charco. Em frente, várias espécies de antílopes alinhando-se na paisagem e, de repente, um ponto que parece ser um gato de tamanho grande. É preciso trocar de objectiva para vermos com as lentes das máquinas se será mesmo um leão. Então deixamos de ter dúvidas. Há também leoas ao lado. Queremos ficar ali, com aquela família, não sabendo o que irá acontecer. O calor é já intenso. Deixamos de contabilizar o tempo. Queremos mais sobre o leão. No segundo em que se levanta comentamos a nossa exaltação. Ali está o soberano felino tão decidido quanto indeciso, parado, com as quatro patas no chão. Sagrado naquele segundo. O ruído que se ouve é sobretudo o do vento, de vários pássaros que não sei identificar e do motor de mais jipes procurando também a aproximação. É aquela música da natureza que só podemos encontrar ali. Ouvimos ainda os disparos das máquinas na ânsia de levarmos connosco cada pormenor. É preciso aproveitar o leão à nossa disposição. Agora nada é mais importante. O jipe vai sendo dirigido muito devagar para podermos observar a juba, o porte musculado, e a sua grandiosidade ao movimentar-se. De repente, há um rugido-uivo que o distingue e continua a caminhar. Os jipes ficam parados. É o momento de também nos calarmos, e ficamos a sós naquele estado em que o ruído da natureza se torna o guia essencial e é qualquer coisa impossível de explicar. E assim que o percebemos na nossa direcção lentamente deixamos de nos mexer. O guia pede que fiquemos em silêncio. Então ficamos simplesmente a olhar o animal. A compreensão de que nada pode ser tão bonito, tão forte e tão pleno preenche todos os instantes. O presente que vivemos fica totalmente ocupado pelo leão que vem caminhando na nossa direcção. Altivo, distinto de qualquer outro e percebo bem porque lhe chamam rei. Vem já a escassos metros de nós e é quando decide levantar a cabeça, olhando-me de frente. Aqueles pequenos olhos brilhantes cor de amêndoa ao sol dentro dos meus próprios olhos. Não consigo pensar em mais nada. O meu coração bate tão forte como nunca imaginei. Não consigo mover-me para fechar as janelas. Não há tempo para arranjar estratégias de protecção. Não há tempo para nada. É o leão a chegar. O meu coração é uma bomba a explicar-me o que é afinal o medo. Apercebo-me que se quiser, o leão entra no jipe de um salto. E é a vida prestes a terminar que escolheu o meu lado esquerdo do peito para me dizer que vou morrer. Penso tão forte nisto que continuo sem me conseguir mexer. Estou aprisionada em mim. Tenho os olhos inundados por saber que a minha vida vai acabar só não sei por que razão me sinto tão feliz. E também não sei o que vai acontecer primeiro: se é o leão a atacar-me ou o coração a abrir-me um buraco no lado esquerdo do peito. Então o leão chega junto ao jipe, olha para o chão e decide continuar pelo lado esquerdo. Só neste momento, separados os meus olhos dos olhos do rei e com ele à distância de um braço, só aqui, o sangue me deixa pegar na câmara e fotografá-lo. Agora percebo a felicidade do que acabo de viver. Provavelmente não terei jamais um momento tão vivo. E o leão, acabado de atravessar a rua, a sua rua, porque a savana é dele, pára uns metros à frente para se deitar na sombra de uma árvore.

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Visitar uma aldeia Masai

Aqui não faz falta uma cidade. Mas é muito diferente viver esta experiência e depois tentar escrever sobre ela. Penso que temos de colocar uma banda sonora antes de começarmos. Pode ser do África Minha, ou, como a tradução francesa diz melhor Souvenirs d’Afrique. Então, olhamos em volta e sentimos: a verdade absoluta sobre o que chamamos terra, a aridez da paisagem mais elementar e a tranquilidade depositada na natureza desprovida de artifícios. Vemos também o tempo, porque existe tempo para o vermos ali, tão espesso quanto o silêncio, deitados na pradaria. Qualquer coisa enorme entre o amarelo e o castanho. E o céu parece menos azul do que se anunciava em sonhos. Pagamos a taxa de entrada e entramos na aldeia. O povo Masai ergue as suas pequenas casinhas quase sem alterar o horizonte. Os homens e as mulheres vestidos sobretudo de vermelho e azul. Elas cantam, eles saltam. Tudo é feito para nos receberem em alegria. Há um que fala razoavelmente inglês, os outros acompanham sorrindo e nos seus próprios idiomas. Convidam-nos a cantar e a saltar com eles, depois a conhecer o interior das pequenas cabanas erguidas com as estacas das acácias, e cobertas de palha onde o esterco bovino serve para isolar do frio. Apesar da matéria-prima, na verdade, cheira a simples. É bonito estar ali, senti-los como parte da natureza. Diria mesmo um gigante privilégio. Um lugar onde não encontramos nada de aparatoso e supérfluo como temos nossas vidas normais e diárias. Não sei durante quanto tempo ainda os deixarão viver como guerreiros nómadas, envolvidos nas suas mantas Shuka e de lança na mão. Durante a visita, além de nos ciceronearem pela aldeia, contam-nos estórias sobre a educação das crianças, desmistificadas mais tarde pelo guia. Mostram-nos as maravilhas feitas de missangas coloridas que dispõem para vender, e, antes de partirmos, podemos levar o artesanato que quisermos mas convém saber negociar. Eu enchi-me de colares mas acabei por trazer um cinto e uma pulseira que, sem lhe pedir, um masai me colocou no tornozelo. Trouxe também as memórias para transformar nesta e, noutras estórias, e ainda alguma vontade de chorar porque há despedidas que não acabam jamais.

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