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Cairo

Começamos pelo lounge ainda no Koweit. Tomando o elevador para o amplo átrio com refeições à descrição, fruta e vegetais muito frescos a meias com doçaria variada. Algum tempo mais tarde várias opções para almoço. Um excelente recinto de descanso. Sofás espaçosos, poltronas e um toque árabe percorrendo o ambiente em redor. Os tons em pastel e molduras com a temática do país. De qualquer forma, o espaço apresenta já uma mistura de culturas. Começa a tornar-se evidente que a Europa se aproxima do médio oriente. A chegada ao Cairo é antevista das pequenas janelas ovais do avião. São aglomerados de prédios, mais ou menos organizados em tons de areia escura. Percebe-se que o tempo está quente. Há um prenúncio de África antes mesmo de aterrar. Depois, instante a instante, instala-se o caos africano na nossa rotina e na quebra das expectativas: o taxista do hotel, agendado com tanta antecedência, não apareceu. Isto iria revelar-se importante devido ao pouco tempo livre na cidade. Quando decidimos optar pelo serviço de Limusine (que é como nalguns países se chama ao serviço normal de Táxi), já se haviam gasto incontáveis telefonemas com o Hotel, para tentar perceber se o motorista nos viria recolher ao aeroporto. Foi mais de 1 hora que se perdeu sem uma real resposta. O taxista que se arranjou no aeroporto não se exprimia num inglês fácil de decifrar mas, mais do que falar e ouvir, era preciso observar bem o caminho até ao Hilton: constatar a loucura do trânsito no Cairo, os ocupantes das motorizadas sem capacetes, às vezes 3 outras vezes 4 ocupantes numa normalidade arrepiante; os condutores dos automóveis ao telemóvel; os minibus repletos até à porta. A noite caiu rapidamente entre o pára-arranca e as desvairadas mudanças de faixa. O hotel estava cheio, mas rendeu-me a vista do décimo sétimo andar para a largueza do Nilo e o burburinho do trânsito a ver-se pelo movimento dos pequenos pontos de cores brilhantes que a noite trazia nas margens. No rio, também algum movimento, os barcos-restaurante, que tive oportunidade de ver de perto depois do jantar. Foi bom visitar um bar ao cabo de algumas horas e poder agir de uma maneira natural com a liberdade mais própria da minha querida Europa. E horas depois o sabor de brindar à vida com uma Stella fresca no copo entre locais no Zamalek Rooftop no terraço superior do Nile Zamalek Hotel. Tive a sorte imensa de avistar o Nilo dali, com o vento na cara aproximando a água, o céu e todas as coisas, depois de ter vagueado quilómetros pelas margens do Rio, atravessando-o a pé na ponte com a certeza sólida porém maravilhosa de que o Cairo me ficaria na região do coração que se liga às melhores memórias que o cofre do cérebro contém. Antes, tivemos uma experiência completamente diferente aquando do acesso à Golden hour no Business Lounge no vigésimo quarto andar do Hilton, com comida e bebida à descrição e uma vista magnifica da cidade, num ambiente estranhamente descontraído e com a quantidade de luz que considero ideal, algo entre o essencial para ver o espaço interior e o exterior, simultaneamente. O dia seguinte começou a poucos passos do hotel, no Museu do Cairo. Já bastante congestionado à hora de abrir. Depois da aquisição dos bilhetes, fomos directamente para a ala de Tutankhamun. Por razões impartilháveis relacionadas com relatos de experiências vividas ali, gostava de ter visitado esta sala sozinha mas desta vez não aconteceu. Estranhei haver uma janela aberta com luz natural, devo dizer demasiada claridade, principalmente àquele hora em que o dia está já bem acordado, porque a verdade é que a luz em excesso dissemina a espiritualidade e o credo, e a luz desregulada nesse sentido confere essa pouca cerimónia à sala. Uma das poucas onde não é permitido fotografar. A máscara do faraó egípcio data de 1332 antes de Cristo e é uma das obras mais conhecidas mundialmente. A máscara foi descoberta em 1925. É preciso fazer uma pausa para pensar que passaram mais de 3250 anos entre estes factos. A máscara observada de perto é um objecto de uma beleza rara, foi restaurada em 2015 após a parte da barba ter caído provavelmente devido a descuidos de manutenção. Também devido a este detalhe, este foi o museu mais extraordinário que já visitei: a disposição das peças, em grande parte sem quaisquer etiquetas de identificação; as múmias expostas num estado real de preservação absolutamente incrível, algumas ainda com olhos e cabelo deixando-nos a refletir alguns segundos sobre o respeito por aqueles seres sem tempo sem qualquer proteção face à nossa curiosidade, especialmente na Royal Mummy Room. No espaço gigante do museu, as obras apresentam-se em geral cobertas de pó, assim como a mobília das peças que não estão expostas diretamente. A enormidade de algumas peças, que vemos divididas em grandes blocos (provavelmente despedaçadas antes de transferidas para o museu) é impressionante. Penso que a forma como o museu se apresenta se alinha com o país. Imagino que todas estas peças, se num outro lugar do globo, poderiam estar catalogadas de forma totalmente diferente mas na verdade pertencem ali. E isto é que é o certo. Impressionaram-me igualmente, os inúmeros sarcófagos desenhados e pintados de forma exímia. As peças turquesa. A joalharia do império egípcio de uma beleza inegável: simples por ser minimalista em termos de ornamentação mas muito preciosa. Até hoje foram as peças mais bonitas que vi. Depois do museu, fomos alugar um taxista ao hotel durante as horas seguintes e fomos rapidamente reposicionados no seio do trânsito devido à presença do presidente Abdel al-Sisi de passagem pelo centro da cidade mas era imperativo ir a Giza ver as pirâmides. O caminho foi principalmente feito numa estrada asfaltada que seria uma via rápida ladeada por edifícios singulares, que se aparentam a habitações sociais, mas dissemelhantes entre eles. Alguns com muita cor. E, num momento sem anúncio, vislumbramos as pirâmides ao longe, já próximas. Estrondosa, a vista daquelas pessoas em condomínios tão despojados de luxo. Lembrei-me do Rio de Janeiro, e das belas vistas de acesso fácil aos menos favorecidos. Condomínios a preços elevadíssimos para pessoas mais incorporadas nos termos esperados nas nossas sociedades. Perguntei-me se as pessoas haveriam de reparar na beleza, na história, na beleza dentro daquela própria história, ilustrada até ao bico afunilado pelas pedras. Entretanto, chegamos a uma localidade. O motorista acedeu a uma rua de via única onde a população caminhava em nosso sentido. Tinha acabado a hora das orações da manhã e todos se precipitavam a regressar a casa ou às suas vidas. O motorista fazia marcha-atrás praguejando em árabe. Era como se repetisse “Saiam da rua e deixem-me passar” sem ninguém ouvir. À terceira tentativa vieram carros que também nos fizeram recuar. Finalmente, conseguimos passar. No fim da rua, percebemos que os carros estavam estacionadas depois de um mercado de rua e ao lado de animais e carroças.  O local onde o taxista nos deixou, dizendo que não se podia continuar de carro mais para a frente, estava repleto de homens com intenção de nos vender o serviço de sermos transportados dali até às pirâmides, ora por dromedários ora por meio de pequenas carroças levadas por cavalos, todos à disposição rumo às pirâmides. Face à nossa resistência, um deles ofereceu a alternativa de nos alugar o terraço de sua casa, ali mesmo ao pé, prometendo uma deslumbrante paisagem das pirâmides. Em alturas como esta, em que me vejo com o carro parado e trancado, no momento em que se discute o que me vai acontecer a seguir, e em que sinto ser uma ocasião de algum risco, onde não se há qualquer tipo de confiança pelos locais e onde o taxista acaba de nos enganar, penso que é bom não estar sozinha. Por causa dos animais, o cheiro não era bom, mas era bastante intenso. O estado dos dromedários e dos cavalos levou-nos à relutância de desistir do lugar de forma convicta e até algo abrupta. Pedimos ao taxista para nos levar de volta, o que causou ainda mais discussão com os outros. Ao cabo de alguns minutos, fomos embora e o taxista decide descer a avenida principal para constatarmos que estávamos afinal à porta do recinto de entrada das Pirâmides de Giza. A passagem pelo lugar precedente é muito provavelmente uma obrigatória forma combinada de extorquir dinheiro aos turistas mas não há nada a fazer antes de se saber. Pedimos ao taxista que esperasse. O lugar onde as pirâmides se situam está circunscrito por um muro relativamente baixo, de não muito difícil acesso, mas está patrulhado pela polícia egípcia que aparentemente  se dedica a proteger as pirâmides, a esfinge e também os turistas. Apesar da maravilha que se antecede, é importante referir que a ante-câmara a céu aberto das pirâmides está cheia de detritos, especialmente plástico que facilmente se consegue disfarçar apontando a câmara para outro lado mas que faz parte do que se está ali a experienciar. Ainda não fez um mês, e continuo a lembrar-me do melhor e do pior com uma nitidez surpreendente. As carroças com os cavalos estão permanentemente em uso dentro do recinto, depois de passarmos o acesso assim como a proposta para os passeios de camelo. Foi bastante impressionante num sentido menos bom ver os cavalos a puxarem as carroças nas descidas de uma forma muito cuidadosa, com pequenos passos, por o piso os fazer escorregar devido ao estado dos cascos aliado ao declive do terreno. E durante as subidas, serem fortemente batidos com paus e chicotes para acelerarem o galope até ao cimo da estrada na zona de entrada das pirâmides. A vida é um isto de acontecimentos, mas alguns são impossíveis de aceitar. Mas ir ao Cairo implica, e felizmente que é assim, ir até Giza para sentir o que é isso de sentir as pirâmides do Egipto.

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A linguagem dos peixes de Zanzibar

Esta viagem tem quase 10 anos. E Zanzibar, sugere-me um verbo de movimento. Como era dançar com os peixes dentro de água, ou simplesmente caminhar ao sol com os pés no Índico porque as ilhas (mesmo as mais pequenas) têm sempre estes dois elementos de mão dada, a terra e o mar. Mas, em árabe, Zanzibar traduz um conceito mais amplo sem variação de posição: A Costa dos Negros. E isto é a impressão do biótipo de um povo num nome. Nome que grita África, contudo, a lembrar também um paraíso de areia-farinha, mais incandescente do que branca, por o Sol a fazer estrela. A vida é tão maravilhosa mas na altura não damos por ela. Na altura, não se percebe que era aquele momento, depois de o barco parar e de escolhermos os fatos do nosso tamanho, e as barbatanas que nos serviam, em que estávamos prestes a mergulhar nesse espantoso mundo. Para, a seguir, nos rodearmos de silêncio dentro das águas. Se calhar não era silêncio porque os peixes não caminham nem correm mas dançam permanentemente. Então de que notas cristalinas, de que pautas límpidas e lúcidas podíamos entender e assisti-los, ora mais perto ora mais à distância? Era aquele momento de mistura dessa natureza aquática e de liberdade mágica, que dissolvia talvez algo mais puro e mais limpo. De repente, a surpresa de um ambiente sincronizado de cardumes e a sabedoria de não se atropelarem nos seus cruzamentos; a beleza dos corais, e da flora perfeitamente disposta no fundo. Era aquele o momento de reparar em tudo aquilo indiferente ao resto, um todo lá fora, agora sem nenhuma importância, para nunca mais me desligar dessa experiência. Não tenho fotografias dos peixes, nem vídeos, somente a minha memória. A simplicidade dos rapazes que nos levaram aos corais, e nos diziam, sorrindo: You cannot stop here. Mas os corais impunham uma espécie de contemplação que nos fez permanecer alguns segundos, ainda que sem lhes tocar. Pouco antes de alcançarmos a morada dos milhares de peixes de multifeitios e cores nos seus compassos harmónicos perfeitos. Qualquer coisa de extraordinário e que mudou a minha vida. Mas não há palavras certas para esta estória porque é uma viagem que se deve fazer. As palavras vão-nos conduzindo o pensamento e a imaginação, e desviando da verdade. Ali, é como ouvir Miles Davis desacompanhado de voz, é precisamente subtrair o barulho de fora e imergir na linguagem dos peixes para sentir a precisão do que comunicam entre eles. E o que sabia eu sobre o que escondiam aquelas ondas turquesas? Muito menos do que as doces crianças que esperam os barcos na praia.

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Amanhecer em Zanzibar

Em Zanzibar, o nascer do sol acontece pelas seis da manhã. O amarelo irrompe muito tímido do mar. Enquanto as matizes de lilás, que saem de dentro da noite, vão tomando conta de tudo. Podemos ver o reflexo do sol, espelhando-se na água, em crescendo. E, do lado do céu, é um justo ponto de exclamação. Também eu me admirei com a extraordinária beleza de uma areia branca, ainda morna, que nos faz descalços. Os pescadores, que madrugaram muito antes da ilha, passam na horizontal ao longe. E o Índico azul-paraíso vai empurrando os seus cabelos de algas para a margem. Cheira a maré, cheira a novo dia. Em Zanzibar, enquanto esperamos o sol aparecer, há crianças que passam na praia sem estarmos à espera e param para conversar. Meninos sem horários, sem medos e muito cheios de liberdade: são eles os pescadores de amanhã. Em Zanzibar, não há dia nem há noite sem acasos. Aos poucos, a praia refaz-se da escuridão.  As algas vadias entretanto secaram largadas na areia. O Sol senta-se no seu trono ao fundo e o dia acontece. Então, naquela geografia, cheia de ausentes e cheia de luz, percebemos que ninguém é dono de nada.

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Entardecer na savana

Os dias em África são felizmente longos mas, quando o Sol se põe, o Sol deslumbra. Então Deus há-de ser um arquitecto de paisagens mais ocupado com este continente do que com qualquer outro. Um jardineiro sagrado maquetizando as suas obras-primas cá em baixo. A bola amarela girando até cair na linha da terra ao fundo. E o papel de parede, que é o céu por esta hora, fica numa espécie de cromatografia celeste, destilando-se num dégradé vermelho a roxo, com as nuvens tapadas atrás. Então, todos os dias, as árvores acordam para se transformarem em silhuetas ao entardecer. Todos os dias, alguém, por certo, a puxar o Sol para baixo. Ou, todos os dias, apenas a vontade dos astros e do universo inteiro em deixar cair o círculo de fogo, devagarinho, naquele pôr-do-sol.

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O rei da savana, aquela música e eu

É na savana, onde existe uma árvore aqui e outra ali e abunda a vegetação rasteira, que reina o leão, confundindo-se na mesma cor africana que pinta tudo o que é árido e seco. Depois há o esplendor da planície infinita a que os Masai chamaram Serengeti. Olhamos em redor e o horizonte acaba sempre da mesma maneira: uma linha distante e impossível de alcançar. Há a beleza das manhãs, ou da luz que nos acorda em África e ostenta toda aquela dimensão. Mas, enquanto ao longe a terra se difunde no céu, a algumas dezenas de metros há milhares de animais que se movimentam. Vamos andando à velocidade lenta do jipe. E podemos contemplar o que vemos durante alguns momentos à procura dos big five. A temperatura vai subindo e retirando alguma leveza ao panorama, fazendo mais contraste. Paramos perto de um charco. Em frente, várias espécies de antílopes alinhando-se na paisagem e, de repente, um ponto que parece ser um gato de tamanho grande. É preciso trocar de objectiva para vermos com as lentes das máquinas se será mesmo um leão. Então deixamos de ter dúvidas. Há também leoas ao lado. Queremos ficar ali, com aquela família, não sabendo o que irá acontecer. O calor é já intenso. Deixamos de contabilizar o tempo. Queremos mais sobre o leão. No segundo em que se levanta comentamos a nossa exaltação. Ali está o soberano felino tão decidido quanto indeciso, parado, com as quatro patas no chão. Sagrado naquele segundo. O ruído que se ouve é sobretudo o do vento, de vários pássaros que não sei identificar e do motor de mais jipes procurando também a aproximação. É aquela música da natureza que só podemos encontrar ali. Ouvimos ainda os disparos das máquinas na ânsia de levarmos connosco cada pormenor. É preciso aproveitar o leão à nossa disposição. Agora nada é mais importante. O jipe vai sendo dirigido muito devagar para podermos observar a juba, o porte musculado, e a sua grandiosidade ao movimentar-se. De repente, há um rugido-uivo que o distingue e continua a caminhar. Os jipes ficam parados. É o momento de também nos calarmos, e ficamos a sós naquele estado em que o ruído da natureza se torna o guia essencial e é qualquer coisa impossível de explicar. E assim que o percebemos na nossa direcção lentamente deixamos de nos mexer. O guia pede que fiquemos em silêncio. Então ficamos simplesmente a olhar o animal. A compreensão de que nada pode ser tão bonito, tão forte e tão pleno preenche todos os instantes. O presente que vivemos fica totalmente ocupado pelo leão que vem caminhando na nossa direcção. Altivo, distinto de qualquer outro e percebo bem porque lhe chamam rei. Vem já a escassos metros de nós e é quando decide levantar a cabeça, olhando-me de frente. Aqueles pequenos olhos brilhantes cor de amêndoa ao sol dentro dos meus próprios olhos. Não consigo pensar em mais nada. O meu coração bate tão forte como nunca imaginei. Não consigo mover-me para fechar as janelas. Não há tempo para arranjar estratégias de protecção. Não há tempo para nada. É o leão a chegar. O meu coração é uma bomba a explicar-me o que é afinal o medo. Apercebo-me que se quiser, o leão entra no jipe de um salto. E é a vida prestes a terminar que escolheu o meu lado esquerdo do peito para me dizer que vou morrer. Penso tão forte nisto que continuo sem me conseguir mexer. Estou aprisionada em mim. Tenho os olhos inundados por saber que a minha vida vai acabar só não sei por que razão me sinto tão feliz. E também não sei o que vai acontecer primeiro: se é o leão a atacar-me ou o coração a abrir-me um buraco no lado esquerdo do peito. Então o leão chega junto ao jipe, olha para o chão e decide continuar pelo lado esquerdo. Só neste momento, separados os meus olhos dos olhos do rei e com ele à distância de um braço, só aqui, o sangue me deixa pegar na câmara e fotografá-lo. Agora percebo a felicidade do que acabo de viver. Provavelmente não terei jamais um momento tão vivo. E o leão, acabado de atravessar a rua, a sua rua, porque a savana é dele, pára uns metros à frente para se deitar na sombra de uma árvore.

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Visitar uma aldeia Masai

Aqui não faz falta uma cidade. Mas é muito diferente viver esta experiência e depois tentar escrever sobre ela. Penso que temos de colocar uma banda sonora antes de começarmos. Pode ser do África Minha, ou, como a tradução francesa diz melhor Souvenirs d’Afrique. Então, olhamos em volta e sentimos: a verdade absoluta sobre o que chamamos terra, a aridez da paisagem mais elementar e a tranquilidade depositada na natureza desprovida de artifícios. Vemos também o tempo, porque existe tempo para o vermos ali, tão espesso quanto o silêncio, deitados na pradaria. Qualquer coisa enorme entre o amarelo e o castanho. E o céu parece menos azul do que se anunciava em sonhos. Pagamos a taxa de entrada e entramos na aldeia. O povo Masai ergue as suas pequenas casinhas quase sem alterar o horizonte. Os homens e as mulheres vestidos sobretudo de vermelho e azul. Elas cantam, eles saltam. Tudo é feito para nos receberem em alegria. Há um que fala razoavelmente inglês, os outros acompanham sorrindo e nos seus próprios idiomas. Convidam-nos a cantar e a saltar com eles, depois a conhecer o interior das pequenas cabanas erguidas com as estacas das acácias, e cobertas de palha onde o esterco bovino serve para isolar do frio. Apesar da matéria-prima, na verdade, cheira a simples. É bonito estar ali, senti-los como parte da natureza. Diria mesmo um gigante privilégio. Um lugar onde não encontramos nada de aparatoso e supérfluo como temos nossas vidas normais e diárias. Não sei durante quanto tempo ainda os deixarão viver como guerreiros nómadas, envolvidos nas suas mantas Shuka e de lança na mão. Durante a visita, além de nos ciceronearem pela aldeia, contam-nos estórias sobre a educação das crianças, desmistificadas mais tarde pelo guia. Mostram-nos as maravilhas feitas de missangas coloridas que dispõem para vender, e, antes de partirmos, podemos levar o artesanato que quisermos mas convém saber negociar. Eu enchi-me de colares mas acabei por trazer um cinto e uma pulseira que, sem lhe pedir, um masai me colocou no tornozelo. Trouxe também as memórias para transformar nesta e, noutras estórias, e ainda alguma vontade de chorar porque há despedidas que não acabam jamais.

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Registar instantes que jamais se repetem

Não posso esconder o desejo em estar o mais perto possível dos animais. Mas a interdição de descer dos 4×4 que nos transportam nos safaris, leva a que se criem formas alternativas de se conseguirem as experiências e, por conseguinte, as fotografias, que julgamos irrepetíveis. Durante a maioria das viagens que faço, ocorre-me frequentemente esta sensação de estar a viver momentos únicos o que é uma alegria imensa, mas algo melancólica: de satisfação e de despedida, simultâneas. Por outro lado, todos os bons momentos da nossa vida são instantes que não voltamos a viver de forma igual. Naquele dia, a perspectiva de me integrar na savana fez-me sair pela capota tentando entrosar-me na paisagem, porém, foi do lado de dentro do jipe que se registou o meu ar mais confortado mas feliz por estar suficientemente próxima dos elefantes. É bom que entendamos algumas coisas. Eu sou um intruso na savana. Os outros jipes com viajantes também o são. Na verdade, aquele chão não é o meu, mas existe um qualquer trânsito energético a ligar-me a África. E foi-me permitido irromper na tranquilidade da pradaria onde os animais iam aparecendo. Primeiro, o efeito surpresa. A presença deles, ficando a cada segundo, maior do que a savana inteira. Há um elefante que me olha do canto do olho, esse que leva a cria ao lado. Uma definição de instinto que não vem nos dicionários, mas que nasce e morre ali para se apreender naquele momento. Isto há-de ser, qualquer coisa como saborear, aos poucos, o maravilhamento. Uma sucessão de imagens cada uma com a sua estória, que se divide entre um sorriso que fecha e outro sorriso que se abre. Ninguém viu, mas eu levava o coração pulsando-me nos olhos e a ocupar-me todo o sistema sensorial, com os refreios necessários em relação ao tacto. A tradução instantânea que tudo aquilo faz ao meu cérebro: a espessura da pele cinzenta-lilás destes gigantes de orelhas-abano caídas, as rugas nas quais não posso tocar, e a temperatura certa daqueles corpos ao sol que só avalio com os olhos. Os elefantes de passagem da direita para a esquerda, e nós na estrada de onde vínhamos continuando em frente. Cada qual nos seus caminhos. É bonito ter uma certa certeza que eles amanhã vão continuar ali no mesmo lugar, à mesma hora, com uma mesma idade. Apesar de os deixarmos para trás para sempre. Continuamos pelo parque e há mais um postal inesperado que se avista do cimo da montanha: um jipe de brincar e uma manada miniatura do outro lado do riacho. Um lugar onde estivéramos umas horas antes. Isto é o conceito de escala, sem dúvida uma boa ilustração da dimensão do continente africano. Parece que a geografia do mundo é, longe dos manuais escolares, uma coisa nova, cheia de cheiros que brotam da terra e eu não sabia. Quanto mais o dia avança mais penso que ontem o meu conhecimento era nada. Também não sei a quem posso agradecer. Diz-se que a savana só tem animais e eu nunca vi nada tão inundado de poesia até hoje.

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Faças o que fizeres não abras a janela aos babuínos

No percurso para Ngorongoro eu, que desde sempre adorei macacos, não quis perder a oportunidade de atirar fruta para os primatas que se multiplicavam à beira da estrada. O problema é que abertas as janelas, estes animais saltam, procurando entrar nos jipes em busca de alimento. Foi o que aconteceu: as garras de um babuíno rapidamente se fixaram na janela aberta e a cabeça, em menos de segundos, entrava já também. O momento que se seguia entre gritos (e lembro-me de me encolher e sucumbir ao pânico) fazia antever um desfecho trágico para a viagem. Mas o nosso motorista e guia, habituado a estas aventuras, empurrou de imediato (desde o assento da frente e com o carro em andamento) o animal para fora do jipe. Este episódio foi bastante marcante durante o safari. Não pudemos fotografar o susto de ter a cabeça do babuíno a tocar na minha cara, nem o instante em que o meu corpo todo tremia e, perdida em gargalhadas (pela felicidade da sobrevivência!), só me ocorria pensar na importância de, durante um safari, se respeitarem as fronteiras entre a vida normal na redoma do jipe e a realidade selvagem da fauna lá fora. Na verdade, tal como África é dos africanos, também a selva é dos animais.

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A Savana Africana

Foi em África – e, mais concretamente, na Tanzânia, em plena savana – que percebi que o objetivo da minha vida haveria de ser o de continuar a viajar e a conhecer. Foi também a única vez recordada em que o entusiasmo em relação à programação da aventura e à própria ideia da viagem foi maior no final. Normalmente, a antecipação das coisas agrega uma certa (grande) ansiedade, que vai decaíndo conforme a aventura prossegue. Mas, neste caso, não. A vastidão deste continente fez de mim para sempre uma outra pessoa. As árvores, os arbustos esporádicos, as gramíneas (ou como se diz, com outra graça, em inglês: summer grass) a cobrirem o solo, os lagos-oásis perfeitos na fotografia,  uma criança masai a pastorear a sua liberdade, as aves aos milhares fazendo a paisagem mudar a cada nanosegundo, e a tranquilidade dos outros animais descansando nos pastos ou partindo em migração indiferentes à espreita dos jipes. Ali senti a felicidade inteira de estar viva, senti a vontade de ter dentro dos olhos e do coração o resto das pessoas. Porque o amor pode ter muitos caminhos mas onde quer que eu vá o melhor de tudo será sempre a natureza.

Manada de búfalosThomson's Gazelle (Antílopes)BúfalosHipopótamo entre cegonhasGirafasZebraMenino e aldeia MaasaiPadrão de cegonhas no céuGirafa

Imagens: Lake Manyara National Park