Gorilas-da-Montanha

O Nasser prometeu que um fim-de-semana seria suficiente para incursionar pelo Parque Nacional Impenetrável de Bwindi com regresso domingo ao final da tarde. Tudo isto, para não comprometer o trabalho. Dito assim, sinto que vou sempre a tempo de realizar mais uma viagem da minha vida. E, apesar da falta de preparação física, da falta de impermeável e de calçado de hiking vamos em frente porque a palavra adiar não faz parte dos planos. São mais de 8 horas de viagem até ao Lodge em Ruhija com passagem na linha do Equador para almoço, além de podermos testemunhar a circulação da água em oposição nos dois hemisférios. Depois seguimos. O caminho até à floresta (próxima da fronteira com o Ruanda) não se antevê tão difícil como viria a verificar-se depois. O trajeto é composto pela colorida África habitual: desde a estagnação do trânsito à saída de Kampala, das vendas ambulantes, dos boda-boda carregados ao limite; passando-se as estradas cheias de buracos e quase sem ninguém, a linda paisagem verde forte das bananeiras e do chá mais rasteiro, as múltiplas chuvas rápidas até às vilas populosas de casebres inacabados com os posters das eleições de janeiro, e as crianças em liberdade que dançam junto à estrada e nos acenam adeus. Era como dizia na outra tarde: os africanos são inéditos e têm música dentro deles e, se calhar, é por isso que eu gosto tanto disto. Sábado, é também dia de Igreja: as mulheres vestem tecidos brilhantes com ombreiras em bico que me chamam à atenção. Tenho pensado que as africanas embelezam a cabeça com fitas e extensões de tranças compridas ou pequenos panos de apoio para carregarem jerrycans com água ou, tantas outras vezes, cestas de fruta, e, por isso, mantêm o tronco muito direito e o olhar em frente. A fruta também vai sendo levada nas motoretas e nas bicicletas. A van segue ligeira: Nasser prometeu. Enquanto observo tudo da janela sigo ao ritmo que os planetas deixam e não me lembro de ir com pressa; pois na verdade, a Terra não pára. A culpa é dos astros ou será dos grãos de café que nos despertam de manhã, afastando a melancolia das saudades de casa, dos abraços dos nossos, da vista de mar. E vamos dizendo que “Isto é triste mas a gente ri-se muito“; não há maneira melhor de encarar a vida. As horas foram passando a seu tempo. E a subida da montanha já se fez em completa escuridão. Os locais, sem lanternas, caminhavam zombies como se o dia ainda fosse a meio e só os faróis da van nos permitiam vê-los. Além do breu omnipresente, os buracos da estrada fizeram-nos galopar em cima dos bancos até ao parque, “Free Massage” dizia Nasser. Portanto, apesar do cansaço, do facto de estar muito frio, de não haver água quente, e de o jantar não estar à altura da fome, nada nos tirou a alegria. Afinal, tínhamos chegado. Para mim, com a ansiedade antecipatória do trekking aos gorilas, a noite passou a correr. O pequeno-almoço foi servido às 7 horas, seguiu-se o briefing explicativo da experiência e a entrega dos bastões de apoio. Sentia-me inquieta. Voltamos à van para dar início ao circuito de um ponto particular algures do alto da montanha onde abandonamos o carro. Da berma da estrada, afastamos uma cortina invisível para aquele novo mundo de árvores e começamos a descer. Após os primeiros minutos, deixo de perceber de onde vim. É difícil saber também onde pôr os pés. Os pássaros ouvem-se mas não se vêem. Tudo em volta é um precipício onde temos de nos mover enfileirados. Não há espaço para seguirmos lado a lado. Os trilhos parecem nunca ter sido percorridos antes. Os rangers e os guardas florestais que nos acompanham à frente e atrás, avisam sobre as pegadas frescas de animais, “If you see elephants, run in the opposite way” e por meio de foices e catanas vão abrindo terreno. Agarro o stick com a mão direita para perceber a solidez do piso. Um dos locais (porters) que não fala inglês vai-me amparando do lado esquerdo. Passo-lhe a mochila para ficar mais leve mas o caminho vai-se tornando cada vez mais difícil. Há muitos troncos deitados no chão que temos de sobrepor. Por vezes, a vegetação enrola-se nas botas e não consigo avançar. A descida é demasiado inclinada: sento-me no chão e prefiro deslizar por ali abaixo. Suamos. Mais de uma hora à frente, já subimos e voltamos a descer, várias vezes, atravessamos riachos, e tudo em volta continua a ser o mesmo padrão da floresta. Todas as árvores me parecem iguais. A vegetação é densa de ervas, arbustos, folhas que não terminam. O toldo da vegetação não permite uma entrada abundante de Sol. Vamos perguntando aos rangers vestidos de camuflado se ainda falta muito. Quando perdemos as últimas forças, os passos são dados em sacrifício e percebemos que o grau de dificuldade é, para nós, bastante elevado. Percebemos também o nome “impenetrável” daquela floresta. E lembramo-nos de no briefing nos ter sido dito que, em caso de necessidade, poderíamos chamar um helicóptero para nos socorrer. Precipitamo-nos a concordar em relação a essa possibilidade e perguntamos aos rangers como ativar o serviço, imaginando uma recolha rápida imediata e o belo espetáculo de sobrevoar aquelas montanhas. Os rangers riem enquanto passam a explicação: African-Helicopters são homens, que são chamados em emergência para nos carregarem de volta à estrada. Depois de algumas gargalhadas percebemos que era preciso seguir com um pé a seguir ao outro. E continuamos a única tarefa possível: descer e subir o resto do caminho. Vamo-nos entreajudando para não deixar ninguém para trás. Cerca de meia-hora depois mandam-nos colocar as máscaras e retirar os flash das câmeras: a família de Gorilas tinha sido encontrada. Olhei para cima: deitado entre lianas, descansando, imóvel e indiferente à nossa súbita chegada, estava, um gorila-da-montanha. Naquele momento, era a silhueta do animal face ao meu espanto em contra-luz. As árvores e os outros desapareciam diante do gorila. E o som. Seria a minha respiração sustida tentando serenizar o espaço para prolongar o instante, congelá-lo, não permitir que escapasse. Aquele momento, compreendia toda a razão da viagem. Mais do que as horas do caminho, mas de grande parte da minha vida. E, sob uma forma quase humana, ali, um punhado de poemas, peludo e preto, quieto para nosso deleite, como se em exposição. É nestes instantes que me sinto em absurda verdade. Na precisão de me saber viva. E sempre que cumpro desejos profundos transformo-me, vestindo mais uma camada de franca alegria. Acho que é por amar esta natureza. E por reduzir um pouco do seu mistério na sorte enorme da proximidade a ela. Era como se eu pudesse agora abrandar um pouco. Apesar de haver mais mundo, porque a felicidade não são pertenças, nem está no futuro, era aquilo ali, como se estivesse à nossa espera. Um cenário preparado e alguém a indicar “Look up. Enjoy this moment”, para consolação do espírito. Pouco depois este primeiro gorila descia para se deitar na base da árvore. Mudei de lugar. Por vezes, esqueço-me de ter medo. Sentei-me muito perto dele e senti que estava tudo muito certo. Deixei-me ficar observando-lhe as orelhas, o desenho das narinas, o brilho do espesso pêlo preto e o contraste com o castanho-vermelho dos olhos a verem os meus. Love touches love na língua dos loucos que crêem nesse tipo de comunicação superdesenvolvida sem palavras. Minutos a seguir desciam mais membros da família: o Silverback e um bebé. Quando desapareceram por entre a selva optamos por não os perseguir, e eu voltei para a estrada com outra lucidez, outro fôlego. Sentia-me esgotada mas com a sensação espantosa de sonho cumprido. Era isto ou a vida ser de uma normalidade tremenda.

Páscoa na Savana

Se calhar, fazemos a nossa vida, levados ao colo pela Providência. A oportunidade Dela me fazer repetir a experiência de um safári, fez-me sentir mais espiritual durante esta Páscoa. Os dias são cheios de vida para descontar ao tempo que se passa no escritório. E, nesta época de gente de máscara e pouco abraçada, não preciso de levar nada precioso na mala para casa. É simples: o meu ouro é o do brilho do Sol, escorrido no dorso das girafas; e do cinza aveludado dos elefantes chega-me a prata. A van vai seguindo sem pressa, de capota levantada, porque um corpo de pé alcança muito mais. E sinto-me a balouçar as pernas de uma tábua invisível, ao avistar ao longe um horizonte sem fim. Os jipes ficam minúsculos lá ao fundo, como um brinquedo de criança, e compreendo a imensidão desta África, à escala de todas as outras áfricas irmãs dentro do mesmo continente. Tecnicamente, com a exceção da estrada e da ponte dos chineses, os ponteiros dos relógios param dentro dos parques naturais. E, nesse entretanto, do lado direito da estrada escapa-se uma leoa sedenta. O palco é dela, mais à frente dos antílopes, depois dos búfalos junto ao lago, a seguir dos javalis, dos pequenos macacos, e das aves que se fazem ouvir. Todos em movimento contrastam com a nossa imobilidade (própria para contemplação) entre as cores, sempre as mesmas cores, muito presentes da terra. E todos os animais são livres nessa aridez. O ar agita um pouco o calor. Às vezes saímos do carro, procurando brincar mais de perto naquela terra que não nos pertence. E é esse o fascínio que recebemos ali sem artifícios, sem papel de alumínio, sem plástico. Recebemos dos ramos abertos a sombra da fauna, onde os animais descansam. Não há direções certas para os encontrarmos, nem tempo. Como dizia, os ponteiras param. À chaque instant/ Dans chaque chose/ L’éternité est là. Como naquelas obras de galeria que demoramos a perceber. Eu, pelo menos, gosto de me demorar nas coisas bonitas. Melhor ali onde nada há para sonhar mais perfeito: tudo apenas para deixar subir ao coração. De resto, já era um amor perpétuo desde a Tanzânia. Agora revisitava esta nova savana, tão hipnotizada quanto antes, por esta beleza e este silêncio que só entende quem o conhece e o viveu. São lições que se adquirem naquele espaço, com o olhar e o pensamento. E na falta de páginas para ler, tento a capa do Sul, e visto a bandeira numa espécie de homenagem a estes animais e a esta terra honesta. Porque a savana voltou a oferecer-me um novo corpo para vestir a alma. E para purificar o espírito, “God Knows I’m available” sempre.

Pessoas com música por dentro

O melhor de andar pelo mundo é o que acontece enquanto se vai. Não é o destino, não é a origem: é o trajeto e o estado de nunca saber o que pode acontecer entre dois pontos. E desconhecer o comprimento entre um princípio e um fim sem anúncio, é imenso. Não conhecer os dados nem quantas vezes os deuses respondem. E o número, ao todo, de quantos procedimentos. Quantos planos. Quantos desejos de morangos silvestres. Quantos cafés. Quantos buracos na estrada. Quantas moradas diferentes. Quantos tijolos de xisto. Quantas notícias de longe a accionar-me a turbina do peito. Aqui, há nuvens que caem do céu. Saudades da praia. Nomes noutros dialetos. Muitas vezes uma vontade enorme de rir. E tantas vezes fitas de embrulho, brilhantes. Novas canções na rádio. Músicas cor de pérola onde coexistimos na mesma vibração. Como dínamos. E, aqui e ali, pessoas com outra música por dentro. Servidas em travessas de prata. Muito limpa para refletir em espelho. Deixar o presente ser igual ao presente. Rir. Porque os outros são cidades cheias de janelas, memória e dia. Pequeníssimos universos a sós cheios de estrelas por cima. São também estórias passadas e sonhos de futuro. Mares mal medidos e ventos de outra temperatura. São aqueles que não vencem nem perdem sozinhos. Cálcio de outros ossos mas água do mesmo mar. Caminhos longos que te intersetam numa breve eternidade. E quantos nesses caminhos, quantos sem rosto levas que, entre um segundo e um segredo, dançam para ti?

Pinturas da Natureza

Movimento-me enquanto fotografo da janela. Não sei exatamente onde estou mas (após as barracas da aldeia, dos postos de gasolina, depois das motos e das populações) vejo o contorno das árvores a passarem. Aqueles tons homogéneos, de verde em harmonia com outro verde parecido. E, pela frente, as linhas de troncos, equidistantes e muito equilibradas. Podia ser uma pintura de Monet, onde a complexidade da vida se interrompe. Ou sou eu que a interrompo para me deixar naquela ausência onde a natureza vive. A forma como aceitamos o que nos oferece o mundo é o que nos distingue uns dos outros. A forma como desejamos escalar o ombro das montanhas ou deslizar na neve. Pois o mundo, desde o começo, que se verga perante a nossa vontade. Não há lugar a contratos. E em diferentes circunstâncias recebemo-lo, ora com mais amor aguardando o por-do-sol, ora com menos cuidado a decifrá-lo. Tantas razões para me perder no seu mistério, tantas para aprender a lição que a pedra ensina. Pensar na morte impossível das águas do mar, transformadas em chuva. Por que tudo corre e passa desde a infância.

Movimento-me enquanto olho da janela. Nesta África, não existe Inverno. Sinto a pulsação do verde que o carro vai deixando para trás. Parece um jogo de espelhos num qualquer tempo, num qualquer século. O alinhamento da natureza integrada com as raízes ainda na terra, naquele sentido vertical, de ascender (nunca descer) durante o crescimento. Ou talvez no sentido de irromper uma visão ali tão simples: sem artefatos, sem o elemento humano, sem pássaros. Nem sequer um raio de sol a incidir para algum ponto particular. Nenhuma luz a retocar o rosto do dia entre os corredores de árvores. E nesse reino, à minha volta, somente um movimento levemente arrastado de vento a levar um pouco das folhas consigo. Penso nisto, e na minha maneira de não escapar às palavras, e na minha alegria de, com elas, digerir as minhas respostas, em qualquer geografia, defronte de qualquer horizonte ou fotografia. Há sempre poemas pois não sinto nenhum país como estrangeiro. Penso numa bola a orbitar alucinadamente. Um único mundo, uno, no seu próprio enigma. Com pessoas, como eu, tu, e outros que (ainda mais euforicamente) abraçam flores frescas à tona da tinta panorâmica, que observam com espanto, todos os dias.

“Negative thoughts just didn’t work in this room. I think this paiting is just too beautiful to support anything that is not optimism.”

Love, Upside Down

José Luis Borges estava certo quando disse: “No se puede contemplar sin pasión“. Portanto, eu, contemplo apaixonada a vida. Não há outra forma para encarar tudo isto. E olhar deve ser uma sucessão de pausas, de espanto, para se desvendar novamente um outro lado. Fevereiro, esta noite, em metamorfose, abrir-se-á em Março, de encontro à luz. Para arrancarmos borboletas das árvores e de dentro de nós. De maneira que, ainda neste Domingo, decidi escrever-te. Dizer-te que deste lado da terra, mais ao centro, o dia se acende quente. Há um punhado de Sol num lugar particular, como num poema. Há um vulcão invertido, uma cratera em chamas, um incêndio rasgando esse círculo no canto superior. Temos de aproximar o ouro dos olhos, brilho sobre brilho. E levantar a cabeça ao alto. Assistir a esse fogo. Por outras palavras, aproveitar a bola incandescente que principia continuamente no céu. E então, dizer-te sobre as tardes em que, aqui ao longe, uma nuvem cai inteira de cima. Dizer-te do cheiro africano, da terra vermelha. Primeiro húmida, depois muito seca – com esse chapéu inacessível que lês para ti; uma sombra circunflexa, fruto da tua atenção às minhas palavras. Antecipando uma espécie de esperança, porque mesmo que chova, tudo fica mais sério depois. E agora temos dias diferentes. Olho as águias em Kampala e a amplidão das suas vistas. E mesmo à distância, reconheço outros sentidos que fizeste em mim. E, por falar nesse ardor, já te falei na dispersão da grafite em brasa? Era assim sempre que te lia. Lembrei-me das paisagens de Salamanca. De nos perdermos com a tonalidade amarela das flores. Como se a terra inteira em grãos tivesse ali desabrochado, num silêncio luminoso, levemente interrompido pelo vento, e algum carro veloz a passar na auto-estrada. Eramos eu, tu, e o abismo do prado. A nudez das flores, magnética a espelhar o céu, deixando tudo tão claro, como agora, para virarmos o mundo ao contrário.

Funny Birds e Os Mercados de rua no Uganda

Dizem que África é toda igual mas não… Eu não concordo, eu acho que é mesmo tudo diferente. E há sempre aprendizagens para fazer; basta sair de casa e observar à volta. Por exemplo: nos mercados de rua ugandeses (que existem em todas as esquinas), podemos encontrar Rolex mas nem tudo é o que parece. Aqui, trata-se de um snack de pão indiano enrolado com recheio de omelete que já se tornou uma iguaria nacional. E, além deste, há outros mal entendidos para degustação: Assim que paramos o carro, vêm tentar vender-me nacos de carne em jeitinho de espetadas de galinha mas que, naturalmente, também escondem alguns mistérios. Em conversa com os locais com quem fui ganhando confiança, acabei por me informar que normalmente são vendidos “Funny Birds” em lugar de chicken sticks. Faltava saber que gatos são estes que nos querem fazer passar por lebres… As pesquisas na web, dizem tratar-se de abutres! Portanto, a parar ao pé da estrada, continuarei a optar sempre pela saborosa fruta por descascar desta “Pérola de África”, como bananas Matoke e ananás. Em todo o caso, são estas paragens ao longo do caminho, que nos permitem conhecer os ugandeses. É assim que aprendemos a decidir que são um povo simpático, curioso, e que não se inibe de se chegar a nós para conversar. No escritório em Kampala a interação é mais filtrada, pode haver algum assunto que nos melindre mutuamente, mas quando ficamos mais à vontade, a comunicação faz-se nos dois sentidos e às vezes é surpreendente. A Selma que trabalha no condomínio perguntou-me: “Are there African people in Portugal?” deixando-me feliz por ajudá-la em 2 minutos a transpor 2 continentes. Mas é na rua, entre estranhos, que misturamos as nossas culturas com maior liberdade e sem filtros. E, ao longo destes percursos prolongados de muitas horas, o caminho faz-se em grande parte através da janela, onde o movimento cria uma variedade de cores e de formas desconcertante, sempre ao nível térreo pela escassez de construção em altura, como no imaginário do cinema western. Durante as paragens, enquanto observo as pessoas, sinto-me observada, mas é só porque o Sol nos fez diferentes. As crianças com a sua luz transcendente ainda nos encaram de uma mesma realidade. É como se àquela distância, ainda não se detetem as diferenças que inevitavelmente aparecem socialmente com o avanço do tempo.

Da janela, o caminho vai ficando para trás. As localidades assemelham-se a quartos de brincar com tudo espalhado ao acaso. No espaço em redor, há certas preciosidades inesperadas como um new beetle junto a uma sucata, ou uma cabra a sair de uma loja, entre tecidos africanos dispostos em charriots de pau, pirâmides de hortícolas e artigos singulares que se distribuem pelas bancas até ao infinito das estradas nacionais. No entanto, é dentro da própria cidade, nas filas intermináveis de trânsito, que podemos observar com mais atenção as coisas de perto. E, além das máscaras de prevenção Covid, há muitas vendedoras e vendedores que carregam objetos diversificados, como coçadores de costas, quadros, coadores, alguidares, e até animais vivos. Há muitas crianças nas vendas carro-a-carro. Há oferta de muita coisa nas margens das estradas: sofás, roupa – os manequins do lado exterior das lojas exibem indumentárias estranhas – e o que quer que pareça fazer falta em dias de muito calor. Há apenas que saber procurar. E há sobretudo muito trânsito. Entre os muitos boda bodas apressados, há tudo de tudo, e cada pedaço que cabe na janela é irrepetível fazendo do Uganda um gigante patchwork animado. Tenho a certeza que amanhã já nada será igual.

Viver em África: Uganda

“Uganda cena!…” dizia-me alguém muito próximo após lhe revelar o país africano que tem um grou-coroado no centro da bandeira, e que me viria acolher durante a execução de um projeto de Oil & Gas. De qualquer forma, de projeto em projeto, a pandemia continua a trocar-nos as voltas um pouco por todo o lado, por isso, vou andando ao sabor desta nova corrente sem fazer grandes planos de me demorar em cada geografia. E o melhor é aproveitar que vim uns tempos para África e tentar conhecer o que é já inolvidável. Ao cabo do primeiro mês, a primeira coisa que salta à vista em Kampala (e nas principais estradas nacionais) é a presença de taxistas de motorizada, os “boda boda“, que são o meio de transporte mais popular entre os Ugandeses. Independentemente da teoria das regras de condução, é aceitável encontrarmos 3 passageiros além do motorista, incluindo crianças, ou objetos de dimensão considerável serem transportados de motoreta nas estradas do país. Os capacetes são apenas ocasionais. E as senhoras equilibram-se bem, sentadas de lado, com as mãos livres e uma confiança que me faz questionar o excesso de zelo europeu. Mais regras no Uganda: fumar dentro do veículo e na via pública dá direito a prisão, e andar de skate é também proibido:

Mas a polícia não atua perante a condução em sentido contrário, talvez por o tráfego ser muito intenso, especialmente, ao início do dia e ao final da tarde. Ou por no meio de tanta contramão deixar de haver um sentido para considerar contrário e um sentido para avaliar como certo. E assim é a vida na capital. Quando subimos para norte, a paisagem muda, aproximando-nos da natureza. Depois de muitas horas de caminho, os motociclistas desaparecem totalmente do cenário. Agora o horizonte é mais denso e verde enquanto o sol se deita e é altura de parar para pernoitar na redoma das redes mosquiteiras do lindo refúgio da Saltek Forest Cottages, em Masindi. De manhã, os macacos bem despertos abrem as hostes em família, trepando e descendo as árvores para nos virem aceitar oferendas de fruta fresca num jogo quase igual de interação homem-macaco. Segue-se a aguardada incursão no Parque Nacional do Murchison Falls, na Provícia de Buliisa, pela grande estrada de asfalto que os chineses construíram, e onde a vida selvagem se encontra à espreita e me permite relembrar as aventuras de há dez anos na Tanzânia. São os babuínos que se atravessam na estrada à procura de comida, as gazelas, e os pássaros. Os big five ainda estão escondidos mas a cerca de 20 Km das cascatas do Nilo, de repente, uma mancha escura sugere algo novo que eu nunca tinha visto: os raros macacos da espécie Colobos Guereza de pêlo comprido preto e branco que se abraçam aos galhos no cimo das árvores deixando as caudas felpudas ao dependuro. Não consegui ainda fotografá-los devido à velocidade da pick-up a caminho das reuniões mas, eu hei-de voltar.

Ilha de Gozo, a Beleza natural de Malta

Apanhar o ferry em Cirkewwa no ponto mais a norte da ilha, para deslizar sobre o mediterrâneo até Gozo. Em terra, a viagem de autocarro faz-se bem, e depois do calcário urbano, da janela em andamento é possível contemplar-se uma imensidão de verdes. Este ano, o Inverno nem parece bem Inverno. Bem-vindos a Malta. Sob as águas azuis, dá para aproveitar o exterior do ferry até Gozo, com Comino pelo caminho. 2020 termina hoje. Não há muitos viajantes, por isso passeia-se sem grandes aglomerados. Quando o ferry atraca, não se encontra muita oferta de locomoção. Os autocarros de City Sightseeing não estão em funcionamento. O melhor parece ser negociar com os taxistas a ida aos pontos mais importantes da ilha. A Janela Azul desmoronou-se há 3 anos, mas antes de se chegar às margens, as belíssimas vistas do alto da Cittadella e o centro em Victoria valem uma visita. Segue-se a singular muralha de Dwejra, em San Lawrenz, com seus portões coloridos. E o taxista escolhe o local de Xlendi para o almoço.

Marsaxlokk, no Primeiro de Janeiro

A taxista enganou-se no caminho. Pensei que – talvez devido à pandemia – estivesse confusa para me largar no Porto da zona industrial de uma vila próxima. Foi a primeira vez que me aconteceu um motorista de táxi voltar atrás para corrigir um trajecto pedido. E, mais interessante ainda, é pensar que a viagem havia sido paga através de uma aplicação local para o telemóvel. Marsaxlokk foi o lugar escolhido para o primeiro almoço de 2021. A marginal da aldeia piscatória exibe os coloridos barcos malteses chamados “luzzu”, servindo de panorama perfeito nos restaurantes ao ar livre, onde as mesas são carregadas para a primeira linha de água. Depois de sentar, são entregues mantinhas quentes para as pernas dos clientes. Não é que estivesse muito frio, mas depois da longa noite de passagem de ano, apetece algum conforto naquele início de tarde. Depois, deambulei na área. As estátuas de bronze dos pescadores, os bancos coloridos, os barcos tradicionais dentro e fora de água, são objectos característicos e bastante fotografáveis. Imaginei os passeios e as praças em dias normais de verão repletos de turistas. Este ano, pouca gente teve coragem ou vontade de viajar.

Memorial aos escravos em Anse Caffard

À primeira vista o lugar é idílico, e contam-se 15 estátuas de cimento com 2 metros e meio de altura, dispostas em triângulo. Mas o que torna este espaço diferente (e nisto as fotografias ajudam) é o que estas estátuas representam e de que forma o escultor local, Laurent Valére, as edificou. Este monumento colossal é composto por figuras semelhantes que, apesar da solidez da matéria-prima usada, anunciam uma expressão única. No seu conjunto, têm a força de um, e o semblante da tristeza que carregam e transmitem, não deixa ninguém indiferente. As estátuas estão a olhar o mar em frente, mas as cabeças levemente inclinadas para baixo e os braços baixados ao lado do corpo manifestam uma sensação de inércia e de resignação. Mesmo sem conhecermos a história do lugar, podemos sentir estas emoções admirando-as de perto, podemos tocar nas estátuas e andar no meio delas pois não existem quaisquer separações físicas. A história deste lugar é uma história de vergonha assente em propriedades e serventias, a respeito de direitos de homens sobre outros homens e, em particular, acerca da tragédia do naufrágio de um navio de escravos proveniente do Golfo da Guiné no ano de 1830, quando Napoleão havia abolido o comércio de escravos em território francês quinze anos antes.

 

A Liberdade Iluminando o Mundo

Vivemos tempos em que não questionamos a nossa liberdade. Em lugar disso, fazemos representar-nos de modo instantâneo e por meio de faixas no rosto, com as cores de um outro país sobre a imagem de perfil, ou através de um hashtag nas publicações para não sair de casa, ora de um quadrado ou círculo preto, nas redes sociais. Conforme a tendência mais actualizada ao segundo, há um género de dever de participação. Então imitámo-nos nas nossas presenças digitais. Contagiámo-nos com notícias que chegam da América, e do mundo, sobre pessoas e injustiças contra pessoas. Ao mesmo tempo, levantam-se cartazes e gritos pelas ruas; os monumentos são derrubados e sarapintados de tinta graffiti, com letras e crenças e motes e histórias. Há uns dias perguntei o que era ACAB, e um amigo explicou-me ser All Cops Are Bad. E então era isto que as borras de tinta pretendem dizer sobre os monumentos? “Todos os polícias são maus”. Outros dias gritava-se “Todos Diferentes Todos Iguais”. E era este o perigo das generalizações atravessarem continentes e mares para nos apanharem. Eu não visitei os Estados Unidos como a concretização de um sonho. Já as torres gémeas haviam implodido mas quis ir ver a representação da Liberdade edificada na sua ilha, tal como a França a ofereceu: a figura coroada da deusa romana em tons de azul e de braço direito erguido ao céu de tocha na mão. Azul, azul, sem mais cores. No regresso a Manhattan consegui uma das melhores fotografias da minha vida, um instante mágico de sobreposição de liberdades, um momento irrepetível como todos os outros que vivemos.

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Burano, o reinado das cores na Lagoa de Veneza

Por causa da pandemia e do aconselhamento ao uso de máscaras, tenho-me lembrado de Veneza. E pensar em Veneza leva-me a Burano, a sete quilómetros a norte da ilha principal, ou a cerca de uma hora de vaporetto. O pequeno arquipélago das casinhas coloridas, com roupa a secar num cenário pitoresco, como se fosse a Ribeira do meu Porto. Antes da viagem, ao pesquisar sobre este lugar, li em quase toda a parte que “em Burano não há muito para fazer” e isto faz-me reflectir sobre como a opinião dos outros pode ser subjectiva. Nem sempre é necessário que haja muito para fazer. Mas este mundo compreende tantas vírgulas, que às vezes é preciso parar. E parar também devia ser urgente pelo simples prazer de admirar as coisas e senti-las. Por isso, parar é preciso, como era navegar umas dezenas de anos antes de Cristo quando Pompeu inaugurou essa ideia de que “Navigare necesse; vivere non est necesse” por, à época, ser muito importante dar alento aos marinheiros. Os tempos entretanto mudaram-nos a forma de viajar, e Pessoa, imbatível, navegando no sonho a mil anos de distância, pediu a tradução de Petrarca escrevendo “Quero para mim o espírito dessa frase”. Por isso, amigos, a vida interior pode ser frenética enquanto estamos sentados a sonhar. E é a permanência do prazer do sol na pele que me leva à praia. Ou o terminar um livro bom, que requer alguns minutos para deixar entrar (e entranhar em espírito) esse mesmo sentido. Até pode ser só um poema, ou uma frase tremenda, como aquela de Herberto Helder que diz “Minha cabeça estremece com todo o esquecimento“, e eu escrevo para ficar nas minhas estórias, para rever as minhas fotografias, e para ser grata à vida. E, nestes novos tempos epidemiológicos não temos de nos aborrecer. É preciso desconfiar do desconfinamento. Não cair na turbulência dos dias do passado. Pode-se viver sem ansiedade dos lugares por visitar porque todos os lugares esperarão por nós. Haja tempo para degustar o Spritz que nos traziam à mesa, no frenesim dos transeuntes reciclados das ruas, e relembrar as coisas que aconteceram e os lugares que escolhi. Hoje acordei a pensar nas máscaras de Veneza e de como Burano foi um dia bom para caminhar, para atravessar pontes, fotografar, e ser modelo. Um dia sem pressas com direito, ao fim da tarde, de uma última paragem por Murano para trazer dois balões de vidro fabricados ali, um de cor amarelo-sol e outro azul-céu em representação de outro dia qualquer com tanto para fazer quanto se quiser.

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