A Vida no Camp – Moçambique

Passaram sete semanas desde que cheguei a Cabo Delgado e ainda não vi uma criança. E as crianças são os olhos negros que África tem para nos acolher, mas em Cabo Delgado, nao vejo esses olhos grandes que explodem dos rostos pequeninos. Porém, neste continente, o calor e a chuva quando se misturam exalam um cheiro da terra que não se confunde com outra, e sei que estou em África. Há aromas que nos fazem pulsar de forma diferente: esse, da terra molhada, ou, por exemplo, o vapor do café acabado de fazer. E há cheiros que dão razão aos sentidos humanos, como os mercados de especiarias na India, ou, neste momento, como me ocorre, o cheiro do teu cabelo e o efeito-bálsamo que tem em mim. Às vezes, acredito no desígnio dos deuses para todos os seres. E outras há em que só acredito na vida que decidimos viver. Mas seja do jeito que for, as horas seguem no sentido de sempre. Partilhamos as pick-up cumprindo a baixa velocidade estipulada nos sinais redondos de bordas vermelhas das estradas que estamos a construir. Cruzamo-nos com animais selvagens entre o Camp e a obra. Quando me afasto da vedação, vejo imagens bonitas do lado esquerdo do carro. Às vezes macacos, um pombo verde, aves com cristas engraçadas cujo nome ignoro. Abro a janela para ver as palmeiras banhando-se ao sol. Levo proteções nas pernas contra as cobras das áreas com vegetação alta. O dia vai acontecendo e quando chega a hora, todos vamos para a mesma cantina, para os mesmos tabuleiros partidos, usar os mesmos talheres, as mesmas mesas, as mesmas cadeiras, a mesma galinha com arroz de todos os dias. Nos intervalos não há nada para comer. Depois temos a lavandaria, o ginásio, a sala onde os rapazes jogam snooker com os paus das vassouras. O Camp parece uma grande circunferência quando vamos caminhar mas nos desenhos tem outro formato. É que contigo caminho sempre numa órbitra que parece muito melhor definida, um anel precioso, se calhar numa galáxia distante, não sei, mas parece longe daqui. Parece que saio de onde estou porque me sinto mais livre. No entanto, estar livre é uma promessa. Não estou autorizada a sair do acampamento ou a visitar as aldeias vizinhas. Os procedimentos são exclusivos para as necessidades reais do trabalho. Existem documentos para preencher e essa liberdade que tanto me apraz é condicionada ao que conheço de fora, de antes daqui. E aqui ninguém entra e ninguém sai por terra. Tudo parece uma grande rotina de dias iguais. Parece e é a vida a passar. Às vezes, detenho-me na grande árvore em frente à cantina banhada pela luz da manhã. Há duas semanas fotografei-a com o sol a acordar por trás. Eu sei que não devemos fotografar. Mas vi magia naquilo, e uma qualquer crença de ressurreição. Depois faço uns crops que retiram a identidade às imagens, desassociando-as do lugar. Nao há-de haver mal nenhum nisto. E, de toda a maneira, desde que cheguei fiquei sem saber se me havia de demorar por aqui. Mas depois apareces tu. Tu, e a tua loucura. Tu, e o toque da tua pele viva. Tu, que estás definitivamente mais vivo do que todas as outras pessoas. Tu, e os teus olhos com o céu inteiro por dentro, o mar, e mais este planeta azul. Tu, como uma flecha certeira. Tu, sempre no arco-íris que nos visita o Camp. Tu, e a tua-minha música. Tu, e a tua atitude. Tu e a tua loucura, repito. Tu, sem filtros. Tu, sorriso puro quando sorris. Tu, no teu primeiro adjectivo. Tu, a própria definição de espontaneidade. Tu, e a tua loucura outra e outra vez. Tu, que ao primeiro olhar me viste demorar-me em ti. Tu, que carregas o Sol nas costas. Tu, que és chama, brasa, calor. Tu, desconcertando-me com a tua graça. Tu, num beijo que ainda mais ninguém viu. Tu, feito todo coragem. Tu, hoje, o meu melhor presente. Passaram sete semanas desde que cheguei a Cabo Delgado e eu, que ainda não vi nenhuma criança, encontrei-as todas em ti. Tu e essa luz que carregas faz a minha vida muito mais bonita e, por isso, este meu dia é para ti.

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