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Entardecer na savana

Os dias em África são felizmente longos mas, quando o Sol se põe, o Sol deslumbra. Então Deus há-de ser um arquitecto de paisagens mais ocupado com este continente do que com qualquer outro. Um jardineiro sagrado maquetizando as suas obras-primas cá em baixo. A bola amarela girando até cair na linha da terra ao fundo. E o papel de parede, que é o céu por esta hora, fica numa espécie de cromatografia celeste, destilando-se num dégradé vermelho a roxo, com as nuvens tapadas atrás. Então, todos os dias, as árvores acordam para se transformarem em silhuetas ao entardecer. Todos os dias, alguém, por certo, a puxar o Sol para baixo. Ou, todos os dias, apenas a vontade dos astros e do universo inteiro em deixar cair o círculo de fogo, devagarinho, naquele pôr-do-sol.

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O rei da savana, aquela música e eu

É na savana, onde existe uma árvore aqui e outra ali e abunda a vegetação rasteira, que reina o leão, confundindo-se na mesma cor africana que pinta tudo o que é árido e seco. Depois há o esplendor da planície infinita a que os Masai chamaram Serengeti. Olhamos em redor e o horizonte acaba sempre da mesma maneira: uma linha distante e impossível de alcançar. Há a beleza das manhãs, ou da luz que nos acorda em África e ostenta toda aquela dimensão. Mas, enquanto ao longe a terra se difunde no céu, a algumas dezenas de metros há milhares de animais que se movimentam. Vamos andando à velocidade lenta do jipe. E podemos contemplar o que vemos durante alguns momentos à procura dos big five. A temperatura vai subindo e retirando alguma leveza ao panorama, fazendo mais contraste. Paramos perto de um charco. Em frente, várias espécies de antílopes alinhando-se na paisagem e, de repente, um ponto que parece ser um gato de tamanho grande. É preciso trocar de objectiva para vermos com as lentes das máquinas se será mesmo um leão. Então deixamos de ter dúvidas. Há também leoas ao lado. Queremos ficar ali, com aquela família, não sabendo o que irá acontecer. O calor é já intenso. Deixamos de contabilizar o tempo. Queremos mais sobre o leão. No segundo em que se levanta comentamos a nossa exaltação. Ali está o soberano felino tão decidido quanto indeciso, parado, com as quatro patas no chão. Sagrado naquele segundo. O ruído que se ouve é sobretudo o do vento, de vários pássaros que não sei identificar e do motor de mais jipes procurando também a aproximação. É aquela música da natureza que só podemos encontrar ali. Ouvimos ainda os disparos das máquinas na ânsia de levarmos connosco cada pormenor. É preciso aproveitar o leão à nossa disposição. Agora nada é mais importante. O jipe vai sendo dirigido muito devagar para podermos observar a juba, o porte musculado, e a sua grandiosidade ao movimentar-se. De repente, há um rugido-uivo que o distingue e continua a caminhar. Os jipes ficam parados. É o momento de também nos calarmos, e ficamos a sós naquele estado em que o ruído da natureza se torna o guia essencial e é qualquer coisa impossível de explicar. E assim que o percebemos na nossa direcção lentamente deixamos de nos mexer. O guia pede que fiquemos em silêncio. Então ficamos simplesmente a olhar o animal. A compreensão de que nada pode ser tão bonito, tão forte e tão pleno preenche todos os instantes. O presente que vivemos fica totalmente ocupado pelo leão que vem caminhando na nossa direcção. Altivo, distinto de qualquer outro e percebo bem porque lhe chamam rei. Vem já a escassos metros de nós e é quando decide levantar a cabeça, olhando-me de frente. Aqueles pequenos olhos brilhantes cor de amêndoa ao sol dentro dos meus próprios olhos. Não consigo pensar em mais nada. O meu coração bate tão forte como nunca imaginei. Não consigo mover-me para fechar as janelas. Não há tempo para arranjar estratégias de protecção. Não há tempo para nada. É o leão a chegar. O meu coração é uma bomba a explicar-me o que é afinal o medo. Apercebo-me que se quiser, o leão entra no jipe de um salto. E é a vida prestes a terminar que escolheu o meu lado esquerdo do peito para me dizer que vou morrer. Penso tão forte nisto que continuo sem me conseguir mexer. Estou aprisionada em mim. Tenho os olhos inundados por saber que a minha vida vai acabar só não sei por que razão me sinto tão feliz. E também não sei o que vai acontecer primeiro: se é o leão a atacar-me ou o coração a abrir-me um buraco no lado esquerdo do peito. Então o leão chega junto ao jipe, olha para o chão e decide continuar pelo lado esquerdo. Só neste momento, separados os meus olhos dos olhos do rei e com ele à distância de um braço, só aqui, o sangue me deixa pegar na câmara e fotografá-lo. Agora percebo a felicidade do que acabo de viver. Provavelmente não terei jamais um momento tão vivo. E o leão, acabado de atravessar a rua, a sua rua, porque a savana é dele, pára uns metros à frente para se deitar na sombra de uma árvore.

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Visitar uma aldeia Masai

Aqui não faz falta uma cidade. Mas é muito diferente viver esta experiência e depois tentar escrever sobre ela. Penso que temos de colocar uma banda sonora antes de começarmos. Pode ser do África Minha, ou, como a tradução francesa diz melhor Souvenirs d’Afrique. Então, olhamos em volta e sentimos: a verdade absoluta sobre o que chamamos terra, a aridez da paisagem mais elementar e a tranquilidade depositada na natureza desprovida de artifícios. Vemos também o tempo, porque existe tempo para o vermos ali, tão espesso quanto o silêncio, deitados na pradaria. Qualquer coisa enorme entre o amarelo e o castanho. E o céu parece menos azul do que se anunciava em sonhos. Pagamos a taxa de entrada e entramos na aldeia. O povo Masai ergue as suas pequenas casinhas quase sem alterar o horizonte. Os homens e as mulheres vestidos sobretudo de vermelho e azul. Elas cantam, eles saltam. Tudo é feito para nos receberem em alegria. Há um que fala razoavelmente inglês, os outros acompanham sorrindo e nos seus próprios idiomas. Convidam-nos a cantar e a saltar com eles, depois a conhecer o interior das pequenas cabanas erguidas com as estacas das acácias, e cobertas de palha onde o esterco bovino serve para isolar do frio. Apesar da matéria-prima, na verdade, cheira a simples. É bonito estar ali, senti-los como parte da natureza. Diria mesmo um gigante privilégio. Um lugar onde não encontramos nada de aparatoso e supérfluo como temos nossas vidas normais e diárias. Não sei durante quanto tempo ainda os deixarão viver como guerreiros nómadas, envolvidos nas suas mantas Shuka e de lança na mão. Durante a visita, além de nos ciceronearem pela aldeia, contam-nos estórias sobre a educação das crianças, desmistificadas mais tarde pelo guia. Mostram-nos as maravilhas feitas de missangas coloridas que dispõem para vender, e, antes de partirmos, podemos levar o artesanato que quisermos mas convém saber negociar. Eu enchi-me de colares mas acabei por trazer um cinto e uma pulseira que, sem lhe pedir, um masai me colocou no tornozelo. Trouxe também as memórias para transformar nesta e, noutras estórias, e ainda alguma vontade de chorar porque há despedidas que não acabam jamais.

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Registar instantes que jamais se repetem

Não posso esconder o desejo em estar o mais perto possível dos animais. Mas a interdição de descer dos 4×4 que nos transportam nos safaris, leva a que se criem formas alternativas de se conseguirem as experiências e, por conseguinte, as fotografias, que julgamos irrepetíveis. Durante a maioria das viagens que faço, ocorre-me frequentemente esta sensação de estar a viver momentos únicos o que é uma alegria imensa, mas algo melancólica: de satisfação e de despedida, simultâneas. Por outro lado, todos os bons momentos da nossa vida são instantes que não voltamos a viver de forma igual. Naquele dia, a perspectiva de me integrar na savana fez-me sair pela capota tentando entrosar-me na paisagem, porém, foi do lado de dentro do jipe que se registou o meu ar mais confortado mas feliz por estar suficientemente próxima dos elefantes. É bom que entendamos algumas coisas. Eu sou um intruso na savana. Os outros jipes com viajantes também o são. Na verdade, aquele chão não é o meu, mas existe um qualquer trânsito energético a ligar-me a África. E foi-me permitido irromper na tranquilidade da pradaria onde os animais iam aparecendo. Primeiro, o efeito surpresa. A presença deles, ficando a cada segundo, maior do que a savana inteira. Há um elefante que me olha do canto do olho, esse que leva a cria ao lado. Uma definição de instinto que não vem nos dicionários, mas que nasce e morre ali para se apreender naquele momento. Isto há-de ser, qualquer coisa como saborear, aos poucos, o maravilhamento. Uma sucessão de imagens cada uma com a sua estória, que se divide entre um sorriso que fecha e outro sorriso que se abre. Ninguém viu, mas eu levava o coração pulsando-me nos olhos e a ocupar-me todo o sistema sensorial, com os refreios necessários em relação ao tacto. A tradução instantânea que tudo aquilo faz ao meu cérebro: a espessura da pele cinzenta-lilás destes gigantes de orelhas-abano caídas, as rugas nas quais não posso tocar, e a temperatura certa daqueles corpos ao sol que só avalio com os olhos. Os elefantes de passagem da direita para a esquerda, e nós na estrada de onde vínhamos continuando em frente. Cada qual nos seus caminhos. É bonito ter uma certa certeza que eles amanhã vão continuar ali no mesmo lugar, à mesma hora, com uma mesma idade. Apesar de os deixarmos para trás para sempre. Continuamos pelo parque e há mais um postal inesperado que se avista do cimo da montanha: um jipe de brincar e uma manada miniatura do outro lado do riacho. Um lugar onde estivéramos umas horas antes. Isto é o conceito de escala, sem dúvida uma boa ilustração da dimensão do continente africano. Parece que a geografia do mundo é, longe dos manuais escolares, uma coisa nova, cheia de cheiros que brotam da terra e eu não sabia. Quanto mais o dia avança mais penso que ontem o meu conhecimento era nada. Também não sei a quem posso agradecer. Diz-se que a savana só tem animais e eu nunca vi nada tão inundado de poesia até hoje.

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Faças o que fizeres não abras a janela aos babuínos

No percurso para Ngorongoro eu, que desde sempre adorei macacos, não quis perder a oportunidade de atirar fruta para os primatas que se multiplicavam à beira da estrada. O problema é que abertas as janelas, estes animais saltam, procurando entrar nos jipes em busca de alimento. Foi o que aconteceu: as garras de um babuíno rapidamente se fixaram na janela aberta e a cabeça, em menos de segundos, entrava já também. O momento que se seguia entre gritos (e lembro-me de me encolher e sucumbir ao pânico) fazia antever um desfecho trágico para a viagem. Mas o nosso motorista e guia, habituado a estas aventuras, empurrou de imediato (desde o assento da frente e com o carro em andamento) o animal para fora do jipe. Este episódio foi bastante marcante durante o safari. Não pudemos fotografar o susto de ter a cabeça do babuíno a tocar na minha cara, nem o instante em que o meu corpo todo tremia e, perdida em gargalhadas (pela felicidade da sobrevivência!), só me ocorria pensar na importância de, durante um safari, se respeitarem as fronteiras entre a vida normal na redoma do jipe e a realidade selvagem da fauna lá fora. Na verdade, tal como África é dos africanos, também a selva é dos animais.

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