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Memorial aos escravos em Anse Caffard

À primeira vista o lugar é idílico, e contam-se 15 estátuas de cimento com 2 metros e meio de altura, dispostas em triângulo. Mas o que torna este espaço diferente (e nisto as fotografias ajudam) é o que estas estátuas representam e de que forma o escultor local, Laurent Valére, as edificou. Este monumento colossal é composto por figuras semelhantes que, apesar da solidez da matéria-prima usada, anunciam uma expressão única. No seu conjunto, têm a força de um, e o semblante da tristeza que carregam e transmitem, não deixa ninguém indiferente. As estátuas estão a olhar o mar em frente, mas as cabeças levemente inclinadas para baixo e os braços baixados ao lado do corpo manifestam uma sensação de inércia e de resignação. Mesmo sem conhecermos a história do lugar, podemos sentir estas emoções admirando-as de perto, podemos tocar nas estátuas e andar no meio delas pois não existem quaisquer separações físicas. A história deste lugar é uma história de vergonha assente em propriedades e serventias, a respeito de direitos de homens sobre outros homens e, em particular, acerca da tragédia do naufrágio de um navio de escravos proveniente do Golfo da Guiné no ano de 1830, quando Napoleão havia abolido o comércio de escravos em território francês quinze anos antes.

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Ilhas francesas do Caribe e o conceito de felicidade

Nas Caraíbas, há muitos paraísos como a República Dominicana, o México, a Jamaica. As pessoas escolhem passar a lua-de-mel nestes bocados de terra cercados de mar. O que requer tempo de preparação, de organização; não são viagens de vontades súbitas. Até existem pacotes em múltiplas agências para tornar reais esses sonhos. Talvez seja o poder – que as ilhas nos trópicos têm – de oferecer um verão constante. Por as cores, com o Sol a bater, ficarem mais fortes e vivas, e o verde garrido da Natureza invadir até as águas mais cristalinas e nós ficarmos também mais fortes, mais cheios de energia e de vida. São destinos que nos transmitem felicidade, e que não queremos perder. Eu estava em França quando decidi viajar até à Martinica e comprei a viagem em 10 minutos, no embalo do impulso. Fixei-me em Saint-Anne, com a praia a poucos metros de casa mas viajei pela ilha inteira. Fiz outra vez tranças no cabelo pela mão ágil de uma criola. Fiz outra vez snorkeling, atrás das tartarugas. Subi árvores. Abri a porta de casa aos passarinhos. Bebi rum local. Conversei com os vizinhos de esplanada. Segurei nas mãos cana-de-açúcar. Visitei o monumento aos escravos em Anse Caffard. Senti-me muito insegura na noite de Carnaval em Fort-de-France. Mergulhei em Anses-d’Arlet, avistei o rochedo Diamante e aprendi que, na Martinica, onde existe uma vaca há sempre uma pequena garça inseparável muitas vezes sentada no seu dorço. Por tudo isto, pela possibilidade de acumular novas experiências e aprendizagens, e por as más vivências também nos marcarem e transformarem, evoluímos, e isto não tem preço. Este encher-me de paixão e gratidão, é que traduz o que é, para mim, a felicidade. Às vezes, penso no que vem nos dicionários. E por definição, felicidade, resume-se normalmente a um momento, ou um estado de boas emoções, mas em teoria não é nada de muito duradouro. Na verdade, acredito que o estado de estar feliz possa ser muito mais do que isso. Nunca nos lembramos quando está a acontecer mas a felicidade esconde-se em múltiplas viagens: é na força com que um objectivo novo nos impele a seguir em frente, ou no pensamento de algo bom do passado que volta e nos embala, e assim viajamos sempre. Como no refrão do Fast Car: So remember we were driving, driving in your car/ Speed so fast I felt like I was drunk/ City lights lay out before us/ And your arm felt nice wrapped ‘round my shoulder/ I had a feeling that I belonged/ I had a feeling I could be someone, be someone, be someone.

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A Liberdade Iluminando o Mundo

Vivemos tempos em que não questionamos a nossa liberdade. Em lugar disso, fazemos representar-nos de modo instantâneo e por meio de faixas no rosto, com as cores de um outro país sobre a imagem de perfil, ou através de um hashtag nas publicações para não sair de casa, ora de um quadrado ou círculo preto, nas redes sociais. Conforme a tendência mais actualizada ao segundo, há um género de dever de participação. Então imitámo-nos nas nossas presenças digitais. Contagiámo-nos com notícias que chegam da América, e do mundo, sobre pessoas e injustiças contra pessoas. Ao mesmo tempo, levantam-se cartazes e gritos pelas ruas; os monumentos são derrubados e sarapintados de tinta graffiti, com letras e crenças e motes e histórias. Há uns dias perguntei o que era ACAB, e um amigo explicou-me ser All Cops Are Bad. E então era isto que as borras de tinta pretendem dizer sobre os monumentos? “Todos os polícias são maus”. Outros dias gritava-se “Todos Diferentes Todos Iguais”. E era este o perigo das generalizações atravessarem continentes e mares para nos apanharem. Eu não visitei os Estados Unidos como a concretização de um sonho. Já as torres gémeas haviam implodido mas quis ir ver a representação da Liberdade edificada na sua ilha, tal como a França a ofereceu: a figura coroada da deusa romana em tons de azul e de braço direito erguido ao céu de tocha na mão. Azul, azul, sem mais cores. No regresso a Manhattan consegui uma das melhores fotografias da minha vida, um instante mágico de sobreposição de liberdades, um momento irrepetível como todos os outros que vivemos.

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Burano, o reinado das cores na Lagoa de Veneza

Por causa da pandemia e do aconselhamento ao uso de máscaras, tenho-me lembrado de Veneza. E pensar em Veneza leva-me a Burano, a sete quilómetros a norte da ilha principal, ou a cerca de uma hora de vaporetto. O pequeno arquipélago das casinhas coloridas, com roupa a secar num cenário pitoresco, como se fosse a Ribeira do meu Porto. Antes da viagem, ao pesquisar sobre este lugar, li em quase toda a parte que “em Burano não há muito para fazer” e isto faz-me reflectir sobre como a opinião dos outros pode ser subjectiva. Nem sempre é necessário que haja muito para fazer. Mas este mundo compreende tantas vírgulas, que às vezes é preciso parar. E parar também devia ser urgente pelo simples prazer de admirar as coisas e senti-las. Por isso, parar é preciso, como era navegar umas dezenas de anos antes de Cristo quando Pompeu inaugurou essa ideia de que “Navigare necesse; vivere non est necesse” por, à época, ser muito importante dar alento aos marinheiros. Os tempos entretanto mudaram-nos a forma de viajar, e Pessoa, imbatível, navegando no sonho a mil anos de distância, pediu a tradução de Petrarca escrevendo “Quero para mim o espírito dessa frase”. Por isso, amigos, a vida interior pode ser frenética enquanto estamos sentados a sonhar. E é a permanência do prazer do sol na pele que me leva à praia. Ou o terminar um livro bom, que requer alguns minutos para deixar entrar (e entranhar em espírito) esse mesmo sentido. Até pode ser só um poema, ou uma frase tremenda, como aquela de Herberto Helder que diz “Minha cabeça estremece com todo o esquecimento“, e eu escrevo para ficar nas minhas estórias, para rever as minhas fotografias, e para ser grata à vida. E, nestes novos tempos epidemiológicos não temos de nos aborrecer. É preciso desconfiar do desconfinamento. Não cair na turbulência dos dias do passado. Pode-se viver sem ansiedade dos lugares por visitar porque todos os lugares esperarão por nós. Haja tempo para degustar o Spritz que nos traziam à mesa, no frenesim dos transeuntes reciclados das ruas, e relembrar as coisas que aconteceram e os lugares que escolhi. Hoje acordei a pensar nas máscaras de Veneza e de como Burano foi um dia bom para caminhar, para atravessar pontes, fotografar, e ser modelo. Um dia sem pressas com direito, ao fim da tarde, de uma última paragem por Murano para trazer dois balões de vidro fabricados ali, um de cor amarelo-sol e outro azul-céu em representação de outro dia qualquer com tanto para fazer quanto se quiser.

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Escócia a bruto

Deixar 2019 para trás para entrar em 2020 num dos mais belos países da civilizada Europa, sem chuva, com temperaturas acima dos 0 ºC e céu azul.  A Escócia deu-me o que mais valorizo: A terra a bruto e animais que aparecem timidamente num espaço sem vedações que lhes pertence. Paradoxalmente, uma capital cheia de história que não surpreende mas fervilha com gente do mundo inteiro de tocha acesa na mão, e uma ligação de energia intraduzível. O castelo de Wallace e Bruce. Os pubs e a fresca Tennent’s genuína em Glasgow. O bom funcionamento dos comboios entre um lugar e o outro. A destilaria de Stirling com licor Green Lady, de gin e menta. As ternurentas vacas cabeludas indiferentes às temperaturas frias. As paisagens avassaladoras pela imensidão e pela cor que me sugeriram um certo parentesco Islandês. Na Escócia, o que se perde de vista e que as montanhas não anunciam ganha-se em conforto de alma, e em ainda mais respeito pela Natureza. Entrar nas Terras Altas em Glencoe era como ouvir Hans Zimmer, e gostar tanto daquilo ao ponto de se imergir, porque, em verdade, é preciso seguir a beleza para encontrar mais beleza a seguir, e depois das montanhas vinham outros elementos (adicionam-se mais instrumentos): como cascatas, lagos e árvores  muito verdes e muito castanhas, com certeza pintadas de fresco poucos minutos antes de chegarmos. E é a sensação de gostar tanto da envolvente que faz com que se continue mais além porque talvez o mundo acabe depois da próxima curva. Aquela era uma estrada única a envolver os montes a seguir às Três Irmãs. De repente, uma cabeça de veado distingue-se do nada, imprimindo uma fotografia irrepetível, porque o Sol de frente ajuda, sem querer, a desenhar uma silhueta perfeita de cabeça e chifres (a orquestra a tocar em uníssono, e não há uma nota fora do lugar). A natureza não sabe da alegria que me transborda por dentro. Era preciso que o tempo parasse e sento-me um minuto na estrada, para engolir o infinito que é o mundo em certos paraísos. Respiro num lugar onde a tonalidade das coisas tem a percentagem certa de saturação e brilho. Há horas do dia assim… e fico, talvez mais 4 minutos, ali, para me lembrar que será difícil isto ser maior, ou viver isto melhor, como quando fecho os olhos para desfrutar perfeitamente daquele som que me aproxima de quem realmente eu sou, e me permite alinhar como uma só coisa num mesmo compasso do universo, num breve instante que se segura, assim, até a música terminar.

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Arashiyama, o sítio mais bonito do mundo, a seguir ao outro e ao outro…

Vontade de ficar ali. Contemplar o que o mundo mostra. Mas primeiro atravessar a pequena floresta de bambus: um trilho curioso mas que não corta a respiração a quem já viu e tocou nos grossos troncos dos bambus gigantes do Jardim de Balata. Embora que, aqui, acresça a nipocultura: os rickshaw que abundam, apesar de o caminho ser estreito e curto, levando os carros num corredor paralelo até desembocarem junto a um cemitério atípico que se vê entre a paisagem de canas. No início, os já habituais quiosques que vendem ora mariscos ora doces tradicionais ou mesmo os fotografáveis copinhos com gelados. A seguir são lojas de chinelos, chapéus, leques e outros acessórios. E depois os templos, as pessoas e a sua interação religiosa com as mensagens da fortuna penduradas nos portões dos desejos. Em Arashiyama parece andar toda a gente na rua, trago uma menina vestidas de quimono que aceita ficar numa foto comigo e, finalmente, cruzo-me com gueixas. Inconfundíveis pela sua maquilhagem branca além do quimono e do olhar caído no chão, normalmente, levando ao colo um cesto que é mais um dos seus mistérios. Mas é no rio Katsura que tudo acontece. O movimento dos barquinhos ao sabor das águas pouco agitadas, e, por isso, em perfeita sintonia com o país. Acho que é também a cor que me fascina: a harmonia do verde-água, com o azul quarto tons abaixo de Yves Klein e o amarelo dos cascos, a condizer tão bem com a escarpa do monte dos macacos.

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Dears Deers, de Miyajima e Nara

Os veados vivem livres em Nara e em Miyajima e eu gosto disso, porque a liberdade é uma palavra que representa este conceito mais elevado, com um significado extremamente importante para mim. E, vivendo atualmente num país, onde este direito não existe como o conheço, ainda me faz mais sentido escolher as minhas férias em lugares onde me posso sentir mais ciente das minhas convicções. E se liberdade é esse direito de fazer como me pareça melhor, desde que não colida contra o direito de um outro, é também essa a razão, da fotografia destacada neste post mostrar o cenário tal como estava, quando me aproximei do veado que descansava, por acaso e sem ele saber, num lugar idílico. Podia ter pedido à senhora que se desviasse e teria uma fotografia mais composta. Podia ter pedido à senhora que se virasse de frente e teria ficado na fotografia provavelmente eternizando um sorriso comigo. Podia ter esperado que abandonasse o local antes do veado, e seria a oportunidade de ter outra pose em vez desta com o Torii mais presente atrás no horizonte. Mas eu gosto desta imagem por não ter arranjos de estúdio. É o retrato do cenário tal como estava sem enfeites de artifício. Uns metros à frente, um fotógrafo profissional, ocupa-se em registar os elementos perfeitos e a fila de aderentes é grande. Para isso, existe um veado de serviço. Não gosto de ver os animais a trabalhar mas cada vez me apercebo mais disso, em todo o mundo que visito. Estes bambis já estão habituados aos humanos e às nossas manias de Instagram. Mas, se virmos com o coração, há lugares como este que tresandam a magia e não precisam de quaisquer adaptações em nossa conveniência. Não é suficiente a razão para que desviemos os animais da sua tranquilidade. Não é preciso arranjar a foto perfeita mas é necessário não perder o respeito devido à natureza. Em Nara, existem quiosques “Deer cracker” a vender bolachas para oferecer aos veados, porém, eles não parecem interessados, nem famintos. Nós é que nos posicionamos sedentos das melhores imagens para mostrar aos outros e publicar online. É a realidade dos tempos que vivemos, e se calhar vale a pena refletir no rumo que as coisas estão a levar. Talvez o mundo exterior seja um espaço colectivo onde nos podemos incluir sem alterar nada e cujas fotos possam, da mesma maneira, ser a tradução instantânea de grandes recordações.

 

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A linguagem dos peixes de Zanzibar

Esta viagem tem quase 10 anos. E Zanzibar, sugere-me um verbo de movimento. Como era dançar com os peixes dentro de água, ou simplesmente caminhar ao sol com os pés no Índico porque as ilhas (mesmo as mais pequenas) têm sempre estes dois elementos de mão dada, a terra e o mar. Mas, em árabe, Zanzibar traduz um conceito mais amplo sem variação de posição: A Costa dos Negros. E isto é a impressão do biótipo de um povo num nome. Nome que grita África, contudo, a lembrar também um paraíso de areia-farinha, mais incandescente do que branca, por o Sol a fazer estrela. A vida é tão maravilhosa mas na altura não damos por ela. Na altura, não se percebe que era aquele momento, depois de o barco parar e de escolhermos os fatos do nosso tamanho, e as barbatanas que nos serviam, em que estávamos prestes a mergulhar nesse espantoso mundo. Para, a seguir, nos rodearmos de silêncio dentro das águas. Se calhar não era silêncio porque os peixes não caminham nem correm mas dançam permanentemente. Então de que notas cristalinas, de que pautas límpidas e lúcidas podíamos entender e assisti-los, ora mais perto ora mais à distância? Era aquele momento de mistura dessa natureza aquática e de liberdade mágica, que dissolvia talvez algo mais puro e mais limpo. De repente, a surpresa de um ambiente sincronizado de cardumes e a sabedoria de não se atropelarem nos seus cruzamentos; a beleza dos corais, e da flora perfeitamente disposta no fundo. Era aquele o momento de reparar em tudo aquilo indiferente ao resto, um todo lá fora, agora sem nenhuma importância, para nunca mais me desligar dessa experiência. Não tenho fotografias dos peixes, nem vídeos, somente a minha memória. A simplicidade dos rapazes que nos levaram aos corais, e nos diziam, sorrindo: You cannot stop here. Mas os corais impunham uma espécie de contemplação que nos fez permanecer alguns segundos, ainda que sem lhes tocar. Pouco antes de alcançarmos a morada dos milhares de peixes de multifeitios e cores nos seus compassos harmónicos perfeitos. Qualquer coisa de extraordinário e que mudou a minha vida. Mas não há palavras certas para esta estória porque é uma viagem que se deve fazer. As palavras vão-nos conduzindo o pensamento e a imaginação, e desviando da verdade. Ali, é como ouvir Miles Davis desacompanhado de voz, é precisamente subtrair o barulho de fora e imergir na linguagem dos peixes para sentir a precisão do que comunicam entre eles. E o que sabia eu sobre o que escondiam aquelas ondas turquesas? Muito menos do que as doces crianças que esperam os barcos na praia.

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Colibris na Martinica

As Caraíbas são ainda mais apetecíveis quando, na Europa, repousa lento o Inverno. E, a menos de um dia de distância, podemos voltar a aconchegar-nos no forte calor que pertence àquela América do centro, que nos recebe pela porta do sol agarrando-nos pela mão, pelos olhos, para nos dourar a pele. Sente-se assim o reconforto e a bem-querença deste paraíso no que oferece de mais basilar: praias vastas de areia limpa, águas calmas e outras mais fortes de um mesmo mar quente e temperamental, e o bálsamo do som dos passarinhos como banda sonora de férias. Na Martinica não há demasiados turistas, há espaço e a vida não é dirigida a quem vem de fora. Continua a ser uma série de gestos locais, diários, não fabricados e sem contradição com a vida de sempre que se passa na ilha. A tradição do turismo massivo acontece noutros locais próximos, que todos conhecemos das montras das agências como destinos de luas-de-mel. Neste sítio do Caribe, vivemos em francês uma relação orgânica doce que permanece depois como uma memória morna. À medida que nos afastamos da areia, exibe-se o verde em toda a parte, desde a margem das estradas, atrás das canas para o açúcar e o rum se fabricarem, e, depois no alto das colinas, encontrá-mo-lo um pouco mais forte em contraste com o azul do céu. Nas regiões mais interiores, o verde é ainda mais verdadeiro mas mesmo lá o mar entreabre-se sempre por uma qualquer brecha ao fundo. Os dias de sol e sal passaram depressa, junto ao mar, nas várias localidades da ilha, mas foi no Jardim da Balata, a dez quilómetros de Fort-de-France, que o meu olhar se prendeu. Nas Antilhas francesas, existe este magnífico espaço desenhado de flores e vegetação. Esteticamente bem arrumado, organizado em trilhas de espécies exóticas, e suas características que não mais se esquecem: as cores, os cheiros. E outras maravilhas como as pontes de corda no alto das árvores, os bambus mais grossos do mundo, as palmeiras mais altas de sempre, lagos de nenúfares e flores-de-lótus. Mas o melhor de tudo, que me parece de uma grande generosidade mundana: são os beija-flores de corpos iridescentes que vêm debicar junto à recepção. Foram estes pequenos meninos alados do jardim que me puseram a pensar que são justamente surpresas como esta que me viciam na missão de viajar. E comovo-me mais uma vez com a forma como a natureza gere o planeta. Quando olhamos para a rapidez suspensa dos colibris, não percebemos, de facto, o que é o movimento das asas que deixam de se ver a menos de um metro. Tive muita sorte naqueles minutos partilhados com os celebrados colibris, no terraço da casa crioula que atravessamos junto à entrada do jardim. Fiquei ali, imóvel, com os braços em ângulo recto a suportarem o elemento que, entre mim e os passarinhos, haveria de os registar para trazer aquela memória comigo. Àquela distância, não sei se os animais vigiam as nossas intenções enquanto os analisamos. Talvez o façam em segredo, talvez convivam connosco sabendo a quem fazer confiança. Acho que a natureza é muito mais sábia do que alguma vez se conseguirá provar. E foi assim que começou mais um dia nas Caraíbas. O meu último dia de férias, rico de emoções e de cores vivas, a poucas horas de apanhar o avião que me levaria de volta a França. Quem decide sobre os lugares mais bonitos do planeta há-de saber que a Martinica nasceu para ser visitada.

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A lagoa azul da Islândia

O avião pousa. Quase não acredito que cheguei a este país tantas vezes sonhado. E foi a música que me trouxe ali. Está, então, o avião no chão. Em breve, ficarei a saber que as malas de porão seguiram para um outro destino, e, irão demorar algum tempo a voltar às nossas mãos, mas isso nem é tão importante. Esta viagem foi programada com agenda. Por isso, tratadas as burocracias relacionadas com a perda de bagagem, é tempo de seguir caminho. A cerca de dez quilómetros de distância, depois de levantarmos o carro alugado, está, quanto a mim, o primeiro ponto de paragem obrigatória: a Blue Lagoon. Sabemos quando estamos a chegar: as águas na proximidade da estância apresentam-se já da cor azul céu com aquela saturação que só conheço dali. Entramos. As instalações são de primeira classe, modernas, com grandes vidros de separação para o exterior onde se vêem as pessoas banhando-se. O aquecimento do espaço gera conforto para se tirar alguns dos agasalhos. Há uma enorme afluência de visitantes. As filas, porém, não demoram a reciclar-se. Chegados ao balcão as notícias não são boas. Não compramos as entradas antecipadamente e dizem-nos, que será impossível acedermos hoje. É preciso fazermos as reservas no site do spa. Os 6100 ISK fixos de taxa de entrada são o valor mínimo tabelado, cerca de 50 EUR, que dão acesso à piscina e oferecem uma máscara de argila para hidratação da pele. Vamos tentar fazer o booking naquele momento mas sem sucesso. Não há vagas para nós. Nem pagando algum valor suplementar, nada. Aproveitamos para visitar o espaço, a loja e a cafetaria, para passar o tempo na esperança de que, com o avançar da tarde, haja desistências. Umas horas passadas, e com alguma conversa ao balcão, própria de quem não vai arredar dali, lá conseguimos entrar pagando directamente na caixa. A perseverança vence! Em poucos minutos enchemos os cacifos e trocamos de roupa. Finalmente, chegamos ao exterior e confirmo que a água é efectivamente quente. O corpo sente-se pesado para nadar mas é uma experiência maravilhosa movermo-nos naquela água que escalda, em contraste com a temperatura gelada do ar. Vamos colocar na pele a máscara à qual temos direito e buscar bebidas ao bar. Um bar dentro da piscina para que possamos sentir em pleno o momento de relaxamento. A noite tende a cair devagarinho. A bola da lua vê-se alta no céu a definir-se. Não se sente frio nenhum. Cada vez temos mais espaço livre porque as pessoas vão saindo da água. Não se vê muito bem mas sinto que reacendi a alma, é o universo a mostrar-me aquele céu nocturno, vaporizado de azul, ao qual assisto deste relento quente. Não tenho vontade de ir embora porque reconheço que estou numa das maravilhas do mundo moderno mas, esta noite, vai também marcar o dia em que vou chegar a Reykjavik, daqui a pouco. Adoro sentir a vida a soprar.

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A terra que não é só feita de gelo

A Islândia é muito mais do que uma terra de gelo. Normalmente, é um céu de nevoeiro a descer, mas que permite ver a grandes distâncias. Respira-se ali a ordem regida pela natureza. É também uma ilha de fogo, de vulcões que se escondem, por vezes, debaixo de glaciares. Onde há, provavelmente, as melhores lagoas de águas termais do mundo. E geysers para vermos a terra viva espirrando água a ferver. Há também cascatas enormes de água fresca a rasgar montanhas. Há planícies verde-musgo sob campos de lava seca. Praias de areia preta e colunas de basalto como colmeias vistas do céu. E as estradas na maior parte do tempo, durante longos minutos, só nos levam a nós. Ao longo da estrada principal, que circunscreve a ilha inteira, há imagens bucólicas, e terrenos a perder de vista. E há cercas de madeira e arame a delimitar esses terrenos. Há animais guardados em vastas áreas dentro dessas cercas. E foi por isso que paramos. Vimos um conjunto de cavalos no pasto castanho. Majestosos, com crinas fortes e espessas mas de porte baixo, e sempre amigáveis. Viram-nos sair do carro e vieram imediatamente ao nosso encontro. Foi por eles, e por nós, que pulamos a cerca. Os cavalos têm esta afinidade com as pessoas. Este tipo de episódios dá-me uma alegria enorme. Os cavalos a galope até nós. Depois, aqueles minutos de apresentação sem palavras, enquanto não consigo deixar de pensar que, ao mesmo tempo, nos estamos a despedir para sempre. Se calhar eles também sabem, assim como nós, que aqueles minutos são pó cósmico que o universo lançou. E aconteceu mais de uma vez, a muitos quilómetros de distância. Campos de cavalos para aproveitarmos a viagem para parar. Se calhar faz parte da aventura, trespassar ligeiramente as proibições. Eu, não sou boa a pesar os prós e contras, deve ser por sentir esta liberdade sartriana que até me pode aprisionar um pouco as vontades próprias. Mas gosto de estar em contacto com os animais, e, neste que é um dos países mais seguros do mundo, apesar do afastamento da capital, e das inúmeras paisagens inóspitas e enigmáticas nos encherem os olhos de mar, eu não tenho receio de nada. Por vezes, apetece assumir que a liberdade nos faz mais espontâneos, ou ali, mais vikings e, sem dúvida, mais felizes, com o Dougy Mandagi a cantar por perto o Sweet Disposition.

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Amanhecer em Zanzibar

Em Zanzibar, o nascer do sol acontece pelas seis da manhã. O amarelo irrompe muito tímido do mar. Enquanto as matizes de lilás, que saem de dentro da noite, vão tomando conta de tudo. Podemos ver o reflexo do sol, espelhando-se na água, em crescendo. E, do lado do céu, é um justo ponto de exclamação. Também eu me admirei com a extraordinária beleza de uma areia branca, ainda morna, que nos faz descalços. Os pescadores, que madrugaram muito antes da ilha, passam na horizontal ao longe. E o Índico azul-paraíso vai empurrando os seus cabelos de algas para a margem. Cheira a maré, cheira a novo dia. Em Zanzibar, enquanto esperamos o sol aparecer, há crianças que passam na praia sem estarmos à espera e param para conversar. Meninos sem horários, sem medos e muito cheios de liberdade: são eles os pescadores de amanhã. Em Zanzibar, não há dia nem há noite sem acasos. Aos poucos, a praia refaz-se da escuridão.  As algas vadias entretanto secaram largadas na areia. O Sol senta-se no seu trono ao fundo e o dia acontece. Então, naquela geografia, cheia de ausentes e cheia de luz, percebemos que ninguém é dono de nada.

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