“É preciso sair da ilha para ver a ilha”

O título é de Saramago mas o sentido é amplo e tomo a frase de empréstimo porque penso que a posso explicar. A frase diz que “É preciso sair da ilha para ver a ilha“. Para mim, que tenho sido baforada pelos ventos alísios, gerados pela terra quente em torno do Equador, primeiro no Uganda e agora no Príncipe, é como se ao longo da linha que divide o mundo em dois, pudessem denotar-se grandes diferenças de território para quem vem do interior oriental africano sem ligação com o mar e chega a uma ilha que depende de outra. E sou grata à possibilidade caleidoscópica de fazer o meu destino conforme me apraz, e por poder ver tantos cenários e cores diferentes sobrepondo-se ao movimento das horas, tantos palcos, tantos cheiros, aromas, animais diferentes até chegar aqui onde não chegaram os big five. Aqui onde um papagaio salta para cima da minha mesa, a custo porque lhe cortaram as asas; aqui onde tanta folha cresce veloz a que posso deitar a mão e perguntar “E esta, o que é?“:

E podia ser o chá do Príncipe, ou agriões junto das cascatas mas, normalmente, são plantas medicinais para curar maleitas da terra, ou a feta “fyá igleja” que tatua a pele de branco,

e a mimosa pudicanão-me-toca” (ou “fyá málixiáê”) que se retrai de súbito quando se lhe põe devagar um dedo: e é um pequeno susto ao vê-la fechar-se, ao ver melhor que está viva. Penso que se trata da surpresa de, espontaneamente, contrariar a inércia das outras. Dependendo de quem assiste ao fenómeno, esta planta pode considerar-se mais retraída do que as outras que não reagem ao tacto humano ou, pelo contrário, muito mais corajosa. Esta ideia dava todo um outro texto mas no essencial, creio que quanto mais nos mexemos mais vivos estamos, ou dito de outra forma: quanto mais vida houver no interior de nós mais precisamos de sair do sítio.

É preciso sair da ilha para ver a ilha” mas do lado de fora é como se a ilha fosse um grande molho de brócolos sobre água parada. E as árvores? A variedade de árvores que se agigantaram séculos antes como marcos, trazendo sentido à floresta. A sua paz ao vento, servindo de casa aos macacos e de poleiro às aves. Percebo a vaidade inquieta dos pássaros autóctones como se soubessem que só pertencem aqui. Além da natureza que me faz o coração em creme, ao longo dos meses, posso apropriar-me de muitas vistas diferentes, abraçar tantas gentes, percorrer estradas novas e ouvir as boleias pedidas nelas. Mas esta vida de viver entre aguaceiros, entre lugares tão diferentes dos que me estavam prometidos e não escolhi, esta vida que acontece em África não deixa de ser estranha, entre a escassez de “tudo” naquela espécie de jejum da maioria dos alimentos de que gosto e não tenho disponíveis e, simultaneamente, a falta de “nada” na fartura de haver sempre o que comer. Mas dependendo da atitude dos outros, pode fazer-se o melhor com o pouco que se tem. Às vezes, um lanche ao final da tarde faz com que tudo valha a pena, aqui é a própria definição de amizade posta em marcha e sei que são memórias para levar até à morte. Subir as escadas para beber um gin, ou pedir um conselho ao almoço a alguém que nem se esperava encontrar traz muito alento entre chuva e horas a fio sem luz.

Viver nesta ilha é difícil. Tudo decorre a outra velocidade o que me faz saudades do bulício da cidade, até do trânsito de Kampala, das luzes e da organização de Lisboa mesmo em dias de caos, e em geral da monotonia ruidosa de todas as coisas lusitanas que sente quem de lá vem depois de sair meses para outros mundos. É uma contínua adaptação: o Posto dos Correios a abrir quarenta minutos mais tarde do que a hora que está na porta, sem nunca ter selos que cheguem “o colega depois traz e cola”, e o que é certo é que tudo chega ao seu destino. A vida é um ajustamento àquilo que existe: trocar um edifício alto por uma montanha, ou minutos de elevador por uma escalada de horas, para conhecer uma paisagem vista de cima. Esta ilha, muito em particular, que depende da outra, é uma sucessão de ainda mais faltas e regras de racionamento: o horário da electricidade que é imposto, alguns dias inteiros sem luz, duches de água fria, e os garrafões de água boa para beber que não chegaram nos dois últimos barcos que acostaram no porto; até os voos entre-ilhas desaparecem de um dia para outro sem explicações e todos os planos se evaporam para as nuvens. Esta vida de rede apertada nas janelas, de não levar a roupa ao varão porque “traz bicho”, de não esquecer o repelente quando se sai à rua. Esta vida de levar a mão à manete pequena para não patinar sobre o barro que a estrada é, e subir rochedos a pique para sair da praia. Esta ilha verdíssima cheia de humidade no ar que não deixa secar o chão, não dá bom cair ao cabelo. Esta ilha e esta vida na cidade-aldeia cheia de música alta onde os bares se resumem à Casa do Benfica para todas as camisolas; peço e servem-me um Porto em copo cheio como se fosse tinto.

Têm outros saberes os humanos cá em África. Às vezes, apetecia-me esgueirar-me da ilha, apanhar um comboio se alguma locomotiva houvesse, entrar numa máquina do tempo para espreitar a evolução ao cabo de uns anos, ou um foguetão para qualquer outro norte onde pudesse deixar de ver este pedaço de terra. E, ao mesmo tempo, é preciso ter os pés aqui para brindar à ilha pois parece que lá fora tudo se distribui em porções homeopáticas, tudo se deixa para depois, a atenção está dispersa e desconcentrada, e tudo se vai adiando, partilhas, projectos; o amanhã soma muitos hojes. Enquanto estamos aqui (nós, os de fora), vamos aprendendo com todas estas crianças a sentir melhor o momento, somos poucos e estamos mais presentes; como uma família que se compromete aos Domingos depois da missa numa sala de televisão apagada: e, às vezes, basta uma esplanada ao fim da tarde com a sinfonia dos grilos lá atrás, um cão de rua debaixo da mesa e sinto um certo conforto porque apesar de tudo, de repente não tenho mais espaço no colo.

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