Trilho até Maria Correia

O carro ficou na Roça de São Joaquim e começamos a descer o monte. Quando olho para o chão do mato, juro que já passei por lá. Parecem-me as mesmas sessenta tonalidades de castanhos, algum verde nascido de fresco que ainda não subiu, e breves notas de um amarelo que se escapou, caído dos galhos. Quanto mais tempo de vida têm as árvores mais trazem a cor da terra nelas. Os caules verdolengos vão-se tornando pardos, feitos troncos. Outras espécies são verdadeiras surpresas que perderia caso me embrenhasse sozinha no parque do Ôbo. As opções para seguirmos em frente são inúmeras, tantas quantas para nos perdermos. A ilha está cheia de labirintos no interior da floresta. É preciso conhecê-los. Os trilhos mais habituais vão sendo sujeitos a manutenções regulares. As plantas nunca têm muita altura ao longo desses percursos pedonais, ceifadas normalmente de machim. Durante o processo, os homens parecem cavaleiros de espada na mão que vão treinando os seus movimentos na arte da defesa. É contra o avanço da Natureza que empunham a arma mas Ela não pára, nunca desiste, é a Sua missão eterna de reconquista.

O trilho até à Roça de Maria Correia é especialmente bonito porque além de montanha e floresta, contém rios, praias e, portanto, também mar. O primeiro areal que se abre depois de deixarmos a floresta é a Praia do Caixão, de onde se divisa à esquerda a inconfundível Baía das Agulhas. Em tempos existiu na praia uma ponte que entretanto ruiu. É este o denominador comum do Príncipe: vestígios do que antes houvera feitos ruínas e poucas ou nenhumas imagens para se poder acompanhar essa história. Resta-nos imaginar. Ao longo da areia os búzios caminham desengonçadamente levando a caravana às costas e surgem pedras grandes e rochas que a maré destapou. Sempre que não podemos continuar junto à linha da água, sacudimos a areia dos pés, calçamo-nos e seguimos por terra. Algum tempo à frente, começa a chover. Temos de atravessar a Praia Lapa onde, ao longe, se vê uma senhora a apanhar a roupa que deixara a secar sobre as pedras. Chove intensamente apesar de ter começado a chover há instantes. No Príncipe a intensidade da chuva é como a da música, não é algo gradual: a frequência é sempre máxima. Depois de cumprimentarmos a senhora que lavava no rio, aguardamos que deixe de chover abrigados na zona piscatória. Os porcos passam em liberdade, e vemos uma vaca escura presa por uma corda que dá vontade de soltar. Parece um dia absolutamente normal. As pirogas descansam na margem; não é tempo para sair para o mar. Quando chegamos ao Rio Cátchótchó é já Primavera outra vez mas o rio está a encher. O leito é confortavelmente quente. Apetece ficar naquele lugar mas o propósito é ir até Maria Correia. Com a linha da água a chegar-me à barriga pergunto ao Balú como conseguiremos atravessar o rio no regresso. Ele retira a significância à pergunta respondendo “Entramos dentro de água” e afirma que consegue passar com a mochila. Esta confiança é suficiente para seguirmos. Alguns novos cursos de água empedrenidos mais à frente, e perco a sola exterior das sapatilhas. O Balú retira o cordão dos calções e tenta repor a segunda sola atando bem uma e outra coisa como se se tratasse de fazer um curativo. Continuamos. Desde que saímos de São Joaquim passaram três horas de caminhada, mas depois de um último troço quase imperceptível de subida, finalmente, chegamos às ruínas da Roça de Maria Correia. A tão aguardada roça – como quase todos os edifícios coloniais que estão ao abandono no país – encontra-se em fase de digestão pela boca da Natureza. As plantas vão invadindo o espaço, tomando conta do que era seu antes de virem as pedras daquelas casas ocupar o lugar da terra. Muitas paredes já não estão de pé mas as memórias estão vivas e o nome Maria Correia parece ainda mais inolvidável, embora a sua reputação.

Fiz o regresso para São Joaquim com sapatilha e meia; passei a nado o rio que o Balú conseguiu atravessar em bicos dos pés e sem molhar a mochila. Um pouco mais à frente, banhei-me num dos lugares mais bonitos onde já estive, que ficava entre o rio e o mar, mas com uma corrente mansa, morna, cheia de pedrinhas no fundo. Não sei se o lugar tem nome, mas é uma daquelas maravilhas que nunca se ouvira falar, que ficam entre um ponto a e um ponto b. Neste caso, o Rio Catchótchó seria a e o trilho de volta para a Praia Lapa seria b. Um vasto e espantoso lugar inabitável onde estou eu, para lá de me saber situar nas ordenadas físicas, a observar lentamente a natureza mais pura que se pode encontrar neste planeta. Provavelmente ganho uma alma em transformação depois daquela imersão num palco do princípio do mundo, ao ponto de ter a lucidez de pensar em todos nós no ocidente, e de nos lamentar embrenhados em vidas por vezes tão privadas do bálsamo que viajar é. E a vida merecia ser levada assim, mais a sério.

Nota: A fotografia de Maria Correia (do vídeo anterior) foi retirada daqui.

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