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Sozinha em Tóquio por um dia – Parte I

De volta a Tóquio antes de seguir viagem de regresso ao Koweit. Tempo para escolher o que quero mesmo visitar e para desfazer alguns mitos ao perceber a verdadeira interacção possível com os japoneses. No final do dia, tive várias certezas. Mas começando pelo princípio: a seguir ao duche, desci do décimo quarto andar para um simpático pequeno-almoço e dirigi-me à estação de Kyobashi, linha laranja com destino em Omotesando. Descobri a claridade da rua mesmo à entrada da Apple, numa das zonas mais movimentadas do distrito para me fundir na multidão a caminho do Yoyogi Park mas primeiro, uma paragem no Tokyo Plaza: a colmeia de espelhos. Ou, aquele lugar onde consegui imaginar-me no interior de um caleidoscópio. O parque Yoyogi é um espaço de famílias ao fim-de-semana, onde os piqueniques, os desportos e o ruído das crianças abundam. Assisti a uma sessão de aeróbica ao ar livre e a um senhor que pintava a paisagem. Segui a pé para o Santuário Meiji em Shibuya: outro lugar agradável para caminhar desde o shrine à entrada, parando para observar os barris gigantes de sake embrulhados em palhinha e outras surpresas que me aguardavam. Os japoneses são tão simpáticos que me abordaram durante momentos-selfie oferecendo-se para me fotografar. Às vezes aceitei, outras não. É, porém, curioso que nunca me tenha acontecido em nenhum outro país. Mas a generosidade nipónica neste dia vai mais longe, e conto na cerimónia à qual tive a honra de assistir. Devido à trovoada e ameaça de chuva decidi parar para almoçar num recinto próprio para isso no centro do parque, depois fui explorar o santuário. Entre todas as imagens que retive, fascinou-me uma árvore em particular.

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Colibris na Martinica

As Caraíbas são ainda mais apetecíveis quando, na Europa, repousa lento o Inverno. E, a menos de um dia de distância, podemos voltar a aconchegar-nos no forte calor que pertence àquela América do centro, que nos recebe pela porta do sol agarrando-nos pela mão, pelos olhos, para nos dourar a pele. Sente-se assim o reconforto e a bem-querença deste paraíso no que oferece de mais basilar: praias vastas de areia limpa, águas calmas e outras mais fortes de um mesmo mar quente e temperamental, e o bálsamo do som dos passarinhos como banda sonora de férias. Na Martinica não há demasiados turistas, há espaço e a vida não é dirigida a quem vem de fora. Continua a ser uma série de gestos locais, diários, não fabricados e sem contradição com a vida de sempre que se passa na ilha. A tradição do turismo massivo acontece noutros locais próximos, que todos conhecemos das montras das agências como destinos de luas-de-mel. Neste sítio do Caribe, vivemos em francês uma relação orgânica doce que permanece depois como uma memória morna. À medida que nos afastamos da areia, exibe-se o verde em toda a parte, desde a margem das estradas, atrás das canas para o açúcar e o rum se fabricarem, e, depois no alto das colinas, encontrá-mo-lo um pouco mais forte em contraste com o azul do céu. Nas regiões mais interiores, o verde é ainda mais verdadeiro mas mesmo lá o mar entreabre-se sempre por uma qualquer brecha ao fundo. Os dias de sol e sal passaram depressa, junto ao mar, nas várias localidades da ilha, mas foi no Jardim da Balata, a dez quilómetros de Fort-de-France, que o meu olhar se prendeu. Nas Antilhas francesas, existe este magnífico espaço desenhado de flores e vegetação. Esteticamente bem arrumado, organizado em trilhas de espécies exóticas, e suas características que não mais se esquecem: as cores, os cheiros. E outras maravilhas como as pontes de corda no alto das árvores, os bambus mais grossos do mundo, as palmeiras mais altas de sempre, lagos de nenúfares e flores-de-lótus. Mas o melhor de tudo, que me parece de uma grande generosidade mundana: são os beija-flores de corpos iridescentes que vêm debicar junto à recepção. Foram estes pequenos meninos alados do jardim que me puseram a pensar que são justamente surpresas como esta que me viciam na missão de viajar. E comovo-me mais uma vez com a forma como a natureza gere o planeta. Quando olhamos para a rapidez suspensa dos colibris, não percebemos, de facto, o que é o movimento das asas que deixam de se ver a menos de um metro. Tive muita sorte naqueles minutos partilhados com os celebrados colibris, no terraço da casa crioula que atravessamos junto à entrada do jardim. Fiquei ali, imóvel, com os braços em ângulo recto a suportarem o elemento que, entre mim e os passarinhos, haveria de os registar para trazer aquela memória comigo. Àquela distância, não sei se os animais vigiam as nossas intenções enquanto os analisamos. Talvez o façam em segredo, talvez convivam connosco sabendo a quem fazer confiança. Acho que a natureza é muito mais sábia do que alguma vez se conseguirá provar. E foi assim que começou mais um dia nas Caraíbas. O meu último dia de férias, rico de emoções e de cores vivas, a poucas horas de apanhar o avião que me levaria de volta a França. Quem decide sobre os lugares mais bonitos do planeta há-de saber que a Martinica nasceu para ser visitada.

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O jardim oriental à beira mar plantado

Quando se está em Lisboa, só é preciso fazer 70 quilómetros para encontrar um pouco de Ásia. Na verdade, são 35 hectares que surpreendem em homenagem aos dois budas gigantes de Bamiyán (Património Mundial da UNESCO, no Afeganistão) que foram destruídos em 2001, ao longo de 25 dias, pelo governo talibã. O Bacalhôa Buddha Eden foi criado como símbolo de protesto. Apesar da grandiosidade do espaço, podemos viajar num pequeno comboio turístico que reduz as caminhadas e as distâncias. Não é o mesmo que subir no bondinho para o Corcovado mas são coisas construídas à nossa medida. As comparações nem têm sentido mas não existem paisagens inúteis neste planeta, por isso, eu nunca compreendi Tom Jobim nesta canção.  Voltando ao nosso jardim agigantado, muitas coisas ardiam ao sol fazendo boas fotografias. Eu fixava o olhar como agora me lembro: há figuras míticas que parecem ter nascido ali, petrificadas após um passeio de verão; e colos de budas dourados onde nos podemos sentar. Em toda a parte, o ambiente é bastante relaxante e colorido, e, espreita-nos através – não dos olhos mas – do riso permanente deles, aquela humildade asiática que engravida sorrisos na cara das pessoas. Mais do que um parque ajardinado, trata-se de um museu ao ar livre. E nem aqui há pretensões de ser uma outra coisa. Ao lado, depois da baía das palmeiras, a secção de esculturas africanas em pedra com bancos para contemplação e pausa. A seguir, uma outra área onde encontramos um desfiladeiro estático de soldados em terracota pintados à mão. Tudo isto com muitas palmeiras em redor, lagos com as carpas Koi do Japão e nenúfares. Muitas coisas de que gosto de desfrutar. Então encostei-me a uma escultura de pedra levando comigo o meu mantra Nam-myoho-renge-kyo, a pensar no circuito budista em Banguecoque e, depois, fomos comer um gelado.

Atrás, a grande roda do mundoVista da escultura de David Breuer-WeilCabeça de Buda deitadoPés de Buda deitadoCoreto com vista para a outra margemEncostar docemente na pedraAquele que ri, felizLavar a cara com o solEntre budas