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Love, Upside Down

José Luis Borges estava certo quando disse: “No se puede contemplar sin pasión“. Portanto, eu, contemplo apaixonada a vida. Não há outra forma para encarar tudo isto. E olhar deve ser uma sucessão de pausas, de espanto, para se desvendar novamente um outro lado. Fevereiro, esta noite, em metamorfose, abrir-se-á em Março, de encontro à luz. Para arrancarmos borboletas das árvores e de dentro de nós. De maneira que, ainda neste Domingo, decidi escrever-te. Dizer-te que deste lado da terra, mais ao centro, o dia se acende quente. Há um punhado de Sol num lugar particular, como num poema. Há um vulcão invertido, uma cratera em chamas, um incêndio rasgando esse círculo no canto superior. Temos de aproximar o ouro dos olhos, brilho sobre brilho. E levantar a cabeça ao alto. Assistir a esse fogo. Por outras palavras, aproveitar a bola incandescente que principia continuamente no céu. E então, dizer-te sobre as tardes em que, aqui ao longe, uma nuvem cai inteira de cima. Dizer-te do cheiro africano, da terra vermelha. Primeiro húmida, depois muito seca – com esse chapéu inacessível que lês para ti; uma sombra circunflexa, fruto da tua atenção às minhas palavras. Antecipando uma espécie de esperança, porque mesmo que chova, tudo fica mais sério depois. E agora temos dias diferentes. Olho as águias em Kampala e a amplidão das suas vistas. E mesmo à distância, reconheço outros sentidos que fizeste em mim. E, por falar nesse ardor, já te falei na dispersão da grafite em brasa? Era assim sempre que te lia. Lembrei-me das paisagens de Salamanca. De nos perdermos com a tonalidade amarela das flores. Como se a terra inteira em grãos tivesse ali desabrochado, num silêncio luminoso, levemente interrompido pelo vento, e algum carro veloz a passar na auto-estrada. Eramos eu, tu, e o abismo do prado. A nudez das flores, magnética a espelhar o céu, deixando tudo tão claro, como agora, para virarmos o mundo ao contrário.

A razão das coisas

Registar o que temos nosso de mundo. Pode ser a água a levar-nos. Pode ser o vento, ou qualquer outra coisa sem nome que nos arranque os pés dali. Uma viagem pode ser um atravessar de estrada, um trabalho num país diferente, umas férias para celebrar que estamos vivos, ou até mesmo um olhar no qual se repara. Mas, sempre que viajamos, expandimos o nosso conhecimento porque lidamos com o novo, aprendemos a enfrentar imprevistos e desenvolvemos a auto-confiança. O intercâmbio cultural faz-nos ser mais tolerantes porque percebemos que existe o lugar de um outro. É importante ir conhecer para ter mais mundo porque os lugares onde não fomos não existem nas nossas memórias, então é como se não existissem. Viajar transforma-nos. ‘A vida é um sopro, um minuto. A gente vem, conta uma estória e vai embora.’ disse Niemeyer. E é mesmo assim nesta velocidade, nesta ordem. E é mesmo assim que cá estamos de passagem. Eu conto estórias com imagens da minha vida, às vezes acrescento música e umas pedrinhas de sal, porque a água salgada lembra-me o mar, e o mar leva-me à praia e a praia chega-me o sol à pele. Viajar deixa-nos sonhar com viajar mais. E devemos agarrar os nossos balões. Ir para longe, o mais longe possível para nos enchermos de vontade de voltar. Há mesmo alguns privilegiados que por ali flutuam, quase sem gravidade, avistando-nos como um ponto azul do espaço.