Se eu tivesse três vidas

Graças às redes sociais, acabo de ler o melhor texto que me passou pelas olhos este semestre. E recordo-me que carreguei oito livros na bagagem de porão para São Tomé (que demoraram depois mais duas semanas a chegar ao Príncipe por via marítima) para os poder ler e reler durante o expatriamento, segurando-os nas mãos. Sou pessoa de trazer um lápis entre os dedos, para usar nas melhores partes, e para isso preciso de ler em papel. Portanto, para o Príncipe vieram comigo o Gonçalo Cadilhe, o Olivier Rolin, o Paulo Dentinho, o Peixoto, entre outros, mas o texto que encontrei não é de nenhum destes companheiros de viagem: trata-se de um poema da Sarah Russell, e intitula-se “If I had three lives” que, traduzido por mim, diz assim:

"Se eu tivesse três vidas, casaria contigo em duas. 
A outra? Talvez essa vida a passasse no Starbucks, sentada sozinha, a escrever - memórias, talvez um romance ou este poema. Provavelmente eu não teria filhos, mas teria um apartamento pequeno com vista para o rio, e livros - montes de livros - e tempo para ler.
Amigos também, para me rir com eles, e um homem, por vezes, durante o fim-de-semana, para me lembrar a que sabe a pele quando está viva. Sou mais magra nessa vida, vegan, e pratico yoga. Assisto a filmes sobre artes, vou a mercados biológicos, e bebo martinis de saia rodada e uso joias grandes. Faço férias na costa do Maine, vestindo uma camisa de flanela deixada por um tipo de fim-de-semana, gostando mais do cheiro a suor e do aftershave do que propriamente dele. Caminho na praia ao amanhecer, encontro conchas com espirais perfeitas e estudo as marcas de varíola que a água vai deixando na areia. E, por vezes, pergunto-me se algum dia te encontrarei."

Depois de ler o poema, lembrei-me de Lisboa, o quanto eu gosto de Lisboa, e o quanto não me canso dela, talvez por passar muito mais tempo do outro lado do Tejo. Longe. E por estar agora ainda mais longe de Lisboa, lembrei-me do lagarto que subia a árvore no Jardim do Bordallo, no Campo Grande.

O lagarto que sai de debaixo da pedra e sobe agarrando o tronco, como se subisse uma torre, procurando maior alcance de vista, mais mundo. Penso que os lagartos que trepam árvores são como as pessoas que apanham aviões, porque procurar ter mais horizonte para ver é querer tirar maior proveito da vida. Aproveitar cada brecha de chuva, ou até (e sobretudo se a companhia for certa) aproveitar para dançar debaixo dela. E é preciso ir aos jardins da Celeste por essas terras fora. Eu quero ir ao deserto buscar as rosas, e colher os giroflés nos países que ainda não conheço. Se puder, quero estar lá já amanhã. Mas ao deixar o jardim sei que por lá ficará o lobo uivando mudo aos céus, e o gato preto em espera de algo que nunca virá. Ou, do outro lado, junto à porta de entrada, uma cegonha com o bico a inspecionar a boca de outro lobo e abelhas gigantes a brotar dos arbustos com asas que não voam, não voarão. Podia ter ficado ali mais tempo a aguardar sinais, alguma intenção de comunicação, mas como diz, no seu contexto, o Manel Cruz “são só coisas“. É um mundo mágico que a Joana Vasconcelos ali criou, porém, inanimado, nada se mexe, e as peças vão-se deixando ficar ali junto de mais elementos improváveis petrificados. Dragões junto à janela onde um gato se deitava ao sol. Este gato era de osso, carne, bigodes, e pêlo B&W, não lhe vi a cor dos olhos pois estava um dia de sol imenso e os mantinha fechados. Às vezes, também escolhemos não olhar o sol de frente, como fazem os gatos, quando está muito presente e muito forte, e nos encandeia como os máximos dos carros; outras há em que o sol não aparece. Passam dias sem dar sinal onde o esperamos e teimamos ficar na ânsia de querer que volte. Entretanto, chegaram algumas crianças trazendo o barulho característico que as crianças juntas têm e o jardim ficou mais ligado à vida, mas reparei que no lago central, cheio de nenúfares e sapos, faltava água. E um lago sem água tem de ter outro nome qualquer: cova de betão? Parece um lugar profanado, porém, a cerâmica vê-se melhor a descoberto. Os sapos vêem-se melhor e percebe-se mais nitidamente que não trazem príncipes por dentro. É tudo só loiça, e nada mais do que cacos depois de se partir. No outro lago cercado, com um pouco de água no fundo, caranguejos e lagostas numa vigia perene em tons de crustáceo cozido. A decorar as paredes do edifício há também pratos e azulejos em estilo vintage de temas geométricos. Mas o melhor de tudo, o que mais gostei e que sublinharia várias vezes com o carvão da ponta do lápis, estava pendurado nos galhos. É preciso ter a curiosidade de ir inspecionar as árvores como se nos fossemos abrigar do tempo para ver o que encontrei. A essa surpresa levou-me a intuição de ir para debaixo de duas das mais belas árvores que se conhecem em Lisboa, a Magnólia-branca e a árvore Pagoda. De seus ramos pendiam macacos em fios de arame, baloiçando ligeiramente. Macaquinhos como os que vi caçar no Príncipe para servir de alimento aos locais. Eu acho que são os animais com mais graça do planeta mas neste país de São Tomé e Príncipe consideram-nos uma praga. A legislação não os protege. Matam-se macacos e ninguém é autuado. Morre gente e ninguém vai preso. Mas, nessa manhã, em Lisboa quando cheguei ao carro tinha uma multa de estacionamento porque não paguei o aluguer do espaço que o carro ocupou durante cerca de uma hora. E não paguei porque a app da Emel me defraudou, mas paguei-a depois trinta vezes mais cara. E assim vou aprendendo a não confiar no que se encontra online, da mesma maneira que vou aceitando que o lagarto talvez não queira chegar à copa da árvore para vislumbrar o mesmo que eu. Daqui com os pés no chão talvez esteja eu, hoje, com as vistas mais curtas do que o lagarto que leva meio tronco de avanço. Ler ajuda a perceber o outro lado, a ver o que não está à vista. É uma espécie de viagem com a função de nos confortar, na alcova da sapiência. Se eu tivesse três vidas, teria três vezes mais livros, e três vezes mais tempo para os ler.

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