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Setúbal, o Rio de Janeiro português

Cheguei a Setúbal em 2008 com um contrato de trabalho, uma mala no carro, e nenhumas referências sobre onde iria dormir, onde jantar, onde acordar. Ao almoço, estaria acompanhada pelas pessoas da empresa, o resto teria que arranjar-se no decorrer do dia e dos dias seguintes. Foi um desafio bem maior do que outros, que anos mais tarde viria a ter fora de Portugal, e se resumiriam a entrar num avião com todas as comodidades à minha espera além fronteiras. Lembro-me de chegar a Setúbal pela auto-estrada desde o Porto, abrandar junto à rotunda do Alegro (onde ainda era o Jumbo), escolher uma saída ao acaso e seguir. Não sei a razão mais lógica mas tudo nesta cidade nos impele para as suas margens. Talvez a força das correntes verde-turquesa obrigue a uma espécie de testemunho, um essencial baptismo dos olhos. Talvez o declive das avenidas a descer, ajude a descer. Na altura, parava-se dentro da Rotunda de Portugal. Foi a única vez que uma rotunda me tomou de surpresa. Mais à frente, passava o Hospital, a Tebaida, a Estação, o Bonfim para ver o Estádio à direita e continuar. Talvez fosse a fortuna do caminho dos carros no sentido da costa, mas senti uma tendência de não voltar atrás até chegar à avenida Luísa Todi, sem saber que estava na Luísa Todi. E lembro-me de virar à direita, e de me deparar com aquela rocha maciça, enorme, mesmo em frente, cada vez mais perto, e de me reclinar para olhar o lugar onde a serra acabava e assistir à grandiosidade que era a Arrábida. E que cidade era aquela protegida por uma montanha, cheia de muitas serras, deitadas até um outro lado. Arrábida, lugar de oração, imperatriz da região. Majestosa, detentora de um castelo que ela mesma parecia engolir, e de um convento ainda melhor escondido. Lembro-me de guiar serra adentro e sentir o assombro que era meio quilómetro de altura escarpado, e mesmo de Inverno as cores com cheiro a Verão e lembro-me de pensar quando ali cheguei: “Isto há-de ser o Rio de Janeiro português” e tive a certeza que havia um fascínio qualquer por explicar que nunca mais me deixaria. E nunca mais deixou. Talvez a magia do estuário se espalhe em moléculas que inspiramos ou vapores que nos embriagam os sentidos e seja esse o segredo do deslumbramento que se encontra ali. Uma metamorfose líquida, onde o Sado e o Atlântico se acarinham, embrulhando-se, transformando-se, e renascendo numa outra coisa. E o magnetismo dessa simbiose de águas esteja presente até ao outro lado no areal onde se estende Tróia. Ou talvez seja Tróia erguida ao longe quem nos acene junto às águas protegidas pela encosta. Um paraíso onde também os golfinhos se deixaram ficar. E assobiamos ao lado deles de barco para os assistirmos em mergulhos de mariposa,  e que sejam para sempre selvagens mas, simultaneamente, da terra. Tudo junto, tanto encanto e beleza naquele lugar. Como eu costumo dizer, cumprimentei Setúbal com o coração com vontade de falar e com o respeito que nunca senti por outra cidade. Há qualquer coisa no estado bruto da reserva natural, uma mesma magia com que ali se amarravam os barcos entre partidas de recreio e chegadas da pescaria. Foi feliz que me senti ao pensar que começava ali mais uma parte da minha vida. Foi o ano do choco frito e dos rodízios de peixe, o ano dos almoços mais frescos da minha existência. Foram os encantos da serra, desde a base onde residem as praias mais bonitas que conheço, até ao regresso a casa. Morei em Setúbal até ao ano seguinte com uma vista tremenda, provavelmente a mais perfeita que se podia ter de um 8.º andar na cidade: onde cabia o estuário, a península de Tróia com os neóns do casino na vigia nocturna da marina, os prédios coloridos, o hospital azul-clarinho, e, nas traseiras, o castelo de Palmela. E era a privacidade dos banhos de sol no terraço. Com tempo quente, os fins-de-semana tinham sempre sabor a férias. O ócio era também chegar à Figueirinha, ter a sorte de arrumar o carro e alugar um chapéu. E em companhia de gente da terra, ir conhecer cada uma das outras praias, para testar a delícia da água morna a sul do Tejo. Experimentar Galápos, descer à Galapinhos, desbravar a dos Coelhos e perceber, um pouco mais à frente, o recanto de paraíso que o Portinho é. Fora da água, a areia de Julho até Setembro a queimar os pés, a procura da sombra, as bebidas dos bares de praia, a fruta fresca trazida do Livramento, os gelados da Olá a fazer sorrir e muito protector solar. E, no final do dia, subir aos miradouros serpenteando a Arrábida para avistar uma única moldura de areia, guardada pela Anicha. Mais em frente, outra vez Tróia e as línguas de areia ora fora de água ora em horas de mergulho, e avistar Palmela do outro lado da serra. O bom de estar em Setúbal era também apanhar o ferry cor-de-alface com filtros de saturação e ir para Tróia passar o dia com os pés descalços na areia fininha e cuidada numa espécie de Algarve sem confusão e ruído, a 40 minutos de Lisboa. E 10 anos depois, habituei-me à euforia de chamar o táxi boat em Albarquel e seguir com o vento na cara a galope nos sulcos do estuário irrompido com velocidade, para descer directamente nas águas tranquilas de Tróia porque Setúbal é a cidade que me espera em Portugal. Entretanto, Albarquel ganhou um parque para as pessoas, e a cidade renasceu sob muitos aspectos. A Casa da Cultura ao lado da taberna medieval trouxe exposições, concertos e uma nova dinâmica. O fórum reabriu com novos espectáculos e um café concerto no piso 6 onde se vê o sol a por-se vaidoso no horizonte. Uns metros à frente, “o rapaz dos pássaros” eternizado no Largo Zeca Afonso. E eu gosto tanto de pássaros que os encontro, muitas vezes, em misteriosa comunhão comigo. Acho que, no essencial, nos percebemos bem porque, como alguém disse, ser livre é uma coisa muita séria.

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Istambul, da Ásia à Europa

Quando se está a viver no Koweit, e na véspera dos festejos do dia Nacional, dar uma escapadela à Turquia é realmente bom. Apesar do frio, a neve foi um bom encontro com o inverno europeu. Além da oportunidade de pisar o único lugar do mundo onde dois continentes colidem na mesma cidade (é claro que este pormenor não tem realmente nenhuma relevância para quem está a viver experiência, mas) é possível encontrar outras razões singulares entre coisas para fazer em Istambul. Por exemplo, visitar o maior edifício da Turquia: o Palácio de Dolmabahce e toda a sua extravagância, entre salas e ao longo de corredores preenchidos de tapeçarias de seda e mobiliário da época,  o lustre de 4 toneladas de cristal, reposteiros que embelezam as janelas da paisagem, hoje, mais moderna, lá fora. O presidente Atatürk que dá nome ao Aeroporto Internacional de Istambul, morou na parte final da sua vida neste palácio de sultões, e no seu quarto mantêm-se os relógios parados às 09:05, em tom de homenagem sagrada ao seu desaparecimento. Mas não há permissão para fotografar o interior do palácio. Lá fora, todos os objetos são fotografáveis, até as muçulmanas, apesar de não o devermos fazer em modo intrusivo. As ruas, os edifícios das ruas e os adereços que mais ou menos lhes pertencem. Há panos vermelhos com uma estrela antiga ao lado da lua. A estrela é Alexandre, O Grande. Que bandeira feliz, pensei. Podia transfigurar a minha ideia desta bandeira. Agora que visitava a Turquia tornara-se tudo mais palpável, mais nítido e menos difícil de esquecer. Pela lente da Canon G7X, até a noite de Istambul ficara transportável com maior nitidez para a algibeira das recordações. Nesta viagem, praticamente não tive filas para visitar os monumentos manifestos da antiga realeza. Nem para aceder à bela basílica Hagia Sophia. Construída entre 532 e 537 pelo Império Bizantino para ser a catedral de Constantinopla, permite que se registe a sua ampla sala interior, incluindo os tectos lá no alto e todos os detalhes, que os gatos iluminam nos focos de luz conferindo uma atmosfera mística ao lugar. Não são coisas que consigamos ver mas podemos sentir. Da mesma maneira, o resto da cidade apresentava-se absolutamente romântico com confetti de gelo por toda a parte mas retirou-me a vontade de passear de barco. Algo que ficará adiado para um verão do futuro ou talvez nem aconteça porque a vida nunca chega para fazermos tudo. Voltando à viagem, também devido ao frio, havia poucos pescadores na ponte Gálata, sobre o estuário do Corno de Ouro. Os transportes públicos funcionam bem, e também a Uber assiste com a rapidez requerida, embora ainda não seja uma atividade legalizada na Turquia. Como o Grande Bazaar encerra ao domingo, acabei por tratar das souvenirs pelas ruas movimentadas do centro. Para abrandar o passo há vendas ambulantes de milho e pastelaria diversa. Pediram-me 350 Liras por um candeeiro multicolorido de vidro numa loja de tapetes e candeeiros de vela. Convenci-me que o vidro era bom porque fui convidada a colocar o meu peso por cima da campanula e ela resistiu mas, para não regatear, acabei por sair. Experimentei os doces regionais na Acemoglu Baklava: aqui convidam a sentar e beber chá turco com o preço incluído nos docinhos. É simpático e acolhedor quando o frio lá fora parece feito de facas. Há senhoras a cozinhar pão nas montras da cidade. Para o final, ficou a Basílica Cisterna sita na mesma área geográfica, conhecida como o palácio afundado que foi construído em 532. Pude fotografar as colunas de 9 metros de altura que se contam 336 em número, a cerca de 5 metros de distância entre si. Apesar de todas serem diferentes e únicas, as mais singulares e mais desejadas são: a das lágrimas e a cabeça da medusa trazidas do império romano. Um cenário de lusco-fusco impressionante onde o tempo parou. No fundo da água luziam moedas que já não eram dinheiro mas eram desejos, perfeitamente alcançáveis pelas nossa mãos mas que ninguém leva. Em Istambul, levamos só as compras que fazemos. Na loja do Palácio: eu trouxe um leque para receber o verão no Koweit, e sabonetes artesanais vestidos de feltro. Mais tarde, pelas ruas do centro encontrei mais sabonetes fechados em latinhas; o habitual marca-livros para a coleção da minha irmã, mas personalizado com o nome dela escrito na hora com caligrafia antiga e olhos contra o mau-olhado das pessoas invejosas. Deambulando pela cidade, continuava tudo certo. Mesmo o excesso de patrulhamento talvez não fosse excessivo para um concentrado de 15 milhões de habitantes. A neve ia caindo e confirmei o que li em algum lugar e que dizia que há dois dias de neve em Istambul por ano, que acontecem por alturas de fevereiro: penso que em 2019 forem estes. Mas esta é uma cidade que não parece importar-se com o frio, sendo muito simpática, acolhedora e animal friendly onde os gatos são os anfitriões um pouco por toda a parte, até nos restaurantes. E, quando se anda a passeio, está sempre bom para sair para a pista e descobrir mais lugares para visitar. Em Kabatas, com o mesmo passe recarregável para uso de transportes públicos, o funicular subterrâneo Tünel ao longo de 3 minutos sempre a subir até à Praça Taksim.  O frio não convida a ir aos miradouros para avistar a cidade, mas não faltam cafés e restaurantes com aquecimento eficiente enquanto Istambul se mantiver embrulhada num manto de nevoeiro e mesmo que a lua não se levante. Esteve agreste sim para flutuar sobre o Bósforo mas deu para espreitá-lo junto à margem do Museu Naval e, simultaneamente, deu para pensar com vontade em regressar no verão. Até lá, ficou o conforto do W em Besikas numa zona animada, colorida e aconchegante, onde me esqueço do outro tempo que pulsa no Médio Oriente e de onde trouxe o trago doce do mel disposto em favos que degustava, ali, pela manhã.

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Passear de gôndola: aquele grande cliché

Gongolar foi a maneira como escolhi passar o dia do meu aniversário. Maio é um mês bom para viajar. Já se sente o calor na Europa. Eu, sentada na cadeira vermelha de napa, abraçava o banco ao meu lado. O tempo estava ameno mas mais calor do que frio. Algo próprio para o meu mês na Europa. A paisagem ia mudando consoante o timoneiro, ou o gondoleiro, seguia caminho. Enquanto gongolava, imaginei o meu plano visto de frente. Era uma vista bonita com uma mulher feliz seguindo na volta tecida nas águas de Veneza. Uma espécie de carrossel horizontal, sob as águas. Apenas com a diferença da adrenalina, porque o medo não nos invade quando andamos tranquilos de barco. As cores refletidas movendo-se no espelho daquela estrada prazerosa que nos toma durante cerca de meia hora. A vida tem sido boa, pensei. Brilhavam os meus olhos, e brilhavam as outras coisas, tudo. Talvez por causa da água, ou talvez não apenas isso mas haja uma razão maior. A razão pode ser o sentir que a razão é boa sem se a conhecer. Como disse Pessoa “O mundo não se fez para pensarmos nele. Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.” Acho que tenho estado de acordo, mas tenho a certeza que naqueles momentos de passeio concordei inteiramente que as coisas estavam todas no lugar certo. Antes tinha esperado algum tempo na paragem junto à margem do Grande Canal. Não para negociar porque para isso seria preciso experiência, mas por procurar inaugurar-me neste desejo. Estive à espera porque senti que queria muito fazer esta pequena cruzada nas águas. Não sei se é caro como dizem. Sei que paguei e nunca mais voltei a pensar no assunto da matemática mas voltei a pensar muitas vezes na satisfação de apreciar as fachadas dos edifícios mergulhados, os labirintos enquanto o timoneiro cantava, o passar sob a Ponte Rialto e todos os emaranhados de ruas onde a sorte me permitiu estar.  Mais tarde, iria perceber que a cidade desaparece tomada pela noite, escondida na máscara dos visitantes.

A Sagrada Família

Prevê-se que a Sagrada Família fique concluída em 2026, aquando do centenário da morte de Gaudí. Ainda assim incompleta, representa o monumento mais visitado de Espanha. O aspecto que terá no fim pode antecipar-se aqui. Eu não tive educação católica mas considero esta catedral ímpar, pelo detalhe, pela imponência, pela luminosidade no seu interior. Não é de admirar que se sinta uma atmosfera mística neste lugar. E, se a minha alma ficou cheia, pergunto-me como ficarão os corações dos fiéis. Gaudí morou dentro da igreja durante os últimos 15 anos de vida. Dez anos depois da sua morte, por altura da Guerra Civil Espanhola, em 1936, a igreja foi atacada e houve um grande incêndio que destruiu os desenhos iniciais e danificou a maquete da igreja deixada por ele. Hoje em dia, a continuação da obra realiza-se com base no restante acervo do artista e não tanto nos seus planos mais exactos. Apesar de haver muita informação sobre esta obra de enorme importância, a experiência de se estar neste lugar não tem muito a ver com palavras.

 

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Gaudí e Miró em Barcelona

Foi a primeira vez que me dirigi a um lugar reservado através da Craigslist. Hoje em dia o Airbnb está mais difundido. Mas feito o acordo para os dias escolhidos, pagamos e seguimos viagem. Chegados a Barcelona, procuramos o lugar combinado nas Ramblas e, alguns minutos depois, apareceu um rapaz a perguntar pelos nossos nomes. A honestidade a imperar deixa-me feliz e, por vezes, até, um pouco surpreendida. O apartamento condizia com o esperado. Então, tratada a parte do alojamento, organizamos os dias com os pontos obrigatórios. Primeiro visitamos a Sagrada Família que remeto para um outro post, depois, o Parque Güell. E tudo isto é Gaudí. Bonito, cheio de cor, conferindo carisma a Barcelona: pequenos pedaços de azulejo partidos encostados uns aos outros, numa técnica chamada trencadís, que se descobre um pouco por toda a cidade. O terraço, pátio de diversões. Na descida, o réptil ao centro da escadaria. Um lugar de fantasia ao ar livre. Depois a Casa Batló. No seu interior recantos iluminados por luz natural onde uma mistura de azulejos em diferentes tonalidades de azul em degradé fazem transmitir a ideia de se estar no fundo do mar. A seguir a Casa Milá ou, la Pedrera. Edifício belíssimo, de fachada construída em calcário, em linhas curvas como que representando as ondas do mar. Foi no terraço deste edifício que a minha máquina fotográfica caiu ao chão, de objectiva exposta, danificando-se para sempre. Resolvemos o problema numa Fnac próxima. A minha curiosidade maior estava em ver as centenas de obras de Miró todas reunidas num mesmo espaço. E que lugar! A Fundação Joan Miró foi pensada e concebida pelo próprio Miró e arquitectada pelo seu amigo Josep Lluís Sert. Um enorme edifício situado no Parque de Montjuïc que deixa antever uma ampla vista sobre a cidade. Então entramos. As obras parecem ocupar o seu lugar perfeito. Acompanhamos as várias fases do artista. Pinturas, esculturas, desenhos. Do cubismo das paisagens catalãs, ao surrealismo dos símbolos, das cores. A singeleza das linhas, a fragilidade das representações. Parece tudo feito para crianças. É Miró e basta. Eu sou fascinada por cores e, portanto, pelo imaginário deste artista. Inconfundível, diria. As constelações, e a representação dos pássaros e da mulher nos seus trabalhos depois de encontrar o seu estilo mais característico, a conferir carácter e maturidade à sua obra. Agora eu posso imaginar uma parede branca com uma tela azul com uma linha e um ponto de Miró. E encontrar tudo a fazer sentido.

 

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‘We’ll always have Paris’

Foi no Casablanca que ouvimos as eternas palavras de Rick para Ilsa. E, na verdade, conquistamos esta cidade da mesma maneira, trazendo-a no regresso. E os momentos passados em Paris, viverão para o fim das nossas memórias. Chegamos no dia da Tomada da Bastilha, o que quer dizer que avistamos a Torre Eiffel vestida de todas cores possíveis de fabricar com fogo de artifício, naquela noite em que o mundo inteiro olhava o céu. Paris parou em redor da torre e toda a gente quis lá estar. Mas antes disso, este feríado nacional significou dar uma volta gigante para fugirmos às ruas cortadas da capital. A polícia não nos deixava passar e acabamos por fazer um circulo maior que nos permitiu atravessar o rio e encontrar o hotel. Este ficava muito perto do Louvre, porém, decidimos não entrar no museu. Não bem devido às filas, mas porque eu, em questões de arte, considero-me contemporânea. E em relação à Mona Lisa, vi, há longos anos, uma cópia fiel no Museu do Prado, que não foi Leonardo da Vinci a realizar. De qualquer modo, só colocando uma ao lado da outra para encontrar as diferenças. Mas renegando o Louvre, tive a alegria de entrar no Pompidou. Ver outra vez Rothko, ver a via negativa dos girassóis de Van Gogh por Mark Alexander, e, surpreendentemente, encontrar as esponjas azuis de Yves Klein, entre inúmeras instalações modernas que me deixam sempre a pensar que a arte nasceu para nos fazer pensar. A própria cidade é um museu, e, como as férias não foram longas, prefiri dirigir-me às áreas mais interessantes de Paris como o Moulin Rouge para comer gelados ao Sol. Fomos também à procura do muro dos Je t’aime em Montparnasse, onde decorriam filmagens e tivemos de esperar para aceder ao jardim e desvendar como dizer que se ama a quem se ama nos outros idiomas. Fomos à Basílica do Sagrado Coração em Montmartre, onde Luis IX a cavalo divide o céu branco com Joana d’Arc recolhendo as nuvens no manto. Pude atravessar muitas vezes as pontes e passear nas margens do Sena, e até deixar um cadeado na Pont Neuf. Vi uma mulher vestida de noiva provavelmente acabada de casar. Vi dias cheios de sol. Vi a luz do Père Lachaise, cumprindo um desejo antigo: há muitos anos durante um interrail à Grécia eu tinha feito um desvio propositado a Paris e encontrei o cemitério fechado. Agora a cidade tinha sido alvo de alguns atentados: havia um camião incendiado no centro. Do género de acontecimentos que nos vêm lembrar que a Europa já não é o lugar pacífico de outrora. Mas depois disto tudo, o que nunca irei esquecer foi o homem que vinha no metro e levava um livro aberto na mão que olhava atentamente, e eram pautas que só ele ouvia.

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Viver em França: a Normandia e o Dia D

Estou a viver na Normandia há 20 meses. E existem muitos pontos de interesse relacionados com o Dia D e com a Segunda Guerra Mundial. A comuna de Sainte-Mère-Église, ficou célebre por ter sido a primeira a ser libertada pelos aliados. No lado de fora da igreja existe ainda um manequim pendurado em homenagem a um páraquedista americano que, ao cair, ficou preso na torre, tendo sido capturado pelo exército alemão. Em Colleville-sur-Mer, localiza-se o cemitério militar americano onde foram enterrados milhares de soldados norte-americanos. Este é um lugar solene, grandioso e compassado geometricamente, mas os jardins fazem esquecer que se trata de um lugar onde estão sepultados homens. Na América, os cemitérios são matemáticos e este não é diferente. O minimalismo verde-relva e branco-paz fazem do terreno um espaço onde crianças podem brincar. E, a alguns palmos abaixo da terra, cada um fica igual a um outro, nem mais nem menos. Acima, uma cruz branca sobre a relva. Bonito sob todas as perspectivas. Sem hierarquias como em vida deveria ser: ashes to ashes, dust to dust pois corpos são corpos mesmo destes heróis de guerra. Por causa deste ambiente limpo, há poesia o que é comovente. Aqui e ali vê-se uma rosa tímida encostada a uma cruz. Detalhes que se perderiam noutros lugares. Os militares caminham alinhados e nós vamos prosseguir em direcção ao mar, até às praias do desembarque. Ao longo da costa da Mancha, há vários museus alusivos aos acontecimentos da época e monumentos. A escultura Les Braves da artista Anilore Banon enquadra-se inteira nas nossas fotografias enquanto a maré deixa. Ensaiamos o mesmo panorama com muitas pessoas, e minutos depois sem ninguém, para terminarmos lá ao lado, pequeninos, em frente a um mar imenso onde desembarcaram um dia mais de 160 mil homens. A 6 de Junho comemora-se justamente a vitória das forças aliadas. O verde-tropa inunda as ruas. Os carros-patrulha começam a aparecer com as pessoas trajadas para festejar. Pedimos autorização para entrar nas viaturas e ninguém leva a mal. O mundo é livre. A Europa é livre. Somos livres. As bandeirinhas americanas fazem esquecer que estamos em França. Resta entrar no espírito do dia e comemorar. Depois almoçamos para brindar à paz que nos deixaram tão bravios soldados, e o cão da cruz vermelha fica do lá fora a guardar.

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Viver em Inglaterra: o Inverno em Hartlepool

Fui viver para Inglaterra por razões de trabalho. Durante os 7 meses de duração do projecto não fui a Portugal, mas aproveitei os fins-de-semana para conhecer outras cidades próximas. A estação de comboios de Hartlepool foi muitas vezes um porto de partida para passeios. Mas, antes disso, o Inverno foi frio. A chuva era uma visita constante e a neve também se manteve durante algum tempo. Estávamos a construir uma plataforma petrolífera para o mar do Norte. Havia estalactites na tubagem e nos acessos o que provocou alguns atrasos. Nas horas de descanso, a minha casa em Mulgrave Road foi um bom abrigo até vir o tempo ameno. Porque em Inglaterra não se pode verdadeiramente falar de tempo quente. Mas eu gosto de desafios como aprender a conduzir com o volante do lado direito, o que penso ter acontecido no espaço de 2 minutos. Na verdade, é humano adaptarmo-nos às necessidades. Primeiro combate-se a diferença em relação ao que estamos habituados, depois deixamos de prestar atenção ao novo e agimos de forma mecânica. Se quisermos também nos habituamos bem ao tempo adverso. Acho que basta pensar no Winter da Tori Amos quando ela diz I get a little warm in my heart/ When I think of winter e faz-se depressa verão. A vida prossegue logo com outra cor. A primeira vez que caiu neve nesse ano, estávamos a sair do trabalho. Não sei porquê mas ficamos sempre miúdos quando a neve se estreia. Olhamos o céu com ar de graça, como se uma mão divina houvesse a distribuir pequenos farrapos de gelo. É aquela mão que nunca se vê. A felicidade também se recebe destas maneiras que trazem algum mistério ou espécie de fé. Apesar de ser a precipitação de cristais agregados de gelo mas, dito assim, perde-se a poesia. E perder a poesia é ficar sem nada. Não tenho fotografias desse momento. Um segundo que se alastrou em minutos: era a alegria da neve a cair. A seguir, deixa de ser notícia e são coisas que nos levam para dentro de casa, a observar das janelas, quase inertes, enrolados na manta, apreciando o frio branco deitando-se na rua, ou como bem disse Pessoa:

“A neve pôs uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso,
E adormeço sem menos utilidade que todas as acções do mundo.”

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Encontrar os restos de um avião em Sólheimasandur

Por coincidência, estou a escrever esta crónica exactamente 44 anos depois do avião da marinha americana ter caído na praia de Sólheimasandur. Foi um dos principais objectivos da viagem, descobrir este cenário místico, perto de Vik, no sul da Islândia: até hoje, o mais parecido com cumprir o desejo de desembarcar em solo lunar. Mas para lá chegar há que ter realmente vontade. Não existe sinalização na estrada a indicar este spot. Sabe-se que fica a cerca de 4 quilómetros em direcção perpendicular, por isso, convém prestar atenção a carros estacionados junto a uma cerca, numa zona em nenhures. Depois, há que andar em frente e ir perguntando o caminho às poucas pessoas que se encontram a regressar do local. Estacionamos no sítio previsível cerca das 3 da tarde. Não se via ninguém no terreno mas trespassamos a propriedade com a força da intuição. Fizemos algumas paragens para tentar decifrar o caminho certo. Quanto mais longe da estrada se está mais dúvidas nos chegam. E nem se consegue perceber aonde fica, afinal, o meio-caminho entre a estrada segura onde deixamos o carro e os destroços do avião junto ao mar. A dada altura apetece voltar para trás. E se de repente começar a chover? Na Islândia o tempo é algo absolutamente incerto. Olhei para o lado e vi um arco-íris lindíssimo. Depois sentei-me numa rocha onde estava pousado um i-phone. Procura-se um avião e acha-se um telefone. Porém, nem uma pessoa a passar durante mais de 10 minutos. Olhávamos em 360.º sem percebermos ao certo onde estava, agora, a estrada. A bússola era a grande montanha. Vik fica à esquerda, por isso, devemos continuar em frente na direcção do mar. Foram cerca de 40 minutos até se vislumbrar um ponto possível ao fundo que era, afinal, a ruína de um avião. E passou uma hora até lá chegarmos. Havia pessoas entretidas a fotografar. Esperamos que fossem embora. Ficamos com o avião só para nós. Tinha visto imagens dele menos despedaçado. Um dia, não sobrará mais nada. Não quiseram remover os destroços mas a natureza encarregar-se-á. Ela é a verdadeira dona de tudo. Eu podia ter espetado uma bandeira de Portugal, que se visse da lua. Depois da caminhada de regresso ao carro, dirigimo-nos ao Hotel Katla. Não vi a temperatura ao final da tarde mas, logo depois do check in, a sauna estava perfeita e o jacuzzi exterior foi outra experiência memorável desta viagem.

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O Monte Saint-Michel

Por ser feriado, a fila de carros alongava-se como uma corrente com mais elos a cada segundo. A parte boa no trajecto próximo, foram as imagens bucólicas do cenário das ovelhas de focinho negro com o pequeno monte ao fundo. O resto, foi uma primeira visita. A torre que sustenta o arcanjo Saint-Michel estava em manutenção e havia tanta gente acotovelando-se nas escadarias da estreita Rua Grande que não aproveitei a viagem da maneira que queria. Por isso, perto de um ano a seguir, voltei. E ainda gostaria de regressar uma terceira vez para fazer a caminhada a pé na lama da baía numa altura quente e, claro, com maré vaza. O Mont Saint-Michel permite mais uma espreitadela à idade média embarcando-se no ilhote que parece afundar-se depois quando a maré encher. É verdade que o lugar está bem preparado para os turistas, provido de grande organização em termos de parques e ligações de acesso que não conferem grande aventura. Há paragens estratégicas na zona comercial das galerias à entrada da ponte, onde os autocarros gratuitos ou as carruagens de cavalos são a alternativa mais rápida a prosseguir a pé ou de bicicleta. Mas o importante é ir: as vistas das muralhas são únicas e, as colunas da Abadia, apresentam já sinais consideráveis de desgaste que vêm lembrar a máxima de que nada dura para sempre. Património de culto, podemos encontrar religiosidade através dos votos secretos que se espalharam, sob a forma de moedas, num lugar soturno, inacessível, que até pode trazer sorte. Há os jardins exteriores e inúmeras perspectivas para aproveitar o passeio. E ao longo da muralha encontram-se vários restaurantes com esplanadas exteriores que são um bálsamo em dias soalheiros. Podemos ficar ali a rever as fotografias feitas, a brindar ao presente que temos, e a ver os outros turistas que nos sorriem de volta. Acontece sempre isto nos lugares mais bonitos. Há uma certa alegria empática que se sente e divide com os outros viajantes. Porque isto de gostar muito de viajar tem sobretudo a ver com olhos. Observar o que o mundo tem. Depois vem a parte das fotografias-postal: voltamos as costas aos cenários que mais apreciamos, para parecermos a colagem de uma estátua que ouviu cheese, um instante antes de petrificar. Às vezes, ainda apontamos um elemento óbvio. Noutras, abrimos os braços prontos para receber uma bola enorme que nos caísse do céu. Ou, então, divagamos com o nosso ar mais natural. Eu meti as mãos nos bolsos avistando o arcanjo Miguel provindo do Paraíso, batendo as asas, a caminho de casa.

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Tapeçaria de Bayeux

Foi uma das grandes curiosidades que quis satisfazer na Normandia: o enorme tapete de linho do século XI, peça identificada pela UNESCO como fazendo parte do projecto Memory of the World, ao lado, por exemplo, da partitura original da 9.ª Sinfonia de Beethoven. Há que preservar a nossa história conjunta. E revisitar o que nos trouxe aqui. Em Bayeux, há então um museu moderno que conserva este tesouro tecido. Podemos olhar o tapete e testemunhar a lonjura daqueles anos, década de mil. A batalha de Hastings ali bordada, ao longo de 70 metros de comprimento, ilustrando a conquista de Inglaterra pelos Normandos em 1066. As cenas da batalha: cavaleiros, espadas, escudos, trajes, animais, barcos, machados, canhões, palácios. Tudo isto desenhado com agulhas e linha. Cores pálidas sobre o tecido iluminadas através de luz artificial numa sala escura. Pigmentos que mudaram com o tempo e as imagens talvez já muito descoradas. Em cima, os títulos bordados em latim. E encontramos ali algumas respostas se perguntarmos como seria viver na Idade Média. Outras obtemos de diferentes maneiras. E há ainda as que fabricamos. Por exemplo, os filmes de época, apesar de nos trazerem verdade em alguma parte, não passam de tentativas de dizer sobre o que já não existe. Ao pensarmos sobre esse todo que veio de dantes, esse que não vivemos, é mais a ausência das coisas que se imagina. Temos agora nas mãos um mundo muito mais cheio de tudo. Mas o mistério da existência vem de muito mais longe. E por muito que o tempo prove a evolução, evoluímos afinal para onde e para quê? Haverá um sentido de progressão na robô Sophia, oradora na Web Summit, respondendo autónoma às nossas questões? Penso que a diferença entre uma máquina comum e a Sophia tem que ver com emoções, ela simula a transmissão de emoções. Pretende ser. Pretende ter. Então faz de conta que nasceu uma mulher-máquina que é como uma mulher. Lembro-me da visão de Spike Jonze em Her sobre as relações modernas satirizadas através de uma assistente pessoal criada informaticamente e a impossibilidade de reciprocidade sentimental homem-máquina. As emoções verdadeiras, essas, que são nossas, acompanham-nos imutáveis ao longo do tempo. O que sentimos, como nos sentimos, existe interiormente e está agarrado a nós. Saber sentir o vento, vibrar com uma voz ou uma imagem, entrar numa canção. Isso é muito e apenas animal. Não sei como será daqui a mil anos. O futuro parece ser um agente pretensioso e carregado de verniz. Brilha demasiado. Prefiro a purpurina para fantasias de época. Dizia-me ontem um amigo que vê a verdade das pessoas através dos olhos delas. Aquele brilho no lugar onde pertence, como quando sorrimos e os olhos contam aquela verdade sobre estar-se feliz. É tudo só aquele momento que vem à janela mas porque acontece dentro de nós. Então nada mais tem que brilhar.

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Esvaziar Londres com recurso a Rothko e à arte em geral

Tive fases na minha vida nas quais me interessei bastante por cidades cosmopolitas, repletas de pessoas, encontrões, a pressa dos outros, cores nas ruas, montras, carros, trânsito, ruído de trânsito. Nessas alturas, dei comigo, a visitar museus a horas improváveis, que é quando acredito não estar ninguém. Um ensaio de contraste ou a procura de pessoas feitas da minha mesma substância. Em Londres, por serem gratuitos, os museus tornam-se lugares de regresso provável quando o investimento é apenas o nosso tempo. E, nestes locais, se forem de arte contemporânea, eu deixo-me ficar em modo suspenso: vou de encontro à oportunidade de me rodear dos símbolos que me dão prazer por afinidade com aquilo que eu sou. Quando penso no que é a arte, penso na vida em geral, e em comunicação. Considero linguagens de descoberta que remetem para o pensamento, para as emoções, pelos sentimentos que as obras transmitem. Quando era adolescente gostava muito de exercícios criativos quando visitávamos exposições. Eu olhava para uma obra e tentava atribuir-lhe um nome, para avaliar depois a distância em relação ao título verdadeiro. Uma aferição de resultados como um jogo sem resposta certa. Ainda hoje o faço. Mas ao longo da vida, fui procurando compreender melhor este fenómeno de querer perceber estas representações artísticas, e de todas as artes, em especial, gosto de me conectar à pintura. No TATE, houve diversas oportunidades para me desafiar. Ligando-me mais ao abstraccionismo, e ao surrealismo. Ou seja, aquilo que sugere alguma alienação terrena e me permite vaguear, filosofando ao sabor da minha própria criatividade porque face a essas obras nada é representado de maneira realista. Se pudesse escolher um artista, seria aquele que me providencia mais espaço para sonhar, ou antes, mais caminhos para viajar neste cosmos infinito das emoções. Há muitos pintores, mas um só Rothko. E os seus quadros não foram sempre as enormes telas com rectângulos que visualizamos ao pensar no seu nome: ao longo da sua própria evolução, ele foi retirando os obstáculos da sua pintura. E isto foi conseguido criando ambientes através de rectângulos de arestas difusas, libertando a ideia representada entre ele próprio e o observador (público), expressando as emoções humanas mais básicas. Provocando, para quem encara a obra, um abalroo ou experiência religiosa, devido à omnipresença da cor departamentada nas suas telas. A oportunidade de nos sentarmos num banco em frente a um ambiente Rothko, é semelhante a imergir num mundo paralelo complexo, reinventado para o observador que escolhe dialogar nessa dimensão espiritual. Pode ser a ocasião para nos redescobrirmos durante aqueles instantes que, ali, sem se dar por isso, nos transformam. Eu já vi Rothko noutros países mas acho que, por causa desta influência que tanto me apraz, de forma não muito consciente fui polindo a confusão das cidades através da fotografia. Por exemplo eu, nos jardins de Westminster, posso ser um largo rectângulo verde, com um outro ocre em cima e o céu certamente será um ligeiro rectângulo azul.

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