Despedida em Dublin

As cidades europeias são cópias umas das outras neste momento histórico da globalização. Sim, a República da Irlanda é um Estado-Membro da União Europeia, desde o primeiro de janeiro de 1973. O país faz parte da União Europeia atualmente mas nunca se sabe se um dia a Europa se irá desfazer. E sendo mais uma capital, não preciso de passar muitos dias da minha vida ali. A passagem por Dublin foi breve. Sobre o melhor desse recanto, debaixo das gaivotas de O’Connell Bridge, penso que senti o mesmo do que toda a gente fala: há sempre música na rua. Adoro música de rua. Tecida ao vivo, descontaminada de maquilhagem. Rude, doce, irrepetível. Noturna embora aclareada pelo som e não tanto pelas luzes vermelhas. A mim jamais me incomodará the music down the streets adentrando-se na noite, abrindo-a. Claro que em Fevereiro ainda está frio mas tivemos sorte. O sol por lá, o vento ausente. Noites amenas, portanto. Talvez todos consigam sentir um pouco mais de calor quando se ouve a música lá dentro. Adoro viajar além-Portugal. E esta foi uma viagem paradoxal: O princípio do bom tempo e uma espécie de fim de estória. Mesmo assim não arrefeci. Tantas vezes é necessário terminar um livro para iniciar outra boa estória. Foi bom mas mais uma quimera. Foste os olhos mais bonitos, o cabelo mais macio; talvez em ex aequo com outro anterior, desculpa. Tenho esta predileção por cabelos masculinos fortes. A sorte traz-me surpresas com a importância do momento e tudo se desfaz no fim mas até ficou um quadro bonito, só perdemos as palavras e deixamos de ter o que nos dizer. Nada triste, pelo contrário. O fim das coisas é igualmente simples como o fim de tudo. Também Mozart morreu, diria Eugénio. E o meu coração não desanima, só bate, bate e bate. Dizem que a dopamina se vai esgotando com o passar dos anos, ou então é a idealização do outro que não segue em crescendo. Eu sou de uma matéria que não se adulta, não se adultera, e não é adúltera. Explicar isto: tenho pena de todos quantos não se deslumbram as vezes que eu me deslumbro. Ainda sobre o melhor desta viagem foi emocionar-me com Renoir, van Gogh, Picasso, Monet, o lindo “Sunshade” de William Leech e, muito especialmente (devido ao efeito surpresa) o “Black and Red on Red” de Rothko na Galeria Nacional da Irlanda em Dublin. Não pensei reencontrar Mark ali. E isto é que me dá baterias, alegria. Na verdade todo o museu é apaixonante e mereceu uma manhã feliz da minha vida. Além dos contemporâneos em fotografias premiadas, a câmara da The Celtic Revival. Encontrar-me entre esculturas lindas de mármore. Fotografar Rembrandt descendo à holanda do século XVII, absorver no olhar Venus and Cupid que Michele Tosini pintou em 1864. E tantas outras masterpieces. Adoro arte. Trouxe um pequeno mas romantiquíssimo Hellelil and Hildebrand (the Meeting on the Turret Stairs) de Frederic Burton em cartão, para o caso de ainda ter espaço nas paredes. Arte é uma forma vida, outra grande viagem. Acho que vim ao mundo pelas suas cores além da natureza, mas trago um espírito de criança que não se faz madura; sou uma mulher com a certeza de que todo o bom me é devido. Há quem lhe chame fé. Eu não sei ter fé mas sei viver desta maneira, que até pode ser meio infantil, pueril. É que eu desembaraço o mundo deixando tudo para trás, atrás de melhores destinos. É só o que quero para mim. Um pouco a propósito disto lembrei-me daquele poema do russo Vjatscheslaw Kuprijanow, “Aula de Desenho” que o Vasco Gato traduziu assim:

“A criança não consegue desenhar o mar.
A criança não consegue desenhar a Terra.
Os meridianos não se juntam nos seus desenhos.
Os paralelos cruzam-se.
Ela desembaraça o globo terrestre da rede de coordenadas deixando-o ao sabor do céu.
As distâncias não batem certo.
As fronteiras ultrapassam-na.
Acha que as montanhas não devem ser mais altas do que a esperança.
O mar não deve ser mais profundo que a tristeza.
A felicidade não deve ser mais ampla do que a Terra.
A Terra não deve ser maior do que um coração de criança.”

A paisagem por Dublin foi breve. Houve o conforto do The Alex hotel (e o desconforto de encontrar tendas na rua como nas outras grandes capitais), os enfeites, a cor dos livros nas lojas. Afagar os peitos da Molly Malone (mais por brincadeira do que por algum surto de fortuna). Foi breve mas hei-de lembrar-me bem disto. Os postais com o irónico humor irlandês, as pints e perder o concerto da Zaho de Zagazan em troca de me despedir de ti. Guiness!

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