Arquivo de etiquetas: Malta

Love, Upside Down

José Luis Borges estava certo quando disse: “No se puede contemplar sin pasión“. Portanto, eu, contemplo apaixonada a vida. Não há outra forma para encarar tudo isto. E olhar deve ser uma sucessão de pausas, de espanto, para se desvendar novamente um outro lado. Fevereiro, esta noite, em metamorfose, abrir-se-á em Março, de encontro à luz. Para arrancarmos borboletas das árvores e de dentro de nós. De maneira que, ainda neste Domingo, decidi escrever-te. Dizer-te que deste lado da terra, mais ao centro, o dia se acende quente. Há um punhado de Sol num lugar particular, como num poema. Há um vulcão invertido, uma cratera em chamas, um incêndio rasgando esse círculo no canto superior. Temos de aproximar o ouro dos olhos, brilho sobre brilho. E levantar a cabeça ao alto. Assistir a esse fogo. Por outras palavras, aproveitar a bola incandescente que principia continuamente no céu. E então, dizer-te sobre as tardes em que, aqui ao longe, uma nuvem cai inteira de cima. Dizer-te do cheiro africano, da terra vermelha. Primeiro húmida, depois muito seca – com esse chapéu inacessível que lês para ti; uma sombra circunflexa, fruto da tua atenção às minhas palavras. Antecipando uma espécie de esperança, porque mesmo que chova, tudo fica mais sério depois. E agora temos dias diferentes. Olho as águias em Kampala e a amplidão das suas vistas. E mesmo à distância, reconheço outros sentidos que fizeste em mim. E, por falar nesse ardor, já te falei na dispersão da grafite em brasa? Era assim sempre que te lia. Lembrei-me das paisagens de Salamanca. De nos perdermos com a tonalidade amarela das flores. Como se a terra inteira em grãos tivesse ali desabrochado, num silêncio luminoso, levemente interrompido pelo vento, e algum carro veloz a passar na auto-estrada. Eramos eu, tu, e o abismo do prado. A nudez das flores, magnética a espelhar o céu, deixando tudo tão claro, como agora, para virarmos o mundo ao contrário.

Ilha de Gozo, a Beleza natural de Malta

Apanhar o ferry em Cirkewwa no ponto mais a norte da ilha, para deslizar sobre o mediterrâneo até Gozo. Em terra, a viagem de autocarro faz-se bem, e depois do calcário urbano, da janela em andamento é possível contemplar-se uma imensidão de verdes. Este ano, o Inverno nem parece bem Inverno. Bem-vindos a Malta. Sob as águas azuis, dá para aproveitar o exterior do ferry até Gozo, com Comino pelo caminho. 2020 termina hoje. Não há muitos viajantes, por isso passeia-se sem grandes aglomerados. Quando o ferry atraca, não se encontra muita oferta de locomoção. Os autocarros de City Sightseeing não estão em funcionamento. O melhor parece ser negociar com os taxistas a ida aos pontos mais importantes da ilha. A Janela Azul desmoronou-se há 3 anos, mas antes de se chegar às margens, as belíssimas vistas do alto da Cittadella e o centro em Victoria valem uma visita. Segue-se a singular muralha de Dwejra, em San Lawrenz, com seus portões coloridos. E o taxista escolhe o local de Xlendi para o almoço.

Marsaxlokk, no Primeiro de Janeiro

A taxista enganou-se no caminho. Pensei que – talvez devido à pandemia – estivesse confusa para me largar no Porto da zona industrial de uma vila próxima. Foi a primeira vez que me aconteceu um motorista de táxi voltar atrás para corrigir um trajecto pedido. E, mais interessante ainda, é pensar que a viagem havia sido paga através de uma aplicação local para o telemóvel. Marsaxlokk foi o lugar escolhido para o primeiro almoço de 2021. A marginal da aldeia piscatória exibe os coloridos barcos malteses chamados “luzzu”, servindo de panorama perfeito nos restaurantes ao ar livre, onde as mesas são carregadas para a primeira linha de água. Depois de sentar, são entregues mantinhas quentes para as pernas dos clientes. Não é que estivesse muito frio, mas depois da longa noite de passagem de ano, apetece algum conforto naquele início de tarde. Depois, deambulei na área. As estátuas de bronze dos pescadores, os bancos coloridos, os barcos tradicionais dentro e fora de água, são objectos característicos e bastante fotografáveis. Imaginei os passeios e as praças em dias normais de verão repletos de turistas. Este ano, pouca gente teve coragem ou vontade de viajar.