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Ilhas francesas do Caribe e o conceito de felicidade

Nas Caraíbas, há muitos paraísos como a República Dominicana, o México, a Jamaica. As pessoas escolhem passar a lua-de-mel nestes bocados de terra cercados de mar. O que requer tempo de preparação, de organização; não são viagens de vontades súbitas. Até existem pacotes em múltiplas agências para tornar reais esses sonhos. Talvez seja o poder – que as ilhas nos trópicos têm – de oferecer um verão constante. Por as cores, com o Sol a bater, ficarem mais fortes e vivas, e o verde garrido da Natureza invadir até as águas mais cristalinas e nós ficarmos também mais fortes, mais cheios de energia e de vida. São destinos que nos transmitem felicidade, e que não queremos perder. Eu estava em França quando decidi viajar até à Martinica e comprei a viagem em 10 minutos, no embalo do impulso. Fixei-me em Saint-Anne, com a praia a poucos metros de casa mas viajei pela ilha inteira. Fiz outra vez tranças no cabelo pela mão ágil de uma criola. Fiz outra vez snorkeling, atrás das tartarugas. Subi árvores. Abri a porta de casa aos passarinhos. Bebi rum local. Conversei com os vizinhos de esplanada. Segurei nas mãos cana-de-açúcar. Visitei o monumento aos escravos em Anse Caffard. Senti-me muito insegura na noite de Carnaval em Fort-de-France. Mergulhei em Anses-d’Arlet, avistei o rochedo Diamante e aprendi que, na Martinica, onde existe uma vaca há sempre uma pequena garça inseparável muitas vezes sentada no seu dorço. Por tudo isto, pela possibilidade de acumular novas experiências e aprendizagens, e por as más vivências também nos marcarem e transformarem, evoluímos, e isto não tem preço. Este encher-me de paixão e gratidão, é que traduz o que é, para mim, a felicidade. Às vezes, penso no que vem nos dicionários. E por definição, felicidade, resume-se normalmente a um momento, ou um estado de boas emoções, mas em teoria não é nada de muito duradouro. Na verdade, acredito que o estado de estar feliz possa ser muito mais do que isso. Nunca nos lembramos quando está a acontecer mas a felicidade esconde-se em múltiplas viagens: é na força com que um objectivo novo nos impele a seguir em frente, ou no pensamento de algo bom do passado que volta e nos embala, e assim viajamos sempre. Como no refrão do Fast Car: So remember we were driving, driving in your car/ Speed so fast I felt like I was drunk/ City lights lay out before us/ And your arm felt nice wrapped ‘round my shoulder/ I had a feeling that I belonged/ I had a feeling I could be someone, be someone, be someone.

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A linguagem dos peixes de Zanzibar

Esta viagem tem quase 10 anos. E Zanzibar, sugere-me um verbo de movimento. Como era dançar com os peixes dentro de água, ou simplesmente caminhar ao sol com os pés no Índico porque as ilhas (mesmo as mais pequenas) têm sempre estes dois elementos de mão dada, a terra e o mar. Mas, em árabe, Zanzibar traduz um conceito mais amplo sem variação de posição: A Costa dos Negros. E isto é a impressão do biótipo de um povo num nome. Nome que grita África, contudo, a lembrar também um paraíso de areia-farinha, mais incandescente do que branca, por o Sol a fazer estrela. A vida é tão maravilhosa mas na altura não damos por ela. Na altura, não se percebe que era aquele momento, depois de o barco parar e de escolhermos os fatos do nosso tamanho, e as barbatanas que nos serviam, em que estávamos prestes a mergulhar nesse espantoso mundo. Para, a seguir, nos rodearmos de silêncio dentro das águas. Se calhar não era silêncio porque os peixes não caminham nem correm mas dançam permanentemente. Então de que notas cristalinas, de que pautas límpidas e lúcidas podíamos entender e assisti-los, ora mais perto ora mais à distância? Era aquele momento de mistura dessa natureza aquática e de liberdade mágica, que dissolvia talvez algo mais puro e mais limpo. De repente, a surpresa de um ambiente sincronizado de cardumes e a sabedoria de não se atropelarem nos seus cruzamentos; a beleza dos corais, e da flora perfeitamente disposta no fundo. Era aquele o momento de reparar em tudo aquilo indiferente ao resto, um todo lá fora, agora sem nenhuma importância, para nunca mais me desligar dessa experiência. Não tenho fotografias dos peixes, nem vídeos, somente a minha memória. A simplicidade dos rapazes que nos levaram aos corais, e nos diziam, sorrindo: You cannot stop here. Mas os corais impunham uma espécie de contemplação que nos fez permanecer alguns segundos, ainda que sem lhes tocar. Pouco antes de alcançarmos a morada dos milhares de peixes de multifeitios e cores nos seus compassos harmónicos perfeitos. Qualquer coisa de extraordinário e que mudou a minha vida. Mas não há palavras certas para esta estória porque é uma viagem que se deve fazer. As palavras vão-nos conduzindo o pensamento e a imaginação, e desviando da verdade. Ali, é como ouvir Miles Davis desacompanhado de voz, é precisamente subtrair o barulho de fora e imergir na linguagem dos peixes para sentir a precisão do que comunicam entre eles. E o que sabia eu sobre o que escondiam aquelas ondas turquesas? Muito menos do que as doces crianças que esperam os barcos na praia.

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