Arquivo da categoria: América do Norte

Memorial aos escravos em Anse Caffard

À primeira vista o lugar é idílico, e contam-se 15 estátuas de cimento com 2 metros e meio de altura, dispostas em triângulo. Mas o que torna este espaço diferente (e nisto as fotografias ajudam) é o que estas estátuas representam e de que forma o escultor local, Laurent Valére, as edificou. Este monumento colossal é composto por figuras semelhantes que, apesar da solidez da matéria-prima usada, anunciam uma expressão única. No seu conjunto, têm a força de um, e o semblante da tristeza que carregam e transmitem, não deixa ninguém indiferente. As estátuas estão a olhar o mar em frente, mas as cabeças levemente inclinadas para baixo e os braços baixados ao lado do corpo manifestam uma sensação de inércia e de resignação. Mesmo sem conhecermos a história do lugar, podemos sentir estas emoções admirando-as de perto, podemos tocar nas estátuas e andar no meio delas pois não existem quaisquer separações físicas. A história deste lugar é uma história de vergonha assente em propriedades e serventias, a respeito de direitos de homens sobre outros homens e, em particular, acerca da tragédia do naufrágio de um navio de escravos proveniente do Golfo da Guiné no ano de 1830, quando Napoleão havia abolido o comércio de escravos em território francês quinze anos antes.

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A Liberdade Iluminando o Mundo

Vivemos tempos em que não questionamos a nossa liberdade. Em lugar disso, fazemos representar-nos de modo instantâneo e por meio de faixas no rosto, com as cores de um outro país sobre a imagem de perfil, ou através de um hashtag nas publicações para não sair de casa, ora de um quadrado ou círculo preto, nas redes sociais. Conforme a tendência mais actualizada ao segundo, há um género de dever de participação. Então imitámo-nos nas nossas presenças digitais. Contagiámo-nos com notícias que chegam da América, e do mundo, sobre pessoas e injustiças contra pessoas. Ao mesmo tempo, levantam-se cartazes e gritos pelas ruas; os monumentos são derrubados e sarapintados de tinta graffiti, com letras e crenças e motes e histórias. Há uns dias perguntei o que era ACAB, e um amigo explicou-me ser All Cops Are Bad. E então era isto que as borras de tinta pretendem dizer sobre os monumentos? “Todos os polícias são maus”. Outros dias gritava-se “Todos Diferentes Todos Iguais”. E era este o perigo das generalizações atravessarem continentes e mares para nos apanharem. Eu não visitei os Estados Unidos como a concretização de um sonho. Já as torres gémeas haviam implodido mas quis ir ver a representação da Liberdade edificada na sua ilha, tal como a França a ofereceu: a figura coroada da deusa romana em tons de azul e de braço direito erguido ao céu de tocha na mão. Azul, azul, sem mais cores. No regresso a Manhattan consegui uma das melhores fotografias da minha vida, um instante mágico de sobreposição de liberdades, um momento irrepetível como todos os outros que vivemos.

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Global Cosmopolitans

Nova Iorque é aquela cidade muito viva de pessoas temporárias, frenética, onde o mais difícil é encontrar nova-iorquinos. Uma vez na vida devemos ir a Times Square, onde a Broadway se cruza com a 7.ª avenida e há sempre lugar para mais um. E quando o mais um sou eu, importa-me perceber no local o que já antecipo porque esta experiência é amplamente partilhada mas, de facto, não se esgota. E somente experienciando se vive. Então, olhamos em frente, em volta, e para cima e ei-los: os néons gigantes, a publicidade, as lojas como o mundo da M&M, as escadas vermelhas da TKTS e não importa se é dia ou noite porque a cidade está sempre acesa e bem desperta. Depois, não virar as costas ao óbvio: passear pelo Central Park, passear de barco em Manhattan a pretexto de ver NY em full frame, ir ao museu da imigração em Ellis Island, ir cumprimentar a Estátua da Liberdade a Liberty Island, para depois avistá-la pequenina da Ponte de Brooklin. Subir ao Empire State Building e desfrutar da paisagem com os olhos porque as fotografias não têm a mesma dimensão. Já no chão, não pode deixar de visitar-se a histórica estação Grand Central Terminal, e também o Ground Zero onde as torres gémeas se afundaram e novas torres se construiram. Eu adorei os museus desta cidade, o MET, o Solomon Guggenheim, o American Museum of Natural History e o meu amado MoMA.