Golden Gate, a meia-irmã da Califórnia

Ligando São Francisco a Sausalito, suspensa e de semelhante forma e cor que a ponte 25 de Abril, nasceu em 1937 (29 anos antes) a ponte do Portão Dourado. Mas o que mais distingue ambos os tabuleiros são os tons em volta, das áreas circundantes, porque a palete de cores lusa é diferente da placa de tintas americana. E acrescento a possibilidade da travessia da irmã distante poder ser realizada pedonalmente pelo público em geral, apesar de eu já ter atravessado as duas pelo meu próprio pé. Na realidade, tomei consciência só muito mais tarde do privilégio que tive em trabalhar na icónica ponte que liga Lisboa a Almada, o que aconteceu há já uma década. Além de a ter atravessado a pé, vezes sem conta, fruto das circunstâncias de trabalho; tive ocasião de visitar as torres que se situam a 190 metros de altura desde o nível das águas do Tejo, através dos acessos interiores com estreitas “entradas-de-homem”, após os confinados elevadores de acesso, onde espreitar o Sol surge como um alívio, para assistir à passagem, vista de cima, dos carrinhos-miniatura que atravessam o tabuleiro; e isto não é uma experiência para todos os dias. Tive ainda a oportunidade de estar dentro dos pilares inferiores que não possuem aberturas para o exterior e de ter conhecido a base dos pilares sob o rio. Os ossos do meu ofício levam-me muitas vezes a pensar que a providência é uma amiga divina que anda por perto.

Um ano mais tarde, em lazer, visitei a Golden Gate ansiosa por estabelecer as diferenças e as parecenças entre ambas as pontes. Através do cruzeiro Golden Bear partindo do Cais 39, primeiro inspecionei o tabuleiro da perspetiva de baixo, depois atravessei-a a pé e só por último de carro. Sem acordar a pressa, mas pelo contrário, dedicando a esta ponte o devido tempo que me merecia. Se quisermos verdadeiramente apreciar os momentos onde decidimos viajar, então cada viagem deve ter o sabor de uma vida inteira, e para que isso aconteça devemos manter a atenção plena ao instante presente. Foi o que aconteceu. E por isso me recordo tão bem desta experiência e de ter satisfeito a minha curiosidade a par de várias reflexões. Feitas as observações sobre as três visitas enunciadas atrás, apesar das múltiplas comparações entre as duas, a verdade é que as semelhanças entre estas pontes suspensas recaem na matéria prima, no tom da pintura em dicromato de chumbo e na forma como o ferro e o carbono foram bordados. As restantes características técnicas são diferentes. A matemática do comprimento do tabuleiro, do número de faixas de rodagem: tudo é distinto. As margens para lá do aço, as distâncias, o posto da portagem. Sobre isto, pouca coisa existe em comum. Recordo porém a belíssima tarde em que caminhava sobre o tabuleiro da porta dourada. Apesar do vento frio, naquele encontro, o por-do-sol foi o momento do passeio em que me senti mais gratificada: o céu tingiu-se de rosas (num daqueles espetáculos da natureza que só temos direito a assistir uma vez na vida) e as pessoas transformaram-se nas suas próprias silhuetas, parecendo experimentar prazer mas sem darem por isso. Ocorreu-me pensar que para os lados do céu, os deuses de lareira acesa reunidos uns com os outros nas suas insustentáveis diligências de final de dia, nos observavam numa espécie de amor correspondido entre dois mundos. Dir-se-ia cativando os incautos observadores. De carro não seria a mesma reação. Talvez por este paradoxo romântico, a Golden Gate seja o local do mundo onde ocorrem mais suicídios. A mente humana é uma poderosa indutora de coragens ainda por explicar, onde a morte é por vezes uma escolha, dependendo dos portais sensoriais, ora dourados ora negros. Por culpa dos passeios, e dos passeios do pensamento, em certas situações apraz a possibilidade acessível de olhar os braços abertos das águas e não mais regressar à vida. Mas felizmente que o panorama do futuro também se vislumbra do exato mesmo lugar, e, é também a delícia do rio no seu curso que nos encaminha a seguir em frente. É preciso renunciar a todas as visões distópicas. Num dia tão bonito haveríamos de saber reconhecer naquela mistura de nuvens rosa, como Monet pintou em 1903 “Charing Cross Bridge”: semelhante tecido leve, biombo sob o Tamisa, numa evocação de lonjura com cheiro a pó de arroz. Talvez a ligação das margens inspire o homem a ler no horizonte presságios de funambulista, ou quaisquer outros espetáculos onde a energia se expande: gaivotas rasteiras afastando-se; olhares de Ulisses em frente ao mar. E enquanto caminhava, senti um aroma de futuro, de gratidão, mesmo sabendo que nunca ali fosse voltar. E é esta a lição das pontes. Séneca dizia que a verdadeira felicidade é sabermos gozar do presente, seja qual for o dia de amanhã.

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