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‘We’ll always have Paris’

Foi no Casablanca que ouvimos as eternas palavras de Rick para Ilsa. E, na verdade, conquistamos esta cidade da mesma maneira, trazendo-a no regresso. E os momentos passados em Paris, viverão para o fim das nossas memórias. Chegamos no dia da Tomada da Bastilha, o que quer dizer que avistamos a Torre Eiffel vestida de todas cores possíveis de fabricar com fogo de artifício, naquela noite em que o mundo inteiro olhava o céu. Paris parou em redor da torre e toda a gente quis lá estar. Mas antes disso, este feríado nacional significou dar uma volta gigante para fugirmos às ruas cortadas da capital. A polícia não nos deixava passar e acabamos por fazer um circulo maior que nos permitiu atravessar o rio e encontrar o hotel. Este ficava muito perto do Louvre, porém, decidimos não entrar no museu. Não bem devido às filas, mas porque eu, em questões de arte, considero-me contemporânea. E em relação à Mona Lisa, vi, há longos anos, uma cópia fiel no Museu do Prado, que não foi Leonardo da Vinci a realizar. De qualquer modo, só colocando uma ao lado da outra para encontrar as diferenças. Mas renegando o Louvre, tive a alegria de entrar no Pompidou. Ver outra vez Rothko, ver a via negativa dos girassóis de Van Gogh por Mark Alexander, e, surpreendentemente, encontrar as esponjas azuis de Yves Klein, entre inúmeras instalações modernas que me deixam sempre a pensar que a arte nasceu para nos fazer pensar. A própria cidade é um museu, e, como as férias não foram longas, prefiri dirigir-me às áreas mais interessantes de Paris como o Moulin Rouge para comer gelados ao Sol. Fomos também à procura do muro dos Je t’aime em Montparnasse, onde decorriam filmagens e tivemos de esperar para aceder ao jardim e desvendar como dizer que se ama a quem se ama nos outros idiomas. Fomos à Basílica do Sagrado Coração em Montmartre, onde Luis IX a cavalo divide o céu branco com Joana d’Arc recolhendo as nuvens no manto. Pude atravessar muitas vezes as pontes e passear nas margens do Sena, e até deixar um cadeado na Pont Neuf. Vi uma mulher vestida de noiva provavelmente acabada de casar. Vi dias cheios de sol. Vi a luz do Père Lachaise, cumprindo um desejo antigo: há muitos anos durante um interrail à Grécia eu tinha feito um desvio propositado a Paris e encontrei o cemitério fechado. Agora a cidade tinha sido alvo de alguns atentados: havia um camião incendiado no centro. Do género de acontecimentos que nos vêm lembrar que a Europa já não é o lugar pacífico de outrora. Mas depois disto tudo, o que nunca irei esquecer foi o homem que vinha no metro e levava um livro aberto na mão que olhava atentamente, e eram pautas que só ele ouvia.

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Viver em França: a Normandia e o Dia D

Estou a viver na Normandia há 20 meses. E existem muitos pontos de interesse relacionados com o Dia D e com a Segunda Guerra Mundial. A comuna de Sainte-Mère-Église, ficou célebre por ter sido a primeira a ser libertada pelos aliados. No lado de fora da igreja existe ainda um manequim pendurado em homenagem a um páraquedista americano que, ao cair, ficou preso na torre, tendo sido capturado pelo exército alemão. Em Colleville-sur-Mer, localiza-se o cemitério militar americano onde foram enterrados milhares de soldados norte-americanos. Este é um lugar solene, grandioso e compassado geometricamente, mas os jardins fazem esquecer que se trata de um lugar onde estão sepultados homens. Na América, os cemitérios são matemáticos e este não é diferente. O minimalismo verde-relva e branco-paz fazem do terreno um espaço onde crianças podem brincar. E, a alguns palmos abaixo da terra, cada um fica igual a um outro, nem mais nem menos. Acima, uma cruz branca sobre a relva. Bonito sob todas as perspectivas. Sem hierarquias como em vida deveria ser: ashes to ashes, dust to dust pois corpos são corpos mesmo destes heróis de guerra. Por causa deste ambiente limpo, há poesia o que é comovente. Aqui e ali vê-se uma rosa tímida encostada a uma cruz. Detalhes que se perderiam noutros lugares. Os militares caminham alinhados e nós vamos prosseguir em direcção ao mar, até às praias do desembarque. Ao longo da costa da Mancha, há vários museus alusivos aos acontecimentos da época e monumentos. A escultura Les Braves da artista Anilore Banon enquadra-se inteira nas nossas fotografias enquanto a maré deixa. Ensaiamos o mesmo panorama com muitas pessoas, e minutos depois sem ninguém, para terminarmos lá ao lado, pequeninos, em frente a um mar imenso onde desembarcaram um dia mais de 160 mil homens. A 6 de Junho comemora-se justamente a vitória das forças aliadas. O verde-tropa inunda as ruas. Os carros-patrulha começam a aparecer com as pessoas trajadas para festejar. Pedimos autorização para entrar nas viaturas e ninguém leva a mal. O mundo é livre. A Europa é livre. Somos livres. As bandeirinhas americanas fazem esquecer que estamos em França. Resta entrar no espírito do dia e comemorar. Depois almoçamos para brindar à paz que nos deixaram tão bravios soldados, e o cão da cruz vermelha fica do lá fora a guardar.

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O Monte Saint-Michel

Por ser feriado, a fila de carros alongava-se como uma corrente com mais elos a cada segundo. A parte boa no trajecto próximo, foram as imagens bucólicas do cenário das ovelhas de focinho negro com o pequeno monte ao fundo. O resto, foi uma primeira visita. A torre que sustenta o arcanjo Saint-Michel estava em manutenção e havia tanta gente acotovelando-se nas escadarias da estreita Rua Grande que não aproveitei a viagem da maneira que queria. Por isso, perto de um ano a seguir, voltei. E ainda gostaria de regressar uma terceira vez para fazer a caminhada a pé na lama da baía numa altura quente e, claro, com maré vaza. O Mont Saint-Michel permite mais uma espreitadela à idade média embarcando-se no ilhote que parece afundar-se depois quando a maré encher. É verdade que o lugar está bem preparado para os turistas, provido de grande organização em termos de parques e ligações de acesso que não conferem grande aventura. Há paragens estratégicas na zona comercial das galerias à entrada da ponte, onde os autocarros gratuitos ou as carruagens de cavalos são a alternativa mais rápida a prosseguir a pé ou de bicicleta. Mas o importante é ir: as vistas das muralhas são únicas e, as colunas da Abadia, apresentam já sinais consideráveis de desgaste que vêm lembrar a máxima de que nada dura para sempre. Património de culto, podemos encontrar religiosidade através dos votos secretos que se espalharam, sob a forma de moedas, num lugar soturno, inacessível, que até pode trazer sorte. Há os jardins exteriores e inúmeras perspectivas para aproveitar o passeio. E ao longo da muralha encontram-se vários restaurantes com esplanadas exteriores que são um bálsamo em dias soalheiros. Podemos ficar ali a rever as fotografias feitas, a brindar ao presente que temos, e a ver os outros turistas que nos sorriem de volta. Acontece sempre isto nos lugares mais bonitos. Há uma certa alegria empática que se sente e divide com os outros viajantes. Porque isto de gostar muito de viajar tem sobretudo a ver com olhos. Observar o que o mundo tem. Depois vem a parte das fotografias-postal: voltamos as costas aos cenários que mais apreciamos, para parecermos a colagem de uma estátua que ouviu cheese, um instante antes de petrificar. Às vezes, ainda apontamos um elemento óbvio. Noutras, abrimos os braços prontos para receber uma bola enorme que nos caísse do céu. Ou, então, divagamos com o nosso ar mais natural. Eu meti as mãos nos bolsos avistando o arcanjo Miguel provindo do Paraíso, batendo as asas, a caminho de casa.

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Tapeçaria de Bayeux

Foi uma das grandes curiosidades que quis satisfazer na Normandia: o enorme tapete de linho do século XI, peça identificada pela UNESCO como fazendo parte do projecto Memory of the World, ao lado, por exemplo, da partitura original da 9.ª Sinfonia de Beethoven. Há que preservar a nossa história conjunta. E revisitar o que nos trouxe aqui. Em Bayeux, há então um museu moderno que conserva este tesouro tecido. Podemos olhar o tapete e testemunhar a lonjura daqueles anos, década de mil. A batalha de Hastings ali bordada, ao longo de 70 metros de comprimento, ilustrando a conquista de Inglaterra pelos Normandos em 1066. As cenas da batalha: cavaleiros, espadas, escudos, trajes, animais, barcos, machados, canhões, palácios. Tudo isto desenhado com agulhas e linha. Cores pálidas sobre o tecido iluminadas através de luz artificial numa sala escura. Pigmentos que mudaram com o tempo e as imagens talvez já muito descoradas. Em cima, os títulos bordados em latim. E encontramos ali algumas respostas se perguntarmos como seria viver na Idade Média. Outras obtemos de diferentes maneiras. E há ainda as que fabricamos. Por exemplo, os filmes de época, apesar de nos trazerem verdade em alguma parte, não passam de tentativas de dizer sobre o que já não existe. Ao pensarmos sobre esse todo que veio de dantes, esse que não vivemos, é mais a ausência das coisas que se imagina. Temos agora nas mãos um mundo muito mais cheio de tudo. Mas o mistério da existência vem de muito mais longe. E por muito que o tempo prove a evolução, evoluímos afinal para onde e para quê? Haverá um sentido de progressão na robô Sophia, oradora na Web Summit, respondendo autónoma às nossas questões? Penso que a diferença entre uma máquina comum e a Sophia tem que ver com emoções, ela simula a transmissão de emoções. Pretende ser. Pretende ter. Então faz de conta que nasceu uma mulher-máquina que é como uma mulher. Lembro-me da visão de Spike Jonze em Her sobre as relações modernas satirizadas através de uma assistente pessoal criada informaticamente e a impossibilidade de reciprocidade sentimental homem-máquina. As emoções verdadeiras, essas, que são nossas, acompanham-nos imutáveis ao longo do tempo. O que sentimos, como nos sentimos, existe interiormente e está agarrado a nós. Saber sentir o vento, vibrar com uma voz ou uma imagem, entrar numa canção. Isso é muito e apenas animal. Não sei como será daqui a mil anos. O futuro parece ser um agente pretensioso e carregado de verniz. Brilha demasiado. Prefiro a purpurina para fantasias de época. Dizia-me ontem um amigo que vê a verdade das pessoas através dos olhos delas. Aquele brilho no lugar onde pertence, como quando sorrimos e os olhos contam aquela verdade sobre estar-se feliz. É tudo só aquele momento que vem à janela mas porque acontece dentro de nós. Então nada mais tem que brilhar.

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