Portugueses de Chocolate pelo Mundo, Honfleur

A França é um país bem arrumadinho, de cidades perfeitamente penteadas, com risca a pente e esquadro, como é o caso de Honfleur. A construção de enxaimel encanta com suas vigas em madeira, transferindo personalidade ao casario medieval com mil anos de história. No porto de Vieux Bassin os relógios pararam, e as casas espelhadas nas águas vão formando tapetes feitos de luz e cor para os barcos passarem. É um cenário poético que experienciamos desde as margens da marina até ao carrossel. E depois de umas tantas voltas no dorso dos cavalinhos de pau, seguimos a direção do Museu da Marinha e, logo à frente, onde anteriormente a orla do muro repousava vazia, duas estátuas-vivas recém aparecidas chamam à atenção. Primeiro fotografo-os de perfil e, logo a seguir, misturo-me com os espetadores que se haviam concentrado em redor e apanho-os de frente.

As esculturas humanas apresentam-se imóveis e parecem feitas de chocolate. Um titereiro de olhos fechados de pé em cima do muro, comandando, por meio de cordéis, uma menina em posição adormecida sentada a seus pés e também de olhos fechados. No chão junto ao casal: um guarda-chuva de chocolate misto, compõe o cenário, fazendo sombra a uma caixa onde descansa um pequeno cão. Ao tilintar das moedas que atiro para a leiteira de que dispunham, numa pequena mesinha à sua frente, a menina acorda manipulada pelo marionetista, também acabado de despertar, que faz com que ela levante o rosto, e sorria numa vénia de agradecimento. E é neste momento, em que apreciamos a mestria com que estas personagens se articulam e interagem connosco, que ouço baixinho: “Olá… Se quiseres, podes vir sentar-te junto de nós.” Para meu grande espanto, o casal de chocolate era português. Não hesitei em sentar-me a seu lado, e, com alguma euforia, iniciamos uma pequena conversa na qual os atores mantiveram os seus papeis. Ainda que quisessem sorrir mais, condicionavam as expressões do rosto; falavam pouco evitando mexer os maxilares; mas, por causa da natureza cristalina da água que vive em nós, os olhos de ambos nunca deixaram de assumir a sua verdade.

A propósito deste dia, lembrei-me daquela passagem do Paciente Inglês em que numa enfermaria da Tuscânia, em plena 2ª Guerra Mundial, um soldado pressentindo a morte grita por alguém da sua terra e Ralph Fiennes – desfiguradíssimo na sua personagem de conde Almásy -, pergunta à enfermeira canadiana Hana: “Why are people always so happy when they collide with someone from the same place? What happened in Montreal when you passed a man in the street? Did you invite him to live with you?” e, em geral, não nos importarmos com os nossos concidadãos quando caminhamos na rua; por tantas ocasiões nem os vemos. E, no seio da confusão da metrópole, entre todos os aqueles “estranhos” que seguem as suas vidas aparentemente sem terem nada a ver connosco, muitas vezes, pouco mais entregamos de nós do que um curto e tímido cumprimento à entrada do elevador; ou um sorriso entre as filas de trânsito; havendo uma quase total ausência de experiência em coletivo. É como se fossemos mais estrangeiros dentro das próprias fronteiras, mais individualistas, numa tentativa de nos apresentarmos mais compostos, temendo o ridículo de abordar os outros, e tudo isto fruto de uma educação rígida própria da cidade, repleta de regras de conduta e disciplina. Porém, assumimos uma personalidade diferente, mais amistosa, mais empática, mais bondosa sempre que não estamos no país. Para lá da fronteira, ficamos contentes quando encontramos pessoas da nossa mesma nação como se fossemos irmãos, e trata-se de um misto de emoção e alegria, com ambos os sentidos: uma satisfação de efeito surpresa e, ao mesmo tempo, aquele embalo de nostalgia que nos cruza o espírito como um vento frio por nos reconhecermos no sangue dos outros. É como fazem sentir os versos de Amália em “Ó Gente da Minha Terra“. Somos os mesmos nobres exploradores, orgulhosos dos nossos antepassados e da nossa significância no mundo, sem medos. Somos bravos rumando ao novo com grande sede de ventura para tentar condições diferentes de vida, reconhecendo que, além fronteiras, há qualquer coisa entre nós que nos une e nos pertence a todos. Lá fora, somos mais próximos, embrulhados numa bandeira, ouvimos Ronaldo na boca dos outros e há um certo sentido vaidoso que ressoa através da nossa História diretamente nos nossos corações e alma lusa.

Li recentemente que, de todos os estados-membros da UE, Portugal é o único que tem mais nacionais emigrados do que estrangeiros a viver no país, por isso, é natural que encontremos sempre pelo menos um português em qualquer outra geografia. Expatriados, emigrantes e viajantes temporários que largam a mochila e que até se vestem de chocolate no espaço público; somos aventureiros, somos destemidos, e vamos atrás do que quer que possa ser melhor do que Portugal oferece, principalmente para quem vive da cultura e da arte. E os artistas de rua têm uma dose extra de coragem para exibirem o seu talento na itinerância do palco público das ruas, às vezes, como aqui, terras onde não lhes cresceram raízes. E pessoas com a coragem de serem assim livres são profundamente dignas de reconhecimento.

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