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Istambul, da Ásia à Europa

Quando se está a viver no Koweit, e na véspera dos festejos do dia Nacional, dar uma escapadela à Turquia é realmente bom. Apesar do frio, a neve foi um bom encontro com o inverno europeu. Além da oportunidade de pisar o único lugar do mundo onde dois continentes colidem na mesma cidade (é claro que este pormenor não tem realmente nenhuma relevância para quem está a viver experiência, mas) é possível encontrar outras razões singulares entre coisas para fazer em Istambul. Por exemplo, visitar o maior edifício da Turquia: o Palácio de Dolmabahce e toda a sua extravagância, entre salas e ao longo de corredores preenchidos de tapeçarias de seda e mobiliário da época,  o lustre de 4 toneladas de cristal, reposteiros que embelezam as janelas da paisagem, hoje, mais moderna, lá fora. O presidente Atatürk que dá nome ao Aeroporto Internacional de Istambul, morou na parte final da sua vida neste palácio de sultões, e no seu quarto mantêm-se os relógios parados às 09:05, em tom de homenagem sagrada ao seu desaparecimento. Mas não há permissão para fotografar o interior do palácio. Lá fora, todos os objetos são fotografáveis, até as muçulmanas, apesar de não o devermos fazer em modo intrusivo. As ruas, os edifícios das ruas e os adereços que mais ou menos lhes pertencem. Há panos vermelhos com uma estrela antiga ao lado da lua. A estrela é Alexandre, O Grande. Que bandeira feliz, pensei. Podia transfigurar a minha ideia desta bandeira. Agora que visitava a Turquia tornara-se tudo mais palpável, mais nítido e menos difícil de esquecer. Pela lente da Canon G7X, até a noite de Istambul ficara transportável com maior nitidez para a algibeira das recordações. Nesta viagem, praticamente não tive filas para visitar os monumentos manifestos da antiga realeza. Nem para aceder à bela basílica Hagia Sophia. Construída entre 532 e 537 pelo Império Bizantino para ser a catedral de Constantinopla, permite que se registe a sua ampla sala interior, incluindo os tectos lá no alto e todos os detalhes, que os gatos iluminam nos focos de luz conferindo uma atmosfera mística ao lugar. Não são coisas que consigamos ver mas podemos sentir. Da mesma maneira, o resto da cidade apresentava-se absolutamente romântico com confetti de gelo por toda a parte mas retirou-me a vontade de passear de barco. Algo que ficará adiado para um verão do futuro ou talvez nem aconteça porque a vida nunca chega para fazermos tudo. Voltando à viagem, também devido ao frio, havia poucos pescadores na ponte Gálata, sobre o estuário do Corno de Ouro. Os transportes públicos funcionam bem, e também a Uber assiste com a rapidez requerida, embora ainda não seja uma atividade legalizada na Turquia. Como o Grande Bazaar encerra ao domingo, acabei por tratar das souvenirs pelas ruas movimentadas do centro. Para abrandar o passo há vendas ambulantes de milho e pastelaria diversa. Pediram-me 350 Liras por um candeeiro multicolorido de vidro numa loja de tapetes e candeeiros de vela. Convenci-me que o vidro era bom porque fui convidada a colocar o meu peso por cima da campanula e ela resistiu mas, para não regatear, acabei por sair. Experimentei os doces regionais na Acemoglu Baklava: aqui convidam a sentar e beber chá turco com o preço incluído nos docinhos. É simpático e acolhedor quando o frio lá fora parece feito de facas. Há senhoras a cozinhar pão nas montras da cidade. Para o final, ficou a Basílica Cisterna sita na mesma área geográfica, conhecida como o palácio afundado que foi construído em 532. Pude fotografar as colunas de 9 metros de altura que se contam 336 em número, a cerca de 5 metros de distância entre si. Apesar de todas serem diferentes e únicas, as mais singulares e mais desejadas são: a das lágrimas e a cabeça da medusa trazidas do império romano. Um cenário de lusco-fusco impressionante onde o tempo parou. No fundo da água luziam moedas que já não eram dinheiro mas eram desejos, perfeitamente alcançáveis pelas nossa mãos mas que ninguém leva. Em Istambul, levamos só as compras que fazemos. Na loja do Palácio: eu trouxe um leque para receber o verão no Koweit, e sabonetes artesanais vestidos de feltro. Mais tarde, pelas ruas do centro encontrei mais sabonetes fechados em latinhas; o habitual marca-livros para a coleção da minha irmã, mas personalizado com o nome dela escrito na hora com caligrafia antiga e olhos contra o mau-olhado das pessoas invejosas. Deambulando pela cidade, continuava tudo certo. Mesmo o excesso de patrulhamento talvez não fosse excessivo para um concentrado de 15 milhões de habitantes. A neve ia caindo e confirmei o que li em algum lugar e que dizia que há dois dias de neve em Istambul por ano, que acontecem por alturas de fevereiro: penso que em 2019 forem estes. Mas esta é uma cidade que não parece importar-se com o frio, sendo muito simpática, acolhedora e animal friendly onde os gatos são os anfitriões um pouco por toda a parte, até nos restaurantes. E, quando se anda a passeio, está sempre bom para sair para a pista e descobrir mais lugares para visitar. Em Kabatas, com o mesmo passe recarregável para uso de transportes públicos, o funicular subterrâneo Tünel ao longo de 3 minutos sempre a subir até à Praça Taksim.  O frio não convida a ir aos miradouros para avistar a cidade, mas não faltam cafés e restaurantes com aquecimento eficiente enquanto Istambul se mantiver embrulhada num manto de nevoeiro e mesmo que a lua não se levante. Esteve agreste sim para flutuar sobre o Bósforo mas deu para espreitá-lo junto à margem do Museu Naval e, simultaneamente, deu para pensar com vontade em regressar no verão. Até lá, ficou o conforto do W em Besikas numa zona animada, colorida e aconchegante, onde me esqueço do outro tempo que pulsa no Médio Oriente e de onde trouxe o trago doce do mel disposto em favos que degustava, ali, pela manhã.

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