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Memorial aos escravos em Anse Caffard

À primeira vista o lugar é idílico, e contam-se 15 estátuas de cimento com 2 metros e meio de altura, dispostas em triângulo. Mas o que torna este espaço diferente (e nisto as fotografias ajudam) é o que estas estátuas representam e de que forma o escultor local, Laurent Valére, as edificou. Este monumento colossal é composto por figuras semelhantes que, apesar da solidez da matéria-prima usada, anunciam uma expressão única. No seu conjunto, têm a força de um, e o semblante da tristeza que carregam e transmitem, não deixa ninguém indiferente. As estátuas estão a olhar o mar em frente, mas as cabeças levemente inclinadas para baixo e os braços baixados ao lado do corpo manifestam uma sensação de inércia e de resignação. Mesmo sem conhecermos a história do lugar, podemos sentir estas emoções admirando-as de perto, podemos tocar nas estátuas e andar no meio delas pois não existem quaisquer separações físicas. A história deste lugar é uma história de vergonha assente em propriedades e serventias, a respeito de direitos de homens sobre outros homens e, em particular, acerca da tragédia do naufrágio de um navio de escravos proveniente do Golfo da Guiné no ano de 1830, quando Napoleão havia abolido o comércio de escravos em território francês quinze anos antes.

 

Ilhas francesas do Caribe e o conceito de felicidade

Nas Caraíbas, há muitos paraísos como a República Dominicana, o México, a Jamaica. As pessoas escolhem passar a lua-de-mel nestes bocados de terra cercados de mar. O que requer tempo de preparação, de organização; não são viagens de vontades súbitas. Até existem pacotes em múltiplas agências para tornar reais esses sonhos. Talvez seja o poder – que as ilhas nos trópicos têm – de oferecer um verão constante. Por as cores, com o Sol a bater, ficarem mais fortes e vivas, e o verde garrido da Natureza invadir até as águas mais cristalinas e nós ficarmos também mais fortes, mais cheios de energia e de vida. São destinos que nos transmitem felicidade, e que não queremos perder. Eu estava em França quando decidi viajar até à Martinica e comprei a viagem em 10 minutos, no embalo do impulso. Fixei-me em Saint-Anne, com a praia a poucos metros de casa mas viajei pela ilha inteira. Fiz outra vez tranças no cabelo pela mão ágil de uma criola. Fiz outra vez snorkeling, atrás das tartarugas. Subi árvores. Abri a porta de casa aos passarinhos. Bebi rum local. Conversei com os vizinhos de esplanada. Segurei nas mãos cana-de-açúcar. Visitei o monumento aos escravos em Anse Caffard. Senti-me muito insegura na noite de Carnaval em Fort-de-France. Mergulhei em Anses-d’Arlet, avistei o rochedo Diamante e aprendi que, na Martinica, onde existe uma vaca há sempre uma pequena garça inseparável muitas vezes sentada no seu dorço. Por tudo isto, pela possibilidade de acumular novas experiências e aprendizagens, e por as más vivências também nos marcarem e transformarem, evoluímos, e isto não tem preço. Este encher-me de paixão e gratidão, é que traduz o que é, para mim, a felicidade. Às vezes, penso no que vem nos dicionários. E por definição, felicidade, resume-se normalmente a um momento, ou um estado de boas emoções, mas em teoria não é nada de muito duradouro. Na verdade, acredito que o estado de estar feliz possa ser muito mais do que isso. Nunca nos lembramos quando está a acontecer mas a felicidade esconde-se em múltiplas viagens: é na força com que um objectivo novo nos impele a seguir em frente, ou no pensamento de algo bom do passado que volta e nos embala, e assim viajamos sempre. Como no refrão do Fast Car: So remember we were driving, driving in your car/ Speed so fast I felt like I was drunk/ City lights lay out before us/ And your arm felt nice wrapped ‘round my shoulder/ I had a feeling that I belonged/ I had a feeling I could be someone, be someone, be someone.

 

A Liberdade Iluminando o Mundo

Vivemos tempos em que não questionamos a nossa liberdade. Em lugar disso, fazemos representar-nos de modo instantâneo e por meio de faixas no rosto, com as cores de um outro país sobre a imagem de perfil, ou através de um hashtag nas publicações para não sair de casa, ora de um quadrado ou círculo preto, nas redes sociais. Conforme a tendência mais actualizada ao segundo, há um género de dever de participação. Então imitámo-nos nas nossas presenças digitais. Contagiámo-nos com notícias que chegam da América, e do mundo, sobre pessoas e injustiças contra pessoas. Ao mesmo tempo, levantam-se cartazes e gritos pelas ruas; os monumentos são derrubados e sarapintados de tinta graffiti, com letras e crenças e motes e histórias. Há uns dias perguntei o que era ACAB, e um amigo explicou-me ser All Cops Are Bad. E então era isto que as borras de tinta pretendem dizer sobre os monumentos? “Todos os polícias são maus”. Outros dias gritava-se “Todos Diferentes Todos Iguais”. E era este o perigo das generalizações atravessarem continentes e mares para nos apanharem. Eu não visitei os Estados Unidos como a concretização de um sonho. Já as torres gémeas haviam implodido mas quis ir ver a representação da Liberdade edificada na sua ilha, tal como a França a ofereceu: a figura coroada da deusa romana em tons de azul e de braço direito erguido ao céu de tocha na mão. Azul, azul, sem mais cores. No regresso a Manhattan consegui uma das melhores fotografias da minha vida, um instante mágico de sobreposição de liberdades, um momento irrepetível como todos os outros que vivemos.

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Colibris na Martinica

As Caraíbas são ainda mais apetecíveis quando, na Europa, repousa lento o Inverno. E, a menos de um dia de distância, podemos voltar a aconchegar-nos no forte calor que pertence àquela América do centro, que nos recebe pela porta do sol agarrando-nos pela mão, pelos olhos, para nos dourar a pele. Sente-se assim o reconforto e a bem-querença deste paraíso no que oferece de mais basilar: praias vastas de areia limpa, águas calmas e outras mais fortes de um mesmo mar quente e temperamental, e o bálsamo do som dos passarinhos como banda sonora de férias. Na Martinica não há demasiados turistas, há espaço e a vida não é dirigida a quem vem de fora. Continua a ser uma série de gestos locais, diários, não fabricados e sem contradição com a vida de sempre que se passa na ilha. A tradição do turismo massivo acontece noutros locais próximos, que todos conhecemos das montras das agências como destinos de luas-de-mel. Neste sítio do Caribe, vivemos em francês uma relação orgânica doce que permanece depois como uma memória morna. À medida que nos afastamos da areia, exibe-se o verde em toda a parte, desde a margem das estradas, atrás das canas para o açúcar e o rum se fabricarem, e, depois no alto das colinas, encontrá-mo-lo um pouco mais forte em contraste com o azul do céu. Nas regiões mais interiores, o verde é ainda mais verdadeiro mas mesmo lá o mar entreabre-se sempre por uma qualquer brecha ao fundo. Os dias de sol e sal passaram depressa, junto ao mar, nas várias localidades da ilha, mas foi no Jardim da Balata, a dez quilómetros de Fort-de-France, que o meu olhar se prendeu. Nas Antilhas francesas, existe este magnífico espaço desenhado de flores e vegetação. Esteticamente bem arrumado, organizado em trilhas de espécies exóticas, e suas características que não mais se esquecem: as cores, os cheiros. E outras maravilhas como as pontes de corda no alto das árvores, os bambus mais grossos do mundo, as palmeiras mais altas de sempre, lagos de nenúfares e flores-de-lótus. Mas o melhor de tudo, que me parece de uma grande generosidade mundana: são os beija-flores de corpos iridescentes que vêm debicar junto à recepção. Foram estes pequenos meninos alados do jardim que me puseram a pensar que são justamente surpresas como esta que me viciam na missão de viajar. E comovo-me mais uma vez com a forma como a natureza gere o planeta. Quando olhamos para a rapidez suspensa dos colibris, não percebemos, de facto, o que é o movimento das asas que deixam de se ver a menos de um metro. Tive muita sorte naqueles minutos partilhados com os celebrados colibris, no terraço da casa crioula que atravessamos junto à entrada do jardim. Fiquei ali, imóvel, com os braços em ângulo recto a suportarem o elemento que, entre mim e os passarinhos, haveria de os registar para trazer aquela memória comigo. Àquela distância, não sei se os animais vigiam as nossas intenções enquanto os analisamos. Talvez o façam em segredo, talvez convivam connosco sabendo a quem fazer confiança. Acho que a natureza é muito mais sábia do que alguma vez se conseguirá provar. E foi assim que começou mais um dia nas Caraíbas. O meu último dia de férias, rico de emoções e de cores vivas, a poucas horas de apanhar o avião que me levaria de volta a França. Quem decide sobre os lugares mais bonitos do planeta há-de saber que a Martinica nasceu para ser visitada.

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Búzios para ouvir o mar ao ouvido

Tive a sorte de viajar com um amigo brasileiro até Armação de Búzios. O que se verificou a melhor companhia do mundo, depois de ter sobrevoado sozinha o oceano inteiro que separou, naquele fim de Outubro, o Porto de Portugal do Rio de Janeiro. Lembro-me de rir muito no caminho que fizemos de carro. Eu perguntava pelos animais que víamos  das janelas a ficarem para trás e ele a responder: São búfalos. Ensinando-me que, afinal, havia búfalos no Brasil. Ele falava muito de si, da sua vida, dos seus projectos. Eu sempre fui boa ouvinte. Não me lembro em pormenor mas a viagem fora tão rápida que há-de ser verdade o que se diz: o tempo flui se estivermos bem. Quando chegamos, percebi que Búzios era um conjunto de muitas praias. Praias quase desertas por estar vento, ou, dito de uma outra maneira, paraísos adiados para dias mais aprazíveis. Esta fotografia tiramos na praia da Tartaruga. Não estava frio mas foi lá que o vento ficou para sempre a desarrumar-me o cabelo na cara. Gosto desta maneira que o universo inventa de dar vida às coisas invisíveis. Ainda confere mais sentido às fotografias. Estava então uma tarde amena com vento, e ele disse o nome dos vários areais que visitamos. Em comum, havia sempre a vegetação, do mesmo verde, estendendo-se até à água, emoldurando as piscinas de areia e mar. Entretanto, o sol pôs-se ao fundo, num panorama habilidoso de lonjura, vermelho e quente. A seguir, na praia da Armação, sentei-me no colo de bronze da Brigitte Bardot, que por lá está, eternamente jovem, absorta do resto e em contemplação do vaivém das ondas e dos barcos coloridos que flutuam em frente. Depois de visitarmos algumas das praias, ao abrir da noite, fui à zona mais central experimentar bikinis. Os dois que comprei eram tão brasileiros que foram sempre parcos em pano para usar no resto do mundo. Jantamos crepes no Chez Michou antes de regressarmos. O meu amigo não esgotava assuntos, percebi-o bem entrosado e a gosto na vida política brasileira, recheado de projectos sociais que contribuiriam para a melhoria das condições das populações menos favorecidas daquele país. Estas partilhas de ideias altruístas, de projectos que fazem sentido e de sonhos, alimentam bastante o meu imaginário. Muita matéria para despistar o silêncio. E, nesta viagem, não precisei, afinal, de ouvir o mar que assobia escondido dentro das conchas.

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O disco-voador

Atravessando a Baía de Guanabara, pela ponte ou pelo ferry-boat, deixamos o Rio para trás. A própria travessia permite uma perspectiva nova da cidade: as suas montanhas, o morro da Urca espreguiçado no mar, o Pão-de-Acúcar impondo-se à frente, o Corcovado pequenino mas indelével nas recordações, e a vista adiante de Niterói que se pretende desvendar. Para melhor aproveitarmos estas várias lindas paisagens, é preferível despender os 20 minutos que a barca demora pela baía e, com sorte, ainda cumprimentar Iemanjá. Depois de desembarcar, há pontos de interesse com cunho português, como a Fortaleza de Santa Cruz, mas, é no Mirante da Boa Viagem que se encontra atracado o edifício que me leva ali. Ei-lo então a dissociar a paisagem da cidade, fosse qual fosse a cidade, fosse qual fosse o lugar, completamente insólito, extraordinário, excepcional: o MAC. O meu museu de arte contemporânea preferido do mundo. Projectado por Oscar Niemeyer, e sem precisar de mais apresentações. Quisera ser uma espécie de flor ou taça mas, aos meus olhos, desde o primeiro instante, um disco-voador. É preciso fazer uma pausa, para pensar no nome do local escolhido que, quanto a mim, não poderia ser mais bonito, nem ter um nome mais bonito do que: Mirante da Boa Viagem. Um miradouro com desejos de bonança, perfeito para deixar um disco, ou esta espécie de semi-pião de cimento que parece girar em cima da água. A arquitectura da rampa de acesso permite admirar a obra de vários ângulos, mas é no seu interior que se percebe a genialidade do arquitecto. Há janelas de vidro, inclinadas numa faixa central, que circundam toda a extensão do edifício e permitem apreciar a paisagem do Rio de Janeiro, as vistas para a baía e para Niterói. O piso é em alcatifa, por isso, sentimo-nos convidados a passear descalços, na experiência de, confortavelmente, deambular entre as obras expostas e, descansar na plataforma junto às janelas, desfrutando da beleza exterior e da do próprio museu. Apetece ficar ali, a percorrer o disco em círculos, porque ele não vai decolar mas nós, se quisermos, podemos continuar a girar e voltar a girar, como naquele samba dos Tincoãs.

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‘No mar estava escrita uma cidade’

Foi em frente ao Copacabana Palace que as vi. As tecedeiras mágicas de trancinhas africanas. E, ante a possibilidade de me manter penteada nos dias seguintes, não hesitei um segundo. Decidi ficar a aguardar a minha vez, com as minhas amigas igualmente à espera. Há lugares onde situações como esta ganhariam uma espécie de espessura que pareceria aumentar o tempo, no entanto, há outros em que acontece o inverso. O calçadão carioca é uma sala de espera delirante porque os brasileiros são naturalmente bem-dispostos, curiosos e de bem com a vida. Na verdade, nesta viagem, retive para mim, que o povo brasileiro utiliza o sofrimento como um profissional da rádio, com um talento similar para fabricar permanentemente alegria. Ou então redescobrem-se em face da melancolia, fingindo-a. Talvez a convertam numa outra coisa, exorcizando a amargura que a todos algum dia atinge, porque demonstram invariavelmente bom humor, ou, como preferem dizer, alto astral. Por isso, não me lembro de as meninas demorarem mais de 10 minutos trançando-me o cabelo. As distracções já eram muitas além dos transeuntes enquanto esperávamos: a moldura da cidade com o mar por dentro, a Urca unida por fios com carrinhos ao Pão-de-Açúcar, os campos de jogadores na praia, os vendedores de água de coco e os prediozinhos alinhados ao longe. No mar estava escrita uma cidade, uma cidade muito cheia de clichés mas o Rio de Janeiro tem direito a isso tudo e mais. Há uma imensidão de paisagens quando se olha do Corcovado. E Cristo de braços abertos a abraçar o céu e toda aquela cidade que deslumbra, única, mais bonita do que os postais mais bonitos e as fotos mais carregadas de efeitos. Vale a pena corrermos a todos os recantos porque as diferentes perspectivas são lindas e cheias. Então lá estava eu, Carlos Drummond de Andrade, e a Flávia, num banco em Copacabana. Já lá vão 10 anos e parece-me que foi muito mais tempo atrás. Isto há-de querer dizer que eu aproveito o tempo que passa, enchendo-me com o novo para sobrepor nas várias memórias da minha vida. Para quem lê, esta estória podia ter sido ontem. Felizmente, nada, de facto, se sobrepõe. Simplesmente cada coisa fica no seu lugar, ou então, as camadas estarão lado a lado num espaço estranhamente sem geometria temporal. Como aquele mar sem fronteira, que é o mesmo mar agora e já anunciava a cidade antes do Rio nascer.

Em frente ao Copacabana PalaceTrancinhas - CopacabanaTrancinhas - CopacabanaDrummond e eu - Copacabana

Global Cosmopolitans

Nova Iorque é aquela cidade muito viva de pessoas temporárias, frenética, onde o mais difícil é encontrar nova-iorquinos. Uma vez na vida devemos ir a Times Square, onde a Broadway se cruza com a 7.ª avenida e há sempre lugar para mais um. E quando o mais um sou eu, importa-me perceber no local o que já antecipo porque esta experiência é amplamente partilhada mas, de facto, não se esgota. E somente experienciando se vive. Então, olhamos em frente, em volta, e para cima e ei-los: os néons gigantes, a publicidade, as lojas como o mundo da M&M, as escadas vermelhas da TKTS e não importa se é dia ou noite porque a cidade está sempre acesa e bem desperta. Depois, não virar as costas ao óbvio: passear pelo Central Park, passear de barco em Manhattan a pretexto de ver NY em full frame, ir ao museu da imigração em Ellis Island, ir cumprimentar a Estátua da Liberdade a Liberty Island, para depois avistá-la pequenina da Ponte de Brooklin. Subir ao Empire State Building e desfrutar da paisagem com os olhos porque as fotografias não têm a mesma dimensão. Já no chão, não pode deixar de visitar-se a histórica estação Grand Central Terminal, e também o Ground Zero onde as torres gémeas se afundaram e novas torres se construiram. Eu adorei os museus desta cidade, o MET, o Solomon Guggenheim, o American Museum of Natural History e o meu amado MoMA.