O Sol em Havana

A cidade pulsa pelas suas cores, entre murais, fachadas, praças, edifícios e palácios, todos entreolhando-se desde as ruelas de Havana Vieja. Os cocotaxis pontilham o seu movimento em tons de amarelo forte. Os ciclotaxis parecem brinquedos articulados feitos de arame. A frota icónica de automóveis clássicos também segue numa paleta garrida móbil, conferindo carisma à cidade; as peças já não são as originais mas o que se vê é como toda a gente diz: o tempo parou. Parece certo o tempo ter parado e, no entanto, a música acontece a cada esquina e quando um pau raspa o fruto da Güira sabemos que só podemos estar em Cuba. As frases da revolução continuam presas às paredes, os rostos pendem nas bandeiras ao sabor do pouco vento que passa, mas há um sol que parece estar mais baixo, mais perto da pele. Um sol que acaricia a cana do açúcar nos campos criando uma ilha mais doce do que se esperava encontrar. Apesar das palavras de ordem em toda a parte que gritam “Viva Cuba Libre“, e anunciam “Patria o Muerte Venceremos“, a liberdade parece estar longe, e o que se encontra sugere uma película (outrora em preto e branco) onde a cidade diz essas coisas, onde as palavras escritas estão de certa forma ligadas à história, mas não são as mesmas que (agora em cores) saem da boca das pessoas com quem me cruzo. As pessoas dizem coisas diferentes, certos queixumes, e exprimem um desejo visceral de migrar, de sair do país. Nas classes mais jovens, abandonar Cuba parece ser uma prioridade constante. Sente-se e lê-se nos rostos uma melancolia honesta quando confessam essa vontade. Os cubanos são um povo muito disposto a falar o que pensa mas sem grande alarido, como se procurassem no diálogo a condescendência do outro para retemperarem as próprias forças. Nas ruas, há uma grande facilidade da população em interagir com as gentes de fora: explicam em tom baixo ser muito difícil subsistir ali, murmuram que o dinheiro e os bens entregues pelo regime não são suficientes. Mas depois de ganharem alguma confiança com os intrusos, alguns locais tentam conduzir-nos a certos estabelecimentos que estão fora do circuito turístico acabando por depois cobrar, por exemplo, por uma bebida, muitas vezes, um valor exageradamente acima do preço local, como se o estrangeiro fosse um invasor abastado com deveres de esbanjamento. Portanto, em Cuba, também não é fácil ser forasteiro. Explico melhor: não posso fazer compras no supermercado (Tiendas Panamericanas) sem tarjeta: a identificação de residente. Até o cartão de telefone tem de ser adquirido por um nacional. Grande parte dos botequins onde os cubanos se abastecem são exclusivos para contra-apresentação da livreta de abastecimiento, um caderno onde se assinalam manualmente os bens levantados em cada mês. Contudo, é sem surpresas que os cafés, as gelatarias e os restaurantes aceitam a moeda local dos viajantes. Quando se palmilham as calles mais afastadas do centro, encontra-se uma Havana mais gasta. Os edifícios coloniais no centro da cidade estão pintados de fresco para “turista ver”, junto aos hotéis supra estrelados onde as elites apreciam as vistas do alto dos rooftops. Porém, também vi que para lá das ruas principais, nas entranhas da província, antigos hotéis estão ocupados, numa contínua degradação arquitectónica. Alguns já perderam o tecto e existem pessoas que habitam esses lugares degradados, quase em estado de ruína, com vidros partidos e paredes sem cor, pois é onde conseguem viver. No exterior, o sol é intenso, talvez demasiado forte. Por causa dele, os vitrais pintados em meia-lua que sobram do século XVIII, continuam a retirar o brilho às casas. É fácil deambular pelas ruas sozinha, porque as ruas mudam a cada instante. Havana encoraja e impele a fotografar, pois renova-se a cada passo. O sol queima, convidando a tomar um daiquiri no edifício rosa-velho do Floridita onde Hemingway se fez eterno em bronze, ou, uns metros adiante, em plena plaza da Catedral de San Cristóbal, uma canchanchara num pequeno pote de barro onde o mel e a lima se misturaram com o rum. É certo que o circuito do melaço fermentado faz parte de viver a cidade, mas há outros motivos de atenção. As santeras trajadas a rigor e de charuto apagado na boca prontas para a fotografia, prometem adivinhar o futuro através de cartas e orishas. Ao lado, tocam e cantam trovadores locais e ninõs jogam capoeira. Mais à frente, a fachada azul-marrocos convida ainda para um mojito na Bodeguita del Medio e uma visita ao interior de caneta de feltro na mão para firmar o nome na parede, ao lado dos tantos outros que por lá passaram. Ao final da tarde, vão desaparecendo das ruas os jornais com os rostos dos heróis pintados, pois o soar do trovão decreta a chuva tropical que vem pontualmente lavar o dia. Quando a chuva passa, apetece caminhar ao longo dos oito quilómetros do Malecón onde os edifícios, do outro lado, já desbotaram ao sol, e os pescadores, do lado de cá, atiram ainda a linha aos peixes entre grupos de amigos e namorados que se deitam sobre o mureto que ampara as vagas do mar. Passo a cumprimentar o busto Primavera de Rafael San Juan e sigo até ao Vedado com um mar único em volta para dar aos olhos, imaginando o fim da música lá dentro. Em terra, há-de amanhecer outro Chan Chan intemporal de Compay Segundo, tão presente como o sol de Havana, tão quente e forte, que na outra margem Cristo baixou os braços para contemplar o crepúsculo na cidade.

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