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O rei da savana, aquela música e eu

É na savana, onde existe uma árvore aqui e outra ali e abunda a vegetação rasteira, que reina o leão, confundindo-se na mesma cor africana que pinta tudo o que é árido e seco. Depois há o esplendor da planície infinita a que os Masai chamaram Serengeti. Olhamos em redor e o horizonte acaba sempre da mesma maneira: uma linha distante e impossível de alcançar. Há a beleza das manhãs, ou da luz que nos acorda em África e ostenta toda aquela dimensão. Mas, enquanto ao longe a terra se difunde no céu, a algumas dezenas de metros há milhares de animais que se movimentam. Vamos andando à velocidade lenta do jipe. E podemos contemplar o que vemos durante alguns momentos à procura dos big five. A temperatura vai subindo e retirando alguma leveza ao panorama, fazendo mais contraste. Paramos perto de um charco. Em frente, várias espécies de antílopes alinhando-se na paisagem e, de repente, um ponto que parece ser um gato de tamanho grande. É preciso trocar de objectiva para vermos com as lentes das máquinas se será mesmo um leão. Então deixamos de ter dúvidas. Há também leoas ao lado. Queremos ficar ali, com aquela família, não sabendo o que irá acontecer. O calor é já intenso. Deixamos de contabilizar o tempo. Queremos mais sobre o leão. No segundo em que se levanta comentamos a nossa exaltação. Ali está o soberano felino tão decidido quanto indeciso, parado, com as quatro patas no chão. Sagrado naquele segundo. O ruído que se ouve é sobretudo o do vento, de vários pássaros que não sei identificar e do motor de mais jipes procurando também a aproximação. É aquela música da natureza que só podemos encontrar ali. Ouvimos ainda os disparos das máquinas na ânsia de levarmos connosco cada pormenor. É preciso aproveitar o leão à nossa disposição. Agora nada é mais importante. O jipe vai sendo dirigido muito devagar para podermos observar a juba, o porte musculado, e a sua grandiosidade ao movimentar-se. De repente, há um rugido-uivo que o distingue e continua a caminhar. Os jipes ficam parados. É o momento de também nos calarmos, e ficamos a sós naquele estado em que o ruído da natureza se torna o guia essencial e é qualquer coisa impossível de explicar. E assim que o percebemos na nossa direcção lentamente deixamos de nos mexer. O guia pede que fiquemos em silêncio. Então ficamos simplesmente a olhar o animal. A compreensão de que nada pode ser tão bonito, tão forte e tão pleno preenche todos os instantes. O presente que vivemos fica totalmente ocupado pelo leão que vem caminhando na nossa direcção. Altivo, distinto de qualquer outro e percebo bem porque lhe chamam rei. Vem já a escassos metros de nós e é quando decide levantar a cabeça, olhando-me de frente. Aqueles pequenos olhos brilhantes cor de amêndoa ao sol dentro dos meus próprios olhos. Não consigo pensar em mais nada. O meu coração bate tão forte como nunca imaginei. Não consigo mover-me para fechar as janelas. Não há tempo para arranjar estratégias de protecção. Não há tempo para nada. É o leão a chegar. O meu coração é uma bomba a explicar-me o que é afinal o medo. Apercebo-me que se quiser, o leão entra no jipe de um salto. E é a vida prestes a terminar que escolheu o meu lado esquerdo do peito para me dizer que vou morrer. Penso tão forte nisto que continuo sem me conseguir mexer. Estou aprisionada em mim. Tenho os olhos inundados por saber que a minha vida vai acabar só não sei por que razão me sinto tão feliz. E também não sei o que vai acontecer primeiro: se é o leão a atacar-me ou o coração a abrir-me um buraco no lado esquerdo do peito. Então o leão chega junto ao jipe, olha para o chão e decide continuar pelo lado esquerdo. Só neste momento, separados os meus olhos dos olhos do rei e com ele à distância de um braço, só aqui, o sangue me deixa pegar na câmara e fotografá-lo. Agora percebo a felicidade do que acabo de viver. Provavelmente não terei jamais um momento tão vivo. E o leão, acabado de atravessar a rua, a sua rua, porque a savana é dele, pára uns metros à frente para se deitar na sombra de uma árvore.

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