Sobre a Mafalda

Encanta-me pensar que a página que me apresenta seja a mais desafiante de escrever. Ao traduzir-me por palavras receio parecer diferente. Como alguém que vive para a descoberta e para a aprendizagem, prefiro trazer a minha visão enquanto viajante e habitante do mundo: A Minha Grande Viagem surgiu como espaço de reflexão de experiências somatórias; e não há melhor empreitada do que peregrinar-se de encontro a nós mesmos. Escavarmo-nos, desconstruirmo-nos, para blandiciosamente abraçarmos as novas partes e, a cada passo, criarmo-nos de novo. Há-de ser esta a Arte da vida.

O LinkedIn ilustra com compostura a maioria das entidades com quem tenho firmado contratos mas pouco diz sobre mim. Sempre que me perguntam, respondo que nasci no Porto, mas sinto que sou do mundo: carrego uma oliveira no nome mas sinto-me um embondeiro de raízes ao alto. E gosto de imaginar que estou no planeta ao contrário. Se me abrissem por dentro encontrariam (em lugar do sangue) música a passear-me nas veias, 70% de poesia em vez de água e, no treino da meditação, areais a ocuparem-me os pensamentos. Portanto, se não puder sonhar mais nada, tenho em mim praias e desertos sem idade que de dia trazem Sol e de onde à noite pendem estrelas: vitalidade e energia suficientes para me manter o batimento. Assim, com a bateria permanentemente carregada, confesso que gosto do frenesim da incerteza. E cada vez mais de sair da estrada para a natureza. Sou do verbo explorar mas sempre daqui, do mundo orgânico, presente, o único que verdadeiramente expande: esse mesmo que aloja o amor. Sou do estado líquido com autoridade sobre a minha matéria: agarro as minhas paixões sem medos até assistir à sua evaporação; e não congelo a minha existência a fazer planos, nem escuto o que me promete o futuro. Apenas escolho correr riscos para não perder a minha Liberdade.

Nas entrevistas de trabalho apresento-me sempre como se me estivesse a apresentar a mim própria pela primeira vez. Encanta-me a espontaneidade e o gozo de não depender das mesmas palavras que já usei antes. E percebo que nunca me esgoto na arte de me redefinir. Cada um escolhe as cores da sua paleta. Mas são as palavras (e não as tintas) que graciosamente me permitem sublimar a existência. Um dia ao repetir um mantra inundei-me de alegria e nunca mais perdi o sentido dessa graça. E eu sou de gargalhadas honestas. Gosto de tudo o que é autêntico. Como também gosto da minha própria inconstância: saber que este texto amanhã pode ter palavras diferentes. Mas gosto sobretudo de me inspirar com os outros e de descobrir o je ne sais quoi que torna cada pessoa um ser único. Porém, sou solta e aprendi a deixar a brisa da vida levar-me por aqui.

Imagem: Moshi, Tanzânia 

%d bloggers like this: