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Sozinha em Tóquio por um dia – Parte II

Para aproveitar o resto do dia, decidi fazer-me ao caminho e ir até Setagaya a cerca de 1 hora de distância. Talvez a chuva parasse até lá, ou talvez nessa região a oeste estivesse um clima mais aprazível. Mas, independentemente do tempo, eu quis visitar o lugar por ser o templo Gotokuji, do gato da sorte: manekineko. Depois de sair da estação andei bastante a pé entre zonas habitacionais à procura do portão de entrada do parque. As casas sempre bem cuidadas. Tudo no devido lugar. O espaço certo para deixar o carro, uma montra com bicicletas. Uns passos mais à frente, e com a chuva a cair mais pesada, peço e recebo indicações da entrada e chegar ao parque. Construído em 1480, este templo esconde, após o portão vermelho, o lugar sagrado onde mais de 10.000 manekinekos brancos estão dispostos lado a lado, acima e abaixo, em vários andares de prateleiras. Patinha direita levantada para atrair dinheiro e esquerda para atrair clientes. O gatinho compra-se na loja do templo para dar a oportunidade ao dono de ter sorte e, se a sorte acontecer, deve ser devolvido ao templo passado um ano, por isso existem tantos. Reza a lenda que foi uma gata chamada Tama que existiu neste templo que deu origem a esta superstição. Tantos gatos com dever cumprido de regresso a casa. Uma japonesa que também estava sozinha ofereceu-se para me fotografar. A estátua de Kannon, a deusa budista da misericórdia, encontra-se entre os gatos brancos. Há um cemitério por trás. Os cemitérios no Japão são bonitos, não são lugares nada sinistros, são locais bons para passear e reflectir. Os jardins são esplendorosos. Uma árvore em tons de vermelho-rosa deslumbra-me. E a pagoda impera ali altiva, na verdade aquilo pertence-lhe, desde muito antes de eu nascer.

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Sozinha em Tóquio por um dia – Parte I

De volta a Tóquio antes de seguir viagem de regresso ao Koweit. Tempo para escolher o que quero mesmo visitar e para desfazer alguns mitos ao perceber a verdadeira interacção possível com os japoneses. No final do dia, tive várias certezas. Mas começando pelo princípio: a seguir ao duche, desci do décimo quarto andar para um simpático pequeno-almoço e dirigi-me à estação de Kyobashi, linha laranja com destino em Omotesando. Descobri a claridade da rua mesmo à entrada da Apple, numa das zonas mais movimentadas do distrito para me fundir na multidão a caminho do Yoyogi Park mas primeiro, uma paragem no Tokyo Plaza: a colmeia de espelhos. Ou, aquele lugar onde consegui imaginar-me no interior de um caleidoscópio. O parque Yoyogi é um espaço de famílias ao fim-de-semana, onde os piqueniques, os desportos e o ruído das crianças abundam. Assisti a uma sessão de aeróbica ao ar livre e a um senhor que pintava a paisagem. Segui a pé para o Santuário Meiji em Shibuya: outro lugar agradável para caminhar desde o shrine à entrada, parando para observar os barris gigantes de sake embrulhados em palhinha e outras surpresas que me aguardavam. Os japoneses são tão simpáticos que me abordaram durante momentos-selfie oferecendo-se para me fotografar. Às vezes aceitei, outras não. É, porém, curioso que nunca me tenha acontecido em nenhum outro país. Mas a generosidade nipónica neste dia vai mais longe, e conto na cerimónia à qual tive a honra de assistir. Devido à trovoada e ameaça de chuva decidi parar para almoçar num recinto próprio para isso no centro do parque, depois fui explorar o santuário. Entre todas as imagens que retive, fascinou-me uma árvore em particular.

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Casamento Tradicional Japonês

Tocou-me no ombro, parei de andar e voltei-me para trás. O senhor devia ter sessenta anos, era japonês e sorriu-me dizendo baixinho: – Traditional wedding ceremony, apontando para a minha minha direita. E abanou a cabeça como quem diz – Vai ver. Então voltei-me, olhei para a minha esquerda, e vi ao longe, entre as árvores, uma mulher com um traje vermelho comprido, um manto (Irouchikake) e fotógrafos. É um casamento, pensei, depois sorri para o senhor e agradeci-lhe enquanto nos despedíamos com as vénias que se entregam respeitosamente nesta cultura. Acabei por descobrir que eram na realidade 2 casamentos a acontecer mais ou menos em simultâneo. Mas o que teve importância para mim foi a forma como tudo aconteceu. De certa maneira, destaquei-me na multidão. Se não fosse aquela alma reparar nos meus traços europeus e avisar-me, acho que teria perdido isto. Nem tão pouco eu sabia que se cumpriam aquelas cerimónias ali. O senhor partilhou comigo a tradição da celebração de um casamento xintoísta. Este gesto marcou-me. Era a forma de ele dividir o amor da sua cultura com o mundo exterior representado por mim. E em todos os dias passados no Japão, senti este como um dos momentos mais importantes. O meu destino alterou-se naquele instante. Primeiro, pela surpresa de ter sido interpelada no meio de uma multidão, o que me fez alterar o lugar para onde me dirigia. Depois, porque percebi que os japoneses são um povo diferente com quem nos conectamos imediatamente, são orgulhosos no sentido patriótico, interessados em cuidar do que é deles e generosos. E, finalmente, porque aprendi pelo que vi e pelo que pesquisei de seguida sobre estes casamentos, com algumas diferenças como em todo o lado se celebrados mais elevados da sociedade. Curioso o nome do chapéu da noiva, wataboshi; diz-se que os cabelos devem ser levados escondidos pois residem neles espíritos, mas os cabelos vão envoltos primeiro numa rede debaixo da peruca que vemos. Não é por acaso que o Japão atrai o resto do mundo. É uma cultura fascinante com mistérios escondidos em tecidos sem rugas, imaculados e onde todos os detalhes contam a sua história.

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Gion, Quioto

Em Gion encontra-se, provavelmente, o Starbucks mais atípico do mundo. Então ergam-se os copos de papel para mostrar que é ali o lugar encantado onde o café tem o mesmo sabor mas que tomado do assento do chão. E as outras lojas do distrito de fachada em bambu, madeira, e telha castanha: desde guarda-chuvas, aos chás, às chaleiras, aos doces, às carpas de pendurar ao vento, aos postais, e até às caricaturas de ocasião. As personagens com que é possível cruzarmo-nos pelo simples caminhar pela rua. Mas o ex-libris do distrito é a Yasaka Pagoda, o spot a céu aberto que transforma todas as noites em estúdio de fotografia. E a atmosfera é tão agradável, que se fica ali horas sem dar conta do tempo a passar. A Pagoda há mais de 1400 anos erguida naquele lugar, incrível de todos os ângulos que se espreite, devido aos seus 5 andares ao longo de 46 metros de altura. Quioto é uma surpresa bonita para a hora em que nos despedimos. Ficou por ver o desejado Kiyomizudera Temple: razão para um dia voltar.

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Pavilhão Dourado, Kinkakuji

Para lá apanhamos um comboio e um autocarro. É curioso como os japoneses são fotogénicos em colectivo e em preto e branco. Duas horas mais tarde, chegávamos à fila dos bilhetes para o Golden Pavilion. Mas as filas no Japão têm uma característica dissemelhante. É que apesar do comprimento, não demoram a vazar. E este bilhete atípico merece qualquer tempo de espera: uma tira de papel branco com dois símbolos vermelhos e caracteres japoneses por cima. Então, entramos. Kinkakuji corresponde ao que estamos à espera. O templo fica isolado num lugar idílico, foi reconstruído em 1955, e apresenta uma arquitectura distinta nos seus 3 andares. Não é possível visitar o seu interior mas podemos vislumbrá-lo de fora de vários ângulos diferentes, percorrendo o jardim em volta. Bonito, majestoso e imaculado como tudo neste país. Parecia acabado de polir enquanto a folha de ouro luzia ao sol. Depois, percorremos o parque na direcção da saída. Ainda havia bastante que andar. Com outros templos pelo caminho, locais de oração, a asa de chá, e espaços ajardinados muitíssimo cuidados. Todos os locais icónicos são hipervisitados diariamente por Japoneses e por mais alguns turistas de outros países do mundo. A curiosidade é perceber como são tão diferentes mas não sei se descobre.

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Arashiyama, o sítio mais bonito do mundo, a seguir ao outro e ao outro…

Vontade de ficar ali. Contemplar o que o mundo mostra. Mas primeiro atravessar a pequena floresta de bambus: um trilho curioso mas que não corta a respiração a quem já viu e tocou nos grossos troncos dos bambus gigantes do Jardim de Balata. Embora que, aqui, acresça a nipocultura: os rickshaw que abundam, apesar de o caminho ser estreito e curto, levando os carros num corredor paralelo até desembocarem junto a um cemitério atípico que se vê entre a paisagem de canas. No início, os já habituais quiosques que vendem ora mariscos ora doces tradicionais ou mesmo os fotografáveis copinhos com gelados. A seguir são lojas de chinelos, chapéus, leques e outros acessórios. E depois os templos, as pessoas e a sua interação religiosa com as mensagens da fortuna penduradas nos portões dos desejos. Em Arashiyama parece andar toda a gente na rua, trago uma menina vestidas de quimono que aceita ficar numa foto comigo e, finalmente, cruzo-me com gueixas. Inconfundíveis pela sua maquilhagem branca além do quimono e do olhar caído no chão, normalmente, levando ao colo um cesto que é mais um dos seus mistérios. Mas é no rio Katsura que tudo acontece. O movimento dos barquinhos ao sabor das águas pouco agitadas, e, por isso, em perfeita sintonia com o país. Acho que é também a cor que me fascina: a harmonia do verde-água, com o azul quarto tons abaixo de Yves Klein e o amarelo dos cascos, a condizer tão bem com a escarpa do monte dos macacos.

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Fushimi Irani Shrine, a passagem para o Sagrado

Atravessar do mundano para o sagrado neste templo xintoísta, símbolo de um Japão renascido onde todos se sentem bem-vindos, é uma experiência que estes mesmos todos dizem querer repetir. As raposas recebem-nos de coleira e adereços, colorida e simbolicamente, antecipando as lojinhas com múltiplos souvenirs e os restaurantes na base. Depois, as escadarias, rampas e degraus que se sucedem, com muitos japoneses nas suas práticas religiosas e quatro quilómetros de torii em várias horas com as paragens que quisermos para retomar a corrente e muita água, mas sempre em subida até às colinas. Os torii são os portões. E cada um dos portões é único no conjunto das suas inscrições, tamanho e largura. E são milhares de estruturas, compostas por 2 pilares e uma trave a ligá-los, pintados de uma cor vermelho-vivo-alaranjado que representam a aproximação entre o mundo dos homens e dos espíritos da natureza (Kami). Simbolizando, portanto, uma espécie de ascensão às divindades protectoras ancestrais. E atravessámo-los como num labirinto que nos há-de levar a um lugar ambicionado e novo. Às vezes, não vem ninguém e apressamo-nos a tentar a foto perfeita: apenas nós e os portões. Mas, entre tantos turistas e curiosos, é difícil haver essa oportunidade. No cimo do Monte Inari, a 233 metros de altura, estão dezenas de milhares de túmulos. O caminho é longo com incontáveis pessoas em procissão mas não custa fazer. Alguns já vêm a descer em direcção contrária. São na verdade, muitas as pessoas em ambos os lados. Empurramo-nos em espírito, aliados à vontade dos outros e ninguém se atropela. Coisas que se fazem em comunhão com a natureza, com o Sol que raiava nesse fantástico 3 de Maio de 2019, e talvez com algo ainda maior. Porque há coisas que nos guiam sem grande explicação no nosso dia-a-dia até nos questionarmos sobre tudo o que sentimos porém que não vemos. Depois apetece comunicar com aquilo, normalmente olhamos para o céu, a pensar nas perguntas que haveria para responder, acreditando que se pode saber tudo. Às vezes, a comunicação divina parece tão evidente como a Oliwia Mortel a falar com Deus enquanto canta Miserere. E eu a lembrar-me disto com a alegria comigo a subir os degraus num continente diferente do meu e num país tão longe mas onde me senti imediatamente em casa. E era assim que acontecia debaixo dos portões escarlate, passava-se do plano terreno para o lugar onde os outros também iam. A seguir descíamos ao sabor dos portões alinhadíssimos, num caminho onde ninguém se enganava, mesmo a tempo de abandonar o calçado e sentar à mesma altura a que os pés descansam no chão para almoçar.

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TeamLab Planets, Tóquio

Quando acabou a experiência pensei que tinha sido uma espécie de curta participação no Matrix. Porque foi, sem dúvida, uma vivência artificial para os sentidos. E, de cada vez que recordo esta parte da viagem ao Japão, penso que no TeamLab Planets existe um pedaço de futuro materializado que nos é apresentado como já parte do presente. Porém, é um amanhã um pouco antecipado em resposta ao conhecimento enquadrado que se recebe durante anos a fio, provindo dos filmes de ficção científica. De qualquer forma é uma vivência por dentro, não de mero espectador para a qual não nos preparamos mas que, simplesmente, se acompanha enquanto já está a acontecer. Apanhamos vários transportes públicos para chegarmos a tempo, porque a marcação tem de ser prévia e os bilhetes são apresentados à entrada via QR Code no ecrã do telemóvel para nos permitirem o acesso nos torniquetes do lobby. Antes de iniciar o programa, as instruções são claras: será necessário deixar o calçado nos cacifos disponíveis na primeira ante-câmara mas temos de nos descalçar ali na entrada. A organização japonesa impõe que nos posicionemos a igual distância dos outros visitantes (há o desenho de pés equidistantes gravados no chão para indicar o lugar de cada um) enquanto assistimos ao vídeo de apresentação. A seguir, há que arregaçar as calças até aos joelhos. Levámos uma pulseira com a chave no pulso e um dispositivo para fotografar. Seguimos para a experiência. A primeira sala são alcofas gigantes como obstáculos para ultrapassar. Acho que fui a única pessoa que conseguiu manter-se de pé, mas após a queda parece impossível voltar à posição de pé para caminhar. As pessoas riam ultrapassando as enormes almofadas onde os corpos se enterravam, tentando gatinhar em frente, na direcção da porta. Depois, seguiu-se um corredor onde a água morna pelo meio da perna nos emerge e convida a continuar. Parece um jogo de surpresas a antever-se após cada porta. E passamos para o nível seguinte, sem saber o que encontrar. A luz não é intensa, é, pelo contrário, serena. De repente, estamos num plano de espelhos que nos multiplicam nos diferentes planos que nos precedem e antecedem vários níveis abaixo da viga de espelho que parece transparente onde me assentam os pés. Olhando abaixo e o que se vê é a ficção multiplicada em escala de quem temos em redor. Do tecto, caem fios de luz que decoram o ambiente onde não devemos tocar. E, como um todo, o espaço apresenta-se com milhares de correntes de pontos iluminados dispostos lado a lado concentrados também a uma mesma distância mas criando corredores estreitos vazios em jeito de labirinto que nos permite atravessá-lo até se alcançar uma sala ampla que se sugere gigante. Os objectos nesta sala são também mosaicos feitos de espelho, paredes erguidas com liambas de luzes que alteram a cor e o ritmo com que a cor se apresenta, e há ainda as outras pessoas em movimento. Existe também a omnipresença da música instrumental relaxante e que ajuda a esvaziar a mente e que também transforma o ambiente. Por vezes, as luzes das cordas-pêndulo desaparecem e a cor geral muda para azul, verde ou violeta engolindo-nos. Então, misturamo-nos nela, no meio das outras pessoas, que utilizam o mesmo espaço mais ou menos da mesma maneira. Na entrega do momento, procurando as fotografias mais originais. Na realidade, é o apelo da hashtag a comandar também o que fazemos. Cada vez mais me apercebo disto. Colectivamente, nos tempos de hoje, encenamos muito as nossas posturas e a expressão numa tentativa de combinarmos bem com o cenário, até a foto parecer especial. Jogando connosco, a pose e a fluidez do corpo, e o resultado reflectido nos espelhos. Perdemo-nos a avaliar a verdadeira dimensão do espaço, porque a ilusão do vidro não nos ajuda a discernir a real capacidade física do armazém onde o laboratório se insere e que só vemos com clareza do lado de fora. Por dentro, mais salas se sucederam: a piscina arco-íris enevoada com carpas feitas de luz e de cor numa velocidade e condição de stage projecting mapping sobre água, com pequenos recantos para assistir a curtas metragens de telas sem estória, ou de estórias de telas que podíamos fabricar enquanto espectadores assistindo dos pequenos bancos; depois, a sala dos balões redondos gigantes onde nos escondíamos a cada cair das bolas, sem qualquer percepção da localização das portas de saída para reaparecermos pela acção das ventoinhas elevando as bolas sucessivamente; e, no final, o enorme open space de flores voadoras, folhas e pássaros que saíam do chão, atravessavam as paredes e sumiam no tecto, camuflando-nos, deitados no chão como se o céu fosse diferente feito de estrelas diferentes num universo nunca visto, fazendo-nos prolongar o momento, demorando-nos na experiência, registada na forma de video ou na energia instantânea das fotos.

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Os Macacos de Arashiyama

De certeza que já aqui disse que os macacos são dos meus animais preferidos. A minha perspectiva é que são meio-animais, meio-humanos. Se tivesse de escolher um animal completo, então seria a vaca. Mas os macacos que pertencem às espécies mais pacíficas, conseguem ser ternurentos e sociáveis. Se calhar não serão tão mansos assim, mas estava a ouvir aquela canção All Flowers In Time Bend Towards The Sun e Elizabeth Fraser a dizer “my eyes are a baptism” porque é preciso olhar com admiração e concordar que a Natureza é que soube sempre tudo antes de nascermos. E somente tentamos dar uma noção mais humana ao planeta. Fazer com que tudo esteja à nossa medida. O reino vegetal parece aceitar isto bem, as árvores crescem sozinhas, a relva em direcção ao céu independentemente das vezes que a rasamos em comprimento. Os animais têm outra dispersão de movimento. Alguns nos seus terrenos à parte, outros  que vivem enquanto nossa propriedade. Mas existem lugares intermédios onde os deixamos viver num limbo entre cativeiro e liberdade. Gostava de me decidir pela segunda mas não sei exactamente se o excesso de visitas os tornará domésticos, como no Monkey Park. Mas parecem não se importar connosco. Primeiro, a escalada entre a montanha durante cerca de 20 minutos. O Allan Su explica bem em video o trilho a percorrer num dia de verão. Eu consegui algumas fotografias com pretensão de ilustrar o parque e a paisagem. Não há autorização para tocarmos nos animais mas há outras formas de interagir sem jaulas pelo meio, porque eles estão num estado mais ou menos à sua medida. Os macacos pequeninos são as estrelas do parque e o alvo das objectivas. As feições são tão perfeitas, os olhos espertos, os pequenos dedos-garra agarrados aos galhos num equilíbrio natural. O lugar é belíssimo, apresenta uma vista panorâmica inspiradora e as cores são fortes mas harmónicas pelo menos antes do Sol descer.

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Asakusa, estórias com história

Saí da estação de comboios para encontrar Tóquio antigo. O buliço do movimento humano deslocado da contemporaneidade da megatrópole. Não esteve frio mas foi um dia de chuva miudinha em Asakusa, com as horas a passarem rápido. As pessoas vinham em bloco, e não se pode caminhar depressa nestas circunstâncias. Mas já sabia que Asakusa é uma espécie de lugar de regresso ao passado. Há tradutores que se disponibilizam gratuitamente a guiar-nos pela cidade. Talvez seja um programa de estágio para acumularem horas enquanto guias. É melhor dizer que não com alguma firmeza e seguir caminho, do que mostrar incerteza, pois a dúvida deixa-os por perto com olhar persistente. A paisagem aérea do Asakusa Culture Tourist Information Center permitiu antever a concentração colorida da gente em passeio na Nakamise-dori: os cerca de 250 metros pedonais entre o Templo Sensoji Kaminari-mon e Hozo-mon. Quase 100 lojas com um pouco de tudo o que o Japão tem à disposição: Quimonos e todos os acessórios, gatos dourados, pretos e brancos, a abanar a patinha esquerda, lanternas, chás, cerâmicas, leques, postais, chapéus de palha em bico, doces tradicionais japoneses, e centenas de diferentes outros motivos para levar recordações. Havia meninas e casais de quimono vestido um pouco por todo o lado. E, de maneira geral, as pessoas demorando-se no ofício de se fotografarem. Abordar as japonesas para acompanhar uma fotografia foi outra experiência com resultado feliz. Apesar de tímidas, aceitam e posam, sorrindo. Nas ruas paralelas, na zona dos jardins e dos templos, a oferta das bancas com sumos e petiscos permite que se desfrute de uma espécie de almoço volante: provei uma espetada de polvo bébé, uma das melhores experiências gastronómicas da minha vida da qual não me orgulho. Os templos são muito visitados independentemente da hora do dia, mantêm as portas abertas mas pedem para o calçado ficar à porta e para não se fotografar as alas interiores budistas e xintoístas. O exterior só por si surge transbordante de sinais por onde é possível derivar a atenção. Há também demonstrações de artigos para vender e animais a aguardar donativos em troca de fotografias, como simpáticas corujas que aparentam estar em estado mais domesticado do que selvagem. Outros elementos de carácter mais espiritual de paragem obrigatória são os refúgios com água corrente para higienizar as mãos de forma tradicional e os quiosques onde o incenso é queimado para nos purificarmos. Com o avançar das horas, algumas das lojas encerram as portas e baixam as persianas para revelar novas montras com os magníficos desenhos a retratar a história de Sensoji e as quatros estações. Um espetáculo nocturno diário permanente chamado Persiana Hekiga Asakusa Emaki que quer dizer “Persiana-mural de Asakusa em sucessão de imagens”. Imagens com estórias ilustradas, mas são histórias que se contam melhor com todos os elementos. A lanterna de 4 metros de altura, suspensa na porta de Kaminarimon, a personificar o horizonte de milhares de fotografias que se levam dali. Ao lado, o chinelo Zori gigante em palha de arroz que inspirou as Havaianas. Os paliteiros gigantes que se abanam para sair um pauzinho, mas só depois e inserir a moeda na ranhura da base, depois identificar o símbolo do pau sorteado na gaveta gémea, e retirar a fortuna. Se a sorte não for boa, pode amarrar-se o papel no local para desfazer o destino. A seguir, a caminhada continua. Há que atravessar o rio Sumida, pela ponte vermelha de Azuma seguindo a chama dourada The Asahi Flame a caminho da torre SkyTree para ficar muito mais perto do céu.

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Dears Deers, de Miyajima e Nara

Os veados vivem livres em Nara e em Miyajima e eu gosto disso, porque a liberdade é uma palavra que representa este conceito mais elevado, com um significado extremamente importante para mim. E, vivendo atualmente num país, onde este direito não existe como o conheço, ainda me faz mais sentido escolher as minhas férias em lugares onde me posso sentir mais ciente das minhas convicções. E se liberdade é esse direito de fazer como me pareça melhor, desde que não colida contra o direito de um outro, é também essa a razão, da fotografia destacada neste post mostrar o cenário tal como estava, quando me aproximei do veado que descansava, por acaso e sem ele saber, num lugar idílico. Podia ter pedido à senhora que se desviasse e teria uma fotografia mais composta. Podia ter pedido à senhora que se virasse de frente e teria ficado na fotografia provavelmente eternizando um sorriso comigo. Podia ter esperado que abandonasse o local antes do veado, e seria a oportunidade de ter outra pose em vez desta com o Torii mais presente atrás no horizonte. Mas eu gosto desta imagem por não ter arranjos de estúdio. É o retrato do cenário tal como estava sem enfeites de artifício. Uns metros à frente, um fotógrafo profissional, ocupa-se em registar os elementos perfeitos e a fila de aderentes é grande. Para isso, existe um veado de serviço. Não gosto de ver os animais a trabalhar mas cada vez me apercebo mais disso, em todo o mundo que visito. Estes bambis já estão habituados aos humanos e às nossas manias de Instagram. Mas, se virmos com o coração, há lugares como este que tresandam a magia e não precisam de quaisquer adaptações em nossa conveniência. Não é suficiente a razão para que desviemos os animais da sua tranquilidade. Não é preciso arranjar a foto perfeita mas é necessário não perder o respeito devido à natureza. Em Nara, existem quiosques “Deer cracker” a vender bolachas para oferecer aos veados, porém, eles não parecem interessados, nem famintos. Nós é que nos posicionamos sedentos das melhores imagens para mostrar aos outros e publicar online. É a realidade dos tempos que vivemos, e se calhar vale a pena refletir no rumo que as coisas estão a levar. Talvez o mundo exterior seja um espaço colectivo onde nos podemos incluir sem alterar nada e cujas fotos possam, da mesma maneira, ser a tradução instantânea de grandes recordações.

 

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