Arquivo de etiquetas: Tóquio

Sozinha em Tóquio por um dia – Parte II

Para aproveitar o resto do dia, decidi fazer-me ao caminho e ir até Setagaya a cerca de 1 hora de distância. Talvez a chuva parasse até lá, ou talvez nessa região a oeste estivesse um clima mais aprazível. Mas, independentemente do tempo, eu quis visitar o lugar por ser o templo Gotokuji, do gato da sorte: manekineko. Depois de sair da estação andei bastante a pé entre zonas habitacionais à procura do portão de entrada do parque. As casas sempre bem cuidadas. Tudo no devido lugar. O espaço certo para deixar o carro, uma montra com bicicletas. Uns passos mais à frente, e com a chuva a cair mais pesada, peço e recebo indicações da entrada e chegar ao parque. Construído em 1480, este templo esconde, após o portão vermelho, o lugar sagrado onde mais de 10.000 manekinekos brancos estão dispostos lado a lado, acima e abaixo, em vários andares de prateleiras. Patinha direita levantada para atrair dinheiro e esquerda para atrair clientes. O gatinho compra-se na loja do templo para dar a oportunidade ao dono de ter sorte e, se a sorte acontecer, deve ser devolvido ao templo passado um ano, por isso existem tantos. Reza a lenda que foi uma gata chamada Tama que existiu neste templo que deu origem a esta superstição. Tantos gatos com dever cumprido de regresso a casa. Uma japonesa que também estava sozinha ofereceu-se para me fotografar. A estátua de Kannon, a deusa budista da misericórdia, encontra-se entre os gatos brancos. Há um cemitério por trás. Os cemitérios no Japão são bonitos, não são lugares nada sinistros, são locais bons para passear e reflectir. Os jardins são esplendorosos. Uma árvore em tons de vermelho-rosa deslumbra-me. E a pagoda impera ali altiva, na verdade aquilo pertence-lhe, desde muito antes de eu nascer.

IMG_3616

20190504_160501_copy

IMG_3629IMG_3701_copy20190504_161119_copy20190504_161127_copy20190504_161706_copy20190504_161550_copy20190504_161838_copy20190504_161933_copy20190504_162027_copyIMG_3622_copyIMG_3677_copy20190504_163059_copyIMG_3621_copyIMG_3674_copyIMG_3652_copyIMG_3653_copyIMG_3662_copyIMG_3667_copyIMG_3668_copyIMG_3702IMG_3707_copyIMG_3710_copyIMG_3712IMG_3645_copyIMG_3721_copyIMG_3722_copy

 

Sozinha em Tóquio por um dia – Parte I

De volta a Tóquio antes de seguir viagem de regresso ao Koweit. Tempo para escolher o que quero mesmo visitar e para desfazer alguns mitos ao perceber a verdadeira interacção possível com os japoneses. No final do dia, tive várias certezas. Mas começando pelo princípio: a seguir ao duche, desci do décimo quarto andar para um simpático pequeno-almoço e dirigi-me à estação de Kyobashi, linha laranja com destino em Omotesando. Descobri a claridade da rua mesmo à entrada da Apple, numa das zonas mais movimentadas do distrito para me fundir na multidão a caminho do Yoyogi Park mas primeiro, uma paragem no Tokyo Plaza: a colmeia de espelhos. Ou, aquele lugar onde consegui imaginar-me no interior de um caleidoscópio. O parque Yoyogi é um espaço de famílias ao fim-de-semana, onde os piqueniques, os desportos e o ruído das crianças abundam. Assisti a uma sessão de aeróbica ao ar livre e a um senhor que pintava a paisagem. Segui a pé para o Santuário Meiji em Shibuya: outro lugar agradável para caminhar desde o shrine à entrada, parando para observar os barris gigantes de sake embrulhados em palhinha e outras surpresas que me aguardavam. Os japoneses são tão simpáticos que me abordaram durante momentos-selfie oferecendo-se para me fotografar. Às vezes aceitei, outras não. É, porém, curioso que nunca me tenha acontecido em nenhum outro país. Mas a generosidade nipónica neste dia vai mais longe, e conto na cerimónia à qual tive a honra de assistir. Devido à trovoada e ameaça de chuva decidi parar para almoçar num recinto próprio para isso no centro do parque, depois fui explorar o santuário. Entre todas as imagens que retive, fascinou-me uma árvore em particular.

IMG_3270_copyIMG_328520190504_12021820190504_121312IMG_3292IMG_3296IMG_3297IMG_3306_copy20190504_12565320190504_125702_sqrIMG_3308_copyIMG_3314_copyIMG_3320_copyIMG_3332_copyIMG_3334_copyIMG_3342_copyIMG_3344_copyIMG_3336IMG_3364IMG_3433IMG_3438IMG_3489IMG_3492IMG_3493IMG_3530IMG_3535IMG_3550IMG_3560IMG_3578IMG_3582IMG_3585IMG_3587_copyIMG_361520190504_132942

Casamento Tradicional Japonês

Tocou-me no ombro, parei de andar e voltei-me para trás. O senhor devia ter sessenta anos, era japonês e sorriu-me dizendo baixinho: – Traditional wedding ceremony, apontando para a minha minha direita. E abanou a cabeça como quem diz – Vai ver. Então voltei-me, olhei para a minha esquerda, e vi ao longe, entre as árvores, uma mulher com um traje vermelho comprido, um manto (Irouchikake) e fotógrafos. É um casamento, pensei, depois sorri para o senhor e agradeci-lhe enquanto nos despedíamos com as vénias que se entregam respeitosamente nesta cultura. Acabei por descobrir que eram na realidade 2 casamentos a acontecer mais ou menos em simultâneo. Mas o que teve importância para mim foi a forma como tudo aconteceu. De certa maneira, destaquei-me na multidão. Se não fosse aquela alma reparar nos meus traços europeus e avisar-me, acho que teria perdido isto. Nem tão pouco eu sabia que se cumpriam aquelas cerimónias ali. O senhor partilhou comigo a tradição da celebração de um casamento xintoísta. Este gesto marcou-me. Era a forma de ele dividir o amor da sua cultura com o mundo exterior representado por mim. E em todos os dias passados no Japão, senti este como um dos momentos mais importantes. O meu destino alterou-se naquele instante. Primeiro, pela surpresa de ter sido interpelada no meio de uma multidão, o que me fez alterar o lugar para onde me dirigia. Depois, porque percebi que os japoneses são um povo diferente com quem nos conectamos imediatamente, são orgulhosos no sentido patriótico, interessados em cuidar do que é deles e generosos. E, finalmente, porque aprendi pelo que vi e pelo que pesquisei de seguida sobre estes casamentos, com algumas diferenças como em todo o lado se celebrados mais elevados da sociedade. Curioso o nome do chapéu da noiva, wataboshi; diz-se que os cabelos devem ser levados escondidos pois residem neles espíritos, mas os cabelos vão envoltos primeiro numa rede debaixo da peruca que vemos. Não é por acaso que o Japão atrai o resto do mundo. É uma cultura fascinante com mistérios escondidos em tecidos sem rugas, imaculados e onde todos os detalhes contam a sua história.

20190504_135853IMG_3444IMG_3469IMG_3477IMG_3442IMG_3454IMG_346520190504_140632IMG_3495IMG_3497IMG_3502IMG_3506IMG_3511IMG_3514

IMG_3517IMG_3518IMG_3519

TeamLab Planets, Tóquio

Quando acabou a experiência pensei que tinha sido uma espécie de curta participação no Matrix. Porque foi, sem dúvida, uma vivência artificial para os sentidos. E, de cada vez que recordo esta parte da viagem ao Japão, penso que no TeamLab Planets existe um pedaço de futuro materializado que nos é apresentado como já parte do presente. Porém, é um amanhã um pouco antecipado em resposta ao conhecimento enquadrado que se recebe durante anos a fio, provindo dos filmes de ficção científica. De qualquer forma é uma vivência por dentro, não de mero espectador para a qual não nos preparamos mas que, simplesmente, se acompanha enquanto já está a acontecer. Apanhamos vários transportes públicos para chegarmos a tempo, porque a marcação tem de ser prévia e os bilhetes são apresentados à entrada via QR Code no ecrã do telemóvel para nos permitirem o acesso nos torniquetes do lobby. Antes de iniciar o programa, as instruções são claras: será necessário deixar o calçado nos cacifos disponíveis na primeira ante-câmara mas temos de nos descalçar ali na entrada. A organização japonesa impõe que nos posicionemos a igual distância dos outros visitantes (há o desenho de pés equidistantes gravados no chão para indicar o lugar de cada um) enquanto assistimos ao vídeo de apresentação. A seguir, há que arregaçar as calças até aos joelhos. Levámos uma pulseira com a chave no pulso e um dispositivo para fotografar. Seguimos para a experiência. A primeira sala são alcofas gigantes como obstáculos para ultrapassar. Acho que fui a única pessoa que conseguiu manter-se de pé, mas após a queda parece impossível voltar à posição de pé para caminhar. As pessoas riam ultrapassando as enormes almofadas onde os corpos se enterravam, tentando gatinhar em frente, na direcção da porta. Depois, seguiu-se um corredor onde a água morna pelo meio da perna nos emerge e convida a continuar. Parece um jogo de surpresas a antever-se após cada porta. E passamos para o nível seguinte, sem saber o que encontrar. A luz não é intensa, é, pelo contrário, serena. De repente, estamos num plano de espelhos que nos multiplicam nos diferentes planos que nos precedem e antecedem vários níveis abaixo da viga de espelho que parece transparente onde me assentam os pés. Olhando abaixo e o que se vê é a ficção multiplicada em escala de quem temos em redor. Do tecto, caem fios de luz que decoram o ambiente onde não devemos tocar. E, como um todo, o espaço apresenta-se com milhares de correntes de pontos iluminados dispostos lado a lado concentrados também a uma mesma distância mas criando corredores estreitos vazios em jeito de labirinto que nos permite atravessá-lo até se alcançar uma sala ampla que se sugere gigante. Os objectos nesta sala são também mosaicos feitos de espelho, paredes erguidas com liambas de luzes que alteram a cor e o ritmo com que a cor se apresenta, e há ainda as outras pessoas em movimento. Existe também a omnipresença da música instrumental relaxante e que ajuda a esvaziar a mente e que também transforma o ambiente. Por vezes, as luzes das cordas-pêndulo desaparecem e a cor geral muda para azul, verde ou violeta engolindo-nos. Então, misturamo-nos nela, no meio das outras pessoas, que utilizam o mesmo espaço mais ou menos da mesma maneira. Na entrega do momento, procurando as fotografias mais originais. Na realidade, é o apelo da hashtag a comandar também o que fazemos. Cada vez mais me apercebo disto. Colectivamente, nos tempos de hoje, encenamos muito as nossas posturas e a expressão numa tentativa de combinarmos bem com o cenário, até a foto parecer especial. Jogando connosco, a pose e a fluidez do corpo, e o resultado reflectido nos espelhos. Perdemo-nos a avaliar a verdadeira dimensão do espaço, porque a ilusão do vidro não nos ajuda a discernir a real capacidade física do armazém onde o laboratório se insere e que só vemos com clareza do lado de fora. Por dentro, mais salas se sucederam: a piscina arco-íris enevoada com carpas feitas de luz e de cor numa velocidade e condição de stage projecting mapping sobre água, com pequenos recantos para assistir a curtas metragens de telas sem estória, ou de estórias de telas que podíamos fabricar enquanto espectadores assistindo dos pequenos bancos; depois, a sala dos balões redondos gigantes onde nos escondíamos a cada cair das bolas, sem qualquer percepção da localização das portas de saída para reaparecermos pela acção das ventoinhas elevando as bolas sucessivamente; e, no final, o enorme open space de flores voadoras, folhas e pássaros que saíam do chão, atravessavam as paredes e sumiam no tecto, camuflando-nos, deitados no chão como se o céu fosse diferente feito de estrelas diferentes num universo nunca visto, fazendo-nos prolongar o momento, demorando-nos na experiência, registada na forma de video ou na energia instantânea das fotos.

20190426_192545_1b_20190426_193300B_20190426_191914b_20190426_192424b_20190426_195400b_20190426_202327c1_20190426_201922c_IMG_1211

IMG_1202

IMG_1180IMG_1226IMG_1250

teamLab * Planets

 

 

Asakusa, estórias com história

Saí da estação de comboios para encontrar Tóquio antigo. O buliço do movimento humano deslocado da contemporaneidade da megatrópole. Não esteve frio mas foi um dia de chuva miudinha em Asakusa, com as horas a passarem rápido. As pessoas vinham em bloco, e não se pode caminhar depressa nestas circunstâncias. Mas já sabia que Asakusa é uma espécie de lugar de regresso ao passado. Há tradutores que se disponibilizam gratuitamente a guiar-nos pela cidade. Talvez seja um programa de estágio para acumularem horas enquanto guias. É melhor dizer que não com alguma firmeza e seguir caminho, do que mostrar incerteza, pois a dúvida deixa-os por perto com olhar persistente. A paisagem aérea do Asakusa Culture Tourist Information Center permitiu antever a concentração colorida da gente em passeio na Nakamise-dori: os cerca de 250 metros pedonais entre o Templo Sensoji Kaminari-mon e Hozo-mon. Quase 100 lojas com um pouco de tudo o que o Japão tem à disposição: Quimonos e todos os acessórios, gatos dourados, pretos e brancos, a abanar a patinha esquerda, lanternas, chás, cerâmicas, leques, postais, chapéus de palha em bico, doces tradicionais japoneses, e centenas de diferentes outros motivos para levar recordações. Havia meninas e casais de quimono vestido um pouco por todo o lado. E, de maneira geral, as pessoas demorando-se no ofício de se fotografarem. Abordar as japonesas para acompanhar uma fotografia foi outra experiência com resultado feliz. Apesar de tímidas, aceitam e posam, sorrindo. Nas ruas paralelas, na zona dos jardins e dos templos, a oferta das bancas com sumos e petiscos permite que se desfrute de uma espécie de almoço volante: provei uma espetada de polvo bébé, uma das melhores experiências gastronómicas da minha vida da qual não me orgulho. Os templos são muito visitados independentemente da hora do dia, mantêm as portas abertas mas pedem para o calçado ficar à porta e para não se fotografar as alas interiores budistas e xintoístas. O exterior só por si surge transbordante de sinais por onde é possível derivar a atenção. Há também demonstrações de artigos para vender e animais a aguardar donativos em troca de fotografias, como simpáticas corujas que aparentam estar em estado mais domesticado do que selvagem. Outros elementos de carácter mais espiritual de paragem obrigatória são os refúgios com água corrente para higienizar as mãos de forma tradicional e os quiosques onde o incenso é queimado para nos purificarmos. Com o avançar das horas, algumas das lojas encerram as portas e baixam as persianas para revelar novas montras com os magníficos desenhos a retratar a história de Sensoji e as quatros estações. Um espetáculo nocturno diário permanente chamado Persiana Hekiga Asakusa Emaki que quer dizer “Persiana-mural de Asakusa em sucessão de imagens”. Imagens com estórias ilustradas, mas são histórias que se contam melhor com todos os elementos. A lanterna de 4 metros de altura, suspensa na porta de Kaminarimon, a personificar o horizonte de milhares de fotografias que se levam dali. Ao lado, o chinelo Zori gigante em palha de arroz que inspirou as Havaianas. Os paliteiros gigantes que se abanam para sair um pauzinho, mas só depois e inserir a moeda na ranhura da base, depois identificar o símbolo do pau sorteado na gaveta gémea, e retirar a fortuna. Se a sorte não for boa, pode amarrar-se o papel no local para desfazer o destino. A seguir, a caminhada continua. Há que atravessar o rio Sumida, pela ponte vermelha de Azuma seguindo a chama dourada The Asahi Flame a caminho da torre SkyTree para ficar muito mais perto do céu.

20190427_122946

20190427_122938

20190427_123714IMG_1446IMG_143120190427_13573920190427_135553IMG_145820190427_13523720190427_15074620190427_15093120190427_15105720190427_151108IMG_1422IMG_1471IMG_1340IMG_1341IMG_1343IMG_1344IMG_135720190427_15352120190427_153921IMG_1326_1IMG_1332IMG_1340IMG_1358IMG_137120190427_15214420190427_152641IMG_1375IMG_1383IMG_1388IMG_1440IMG_1419IMG_1589IMG_1594IMG_1505.JPGIMG_1507IMG_1500IMG_1490IMG_148920190427_14415620190427_144921IMG_1597IMG_1602IMG_1608IMG_1609IMG_1610IMG_1580IMG_1584IMG_1581IMG_1578IMG_1596IMG_1614IMG_161520190427_172005IMG_159020190427_172434_cropIMG_1543IMG_1545IMG_1546IMG_1561IMG_1635IMG_1639IMG_1640IMG_1645IMG_1646IMG_1656

Shibuya Crossing

Atravessar Shibuya quando os 8 semáforos fecham, corresponde mais ou menos ao que dizem: umas das experiências obrigatórias para ter em Tóquio, mas porquê? Resume-se tudo ao movimento simultâneo de milhares de pessoas e à energia que daí emana. Do aglomerado de gente que, durante 90 segundos, se liberta das margens das ruas para atravessar, misturando-se, desaparecendo na multidão. E é por serem tantos seres agitando-se num todo, essa própria cinesia humana, a força com uma dinâmica ímpar, que faz com que observemos o acto de maneira diferente. As pessoas baralhando-se nos seus destinos, fotografando-se entre a energia dos outros, numa massa sem grande nexo mas sempre organizada em bloco no minuto e meio que passa. Em volta da localização, a estátua eternizada do fiel Hachikō, junto à saída 8 do metro e em frente ao autocarro verde que é um útil balcão de informação em jeito Hello Kitty. Para distrair o olhar mais acima, as cores saturadas dos neóns e os painéis publicitários dinâmicos nos arranha-céus. Para ver de outra perspectiva o cruzamento, pode tentar-se o Starbucks se não houver muita fila, ou subir ao Magnet do Shibuya 109, que abriu este ano (2019), onde se pode alugar a vista para desfrutar o cenário de um nível mais elevado.

20190501_111847IMG_1045IMG_1047IMG_1052IMG_1053IMG_1054IMG_1055IMG_1057IMG_1058IMG_1059IMG_1060IMG_1061IMG_1841IMG_1827IMG_184620190429_114245IMG_181220190429_10503720190429_10522620190429_10564820190429_10565220190429_11523820190429_11524020190429_11524220190429_115244

Alegria Nipónica de Viver

Porque eu gosto de pessoas, trouxe do Japão uma ideia de personificação da virtude. Para explicar melhor, senti nesta sociedade uma predisposição particular para praticar o bem, ou seja, uma qualidade moral de disponibilidade em enviar, colectivamente, boa energia aos outros. Não encontrei preconceito no Japão. É válido ser-se como se quiser sem julgamentos. E o país parece pertencer aos japoneses. Apesar de haver turismo, por razões demográficas, são os japoneses que transitam nas ruas em muito maior número do que qualquer outra nacionalidade. Como deveria ser nos outros países, se esta grande máquina redonda fosse auto-suficiente em todos os seus territórios. O espaço público é muito organizado. Peões e condutores respeitam, sem ansiedade, o respetivo sinal fechado dos semáforos. Os comboios são rápidos e limpos, os automóveis obedecem aos limites de velocidade e às regras de trânsito, os Riquexó são levados por homens em passo apressado, entre as bicicletas e os transeuntes nas ruas animadas onde desembocamos a seguir ao silêncio das carruagens do metro. A tranquilidade e a gentileza japonesa não é mito, mas é sem dúvida uma qualquer forma de inspiração geográfica que deveria ser usada como modelo nos outros continentes. É comovente sentir a simpatia na altura das fotografias quando os japoneses percebem que os queremos gravar para levar connosco; é curioso entender a leve indiferença permissiva dos mais irreverentes na rua, de cabelos rosa ou lilás, que quando observados de perto somente seguem caminho importados com as suas vidas; e é surpreendente a aceitação de que os filmemos entretidos na sua cultura. Depois, podemos reparar na forma irrepreensivelmente asseada como se vestem e como, em geral, atuam. Em relação ao estilo, as meias soquetes das meninas, por isso as mais femininas do mundo, que mais tarde encontramos nos bares e nos restaurantes a beber canecas de cerveja em igualdade com os homens. No Japão, há também o esforço genuinamente dado em correspondência às nossas dúvidas de orientação, mesmo que não haja nenhum idioma comum. Nos postos de informação das estações, ajudam-nos com desenhos e sketches feitos no momento. E há outros exemplos relacionados com a conduta profissional irrepreensível: a paciência no atendimento nas lojas, mesmo que por vezes haja sorrisos em troca de palavras que não sabem dizer em inglês; o cumprimento educado do fiscal no comboio, que ao chegar à porta da carruagem, se volta para trás, onde estamos, dobrando a coluna na característica vénia asiática, seguindo depois em frente. E há uma infantilidade contagiante em tudo. Desde as montras das lojas, aos bonecos pendurados nas mochilas das meninas, dos rapazes e nas malas das senhoras de mais idade. Parecem todos pertencer a um lugar animado, onde se envelhece sem deixar de ser criança. A mistura de estilos numa mesma rua de Shibuya ou de Harajuku: as executivas, as colegiais, as irreverentes fãs de manga. E podemos encontrá-los numa purikura store, alterando fotografias entre amigos e risinhos. E porque um viajante é grande parte do tempo fotógrafo, os japoneses abordam-nos nos espaços públicos se nos percebem em apuros a tentar o enquadramento certo da selfie e oferecem-se para nos fotografar. As lojas de Takeshita Street vendem tudo o que possa combinar com Doc Martens e bailes de máscaras e, em Asakusa, como um pouco por toda a parte, para homenagear os antepassados, alugam-se kimonos e as pessoas trajem-se orgulhosamente com meias brancas que dividem o dedo grande dos outros, para o pé ficar pronto para os chinelos tradicionais que se calçam nessas alturas. Os homens usam mala tira-colo e máscaras anti-contágio de cor preta. Os guarda-chuvas transparentes também são peça obrigatória, além das sombrinhas de papel ou tecido para dias de sol, as saias rendadas e plissadas abaixo do joelho. Até os cães são conduzidos em carrinhos de bébé ou dentro de sacos. Para resumir tudo isto, no Japão, como na terra dos sonhos de Palma, podes ser quem quiseres que ninguém te leva a mal.

20190428_004048IMG_114320190426_15315020190427_15291820190428_08083120190429_10375320190429_10565620190501_12133120190504_114659IMG_1084IMG_1105IMG_1134IMG_1138IMG_1139IMG_1158IMG_1131IMG_1163IMG_1341IMG_1367IMG_1369IMG_1394_1IMG_1401IMG_1424IMG_1484IMG_1493IMG_1532IMG_1533IMG_1540IMG_1547IMG_1564IMG_1619IMG_1625IMG_1652IMG_1699IMG_1707IMG_2211IMG_2236IMG_2344IMG_2346IMG_3330IMG_3341IMG_3577IMG_3842IMG_3890IMG_3926