Arquivo de etiquetas: Veneza

Burano, o reinado das cores na Lagoa de Veneza

Por causa da pandemia e do aconselhamento ao uso de máscaras, tenho-me lembrado de Veneza. E pensar em Veneza leva-me a Burano, a sete quilómetros a norte da ilha principal, ou a cerca de uma hora de vaporetto. O pequeno arquipélago das casinhas coloridas, com roupa a secar num cenário pitoresco, como se fosse a Ribeira do meu Porto. Antes da viagem, ao pesquisar sobre este lugar, li em quase toda a parte que “em Burano não há muito para fazer” e isto faz-me reflectir sobre como a opinião dos outros pode ser subjectiva. Nem sempre é necessário que haja muito para fazer. Mas este mundo compreende tantas vírgulas, que às vezes é preciso parar. E parar também devia ser urgente pelo simples prazer de admirar as coisas e senti-las. Por isso, parar é preciso, como era navegar umas dezenas de anos antes de Cristo quando Pompeu inaugurou essa ideia de que “Navigare necesse; vivere non est necesse” por, à época, ser muito importante dar alento aos marinheiros. Os tempos entretanto mudaram-nos a forma de viajar, e Pessoa, imbatível, navegando no sonho a mil anos de distância, pediu a tradução de Petrarca escrevendo “Quero para mim o espírito dessa frase”. Por isso, amigos, a vida interior pode ser frenética enquanto estamos sentados a sonhar. E é a permanência do prazer do sol na pele que me leva à praia. Ou o terminar um livro bom, que requer alguns minutos para deixar entrar (e entranhar em espírito) esse mesmo sentido. Até pode ser só um poema, ou uma frase tremenda, como aquela de Herberto Helder que diz “Minha cabeça estremece com todo o esquecimento“, e eu escrevo para ficar nas minhas estórias, para rever as minhas fotografias, e para ser grata à vida. E, nestes novos tempos epidemiológicos não temos de nos aborrecer. É preciso desconfiar do desconfinamento. Não cair na turbulência dos dias do passado. Pode-se viver sem ansiedade dos lugares por visitar porque todos os lugares esperarão por nós. Haja tempo para degustar o Spritz que nos traziam à mesa, no frenesim dos transeuntes reciclados das ruas, e relembrar as coisas que aconteceram e os lugares que escolhi. Hoje acordei a pensar nas máscaras de Veneza e de como Burano foi um dia bom para caminhar, para atravessar pontes, fotografar, e ser modelo. Um dia sem pressas com direito, ao fim da tarde, de uma última paragem por Murano para trazer dois balões de vidro fabricados ali, um de cor amarelo-sol e outro azul-céu em representação de outro dia qualquer com tanto para fazer quanto se quiser.

MCO-121055MCO-001-9MCO-120511MCO-120630MCO-1150127MCO-115014520170506_11544820170506_14443620170506_14445020170506_113006MCO-112708MCO-120250MCO-1150095MCO-115010120170506_140931carroMCO-120214

Passear de gôndola: aquele grande cliché

Gongolar foi a maneira como escolhi passar o dia do meu aniversário. Maio é um mês bom para viajar. Já se sente o calor na Europa. Eu, sentada na cadeira vermelha de napa, abraçava o banco ao meu lado. O tempo estava ameno mas mais calor do que frio. Algo próprio para o meu mês na Europa. A paisagem ia mudando consoante o timoneiro, ou o gondoleiro, seguia caminho. Enquanto gongolava, imaginei o meu plano visto de frente. Era uma vista bonita com uma mulher feliz seguindo na volta tecida nas águas de Veneza. Uma espécie de carrossel horizontal, sob as águas. Apenas com a diferença da adrenalina, porque o medo não nos invade quando andamos tranquilos de barco. As cores refletidas movendo-se no espelho daquela estrada prazerosa que nos toma durante cerca de meia hora. A vida tem sido boa, pensei. Brilhavam os meus olhos, e brilhavam as outras coisas, tudo. Talvez por causa da água, ou talvez não apenas isso mas haja uma razão maior. A razão pode ser o sentir que a razão é boa sem se a conhecer. Como disse Pessoa “O mundo não se fez para pensarmos nele. Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.” Acho que tenho estado de acordo, mas tenho a certeza que naqueles momentos de passeio concordei inteiramente que as coisas estavam todas no lugar certo. Antes tinha esperado algum tempo na paragem junto à margem do Grande Canal. Não para negociar porque para isso seria preciso experiência, mas por procurar inaugurar-me neste desejo. Estive à espera porque senti que queria muito fazer esta pequena cruzada nas águas. Não sei se é caro como dizem. Sei que paguei e nunca mais voltei a pensar no assunto da matemática mas voltei a pensar muitas vezes na satisfação de apreciar as fachadas dos edifícios mergulhados, os labirintos enquanto o timoneiro cantava, o passar sob a Ponte Rialto e todos os emaranhados de ruas onde a sorte me permitiu estar.  Mais tarde, iria perceber que a cidade desaparece tomada pela noite, escondida na máscara dos visitantes.

Não tenho fotografias de tantos momentos felizes

Em 2017 andei bastante de máquina na mão. Embora houvesse muita coisa perdida por estar a conduzir, ou por me concentrar na maravilha que estou a ver, e alheada naquilo não me ocorre registar o momento. Foi um ano bom. Feitas as contas, passei menos de trinta dias em Portugal. Ganhei mundo. Mas mais atrás, ao longo do tempo, houve episódios que retenho só em memória. Às vezes pequenas coisas, outras maiores e menos possíveis de repetir. Houve tanto que até hoje me fez feliz que queria escrever sobre isso. Sem ordem cronológica, porque também não temos gavetas para arrumarmos as alegrias. Todos somos uma espécie de saco enorme, e quem sabe se sem fundo, onde as muitas coisas que nos dão prazer se misturam. Por exemplo, a ideia de fazer uma viagem. A loucura, a volúpia de antecipar aquilo. Tantas vezes. Não tenho fotografias. Ou, outras situações mais concretas como tomar banho em Julho na Mina de São Domingos. O concerto da Lhasa de Sela no Palácio de Cristal. Não tenho fotografias. A subida para Brufe quando a neve começou a cair e, seguimos de descapotável aberto, a caminho d’O Abocanhado. Situar-me a um metro do Guernica no Rainha Sofia. Os peixes de todas as cores tocando-me a pele, no interior das águas, em Zanzibar. Perceber a imagem da inocência através da luz que vinha de dentro dos olhos da minha sobrinha. Ver, de repente, os golfinhos a passarem em Tróia, colocando uma praia inteira de pé. Vindimar no Douro. Ir propositadamente a Oslo ver O Grito de Munch no dia mais frio da minha vida. Andar a cavalo na égua Branca em Vila Nova de Cerveira. O Michael Nyman ao piano em Famalicão e eu emocionada até aos ossos. Respirar na Arrábida, a lonjura daquelas paisagens, a primeira vez que me levaram a conhecer a serra. Centenas de rodízios de peixe e nem uma fotografia. A minha tia a dizer-me ao telefone que tinha plantado uma romãzeira para mim. Ser pequenina e ler a uma multidão um poema, feito por mim, que começava assim: «o Natal é a verdura de um pinheiro». O dia em que fui buscar um caixote com o meu livro publicado. O percurso na camioneta em Corfu que não tinha porta e que nos transportava para a praia. Tomar um banho de estrelas em Palmela. Estabelecer contacto com pardais. O Michael Cunnyngham a autografar-me The Snow Queen em Haia. O António Lobo Antunes autografando-me vários livros em vários anos diferentes. Ele a dizer com sotaque americano que queria uma slice of pizza naquela noite em Nova Iorque. Os momentos em que quero ser humilde mas me sinto especial por me dizerem que sou uma mulher especial. Ajudar a construir o meu Butsudan. Não tenho fotografias. Um grande amigo a levar-me um tapete de sisal ao longo de três andares, escondido debaixo do manto que parecia ser o tapete mais pesado do mundo. Fazer canoagem em Caminha. Acertar com chumbos nas maças na quinta do Passadiço em Lamego. Conversar madrugada adentro na soleira das portas. Dançar sozinha na minha sala. Nunca terei fotografias. Aquela tarde em casa do José e da Maria em Paradela do Rio. Atravessar a Vasco da Gama a cantar o Nightcall. Ir a passar numa rua em Tavira e assistir ao ensaio de um concerto do Rodrigo Leão que mais tarde nos levou ao concerto verdadeiro. As viagens de carro entre Lisboa e França que fiz sozinha a sonhar o meu futuro. Receber um prémio de mérito num trabalho em Inglaterra. O concerto dos The Cult no Coliseu. Ouvir «Diz lá isso outra vez» no S. João há tantos anos e a magia do amor ali, à minha frente. Imagens que sem estória não seriam nada. Ou estórias sem imagens que me fazem quem sou. A vida quer-se em movimento, por isso, ergam-se os copos: o comboio de 2018 está aí a chegar.