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Passear de gôndola: aquele grande cliché

Gongolar foi a maneira como escolhi passar o dia do meu aniversário. Maio é um mês bom para viajar. Já se sente o calor na Europa. Eu, sentada na cadeira vermelha de napa, abraçava o banco ao meu lado. O tempo estava ameno mas mais calor do que frio. Algo próprio para o meu mês na Europa. A paisagem ia mudando consoante o timoneiro, ou o gondoleiro, seguia caminho. Enquanto gongolava, imaginei o meu plano visto de frente. Era uma vista bonita com uma mulher feliz seguindo na volta tecida nas águas de Veneza. Uma espécie de carrossel horizontal, sob as águas. Apenas com a diferença da adrenalina, porque o medo não nos invade quando andamos tranquilos de barco. As cores refletidas movendo-se no espelho daquela estrada prazerosa que nos toma durante cerca de meia hora. A vida tem sido boa, pensei. Brilhavam os meus olhos, e brilhavam as outras coisas, tudo. Talvez por causa da água, ou talvez não apenas isso mas haja uma razão maior. A razão pode ser o sentir que a razão é boa sem se a conhecer. Como disse Pessoa “O mundo não se fez para pensarmos nele. Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.” Acho que tenho estado de acordo, mas tenho a certeza que naqueles momentos de passeio concordei inteiramente que as coisas estavam todas no lugar certo. Antes tinha esperado algum tempo na paragem junto à margem do Grande Canal. Não para negociar porque para isso seria preciso experiência, mas por procurar inaugurar-me neste desejo. Estive à espera porque senti que queria muito fazer esta pequena cruzada nas águas. Não sei se é caro como dizem. Sei que paguei e nunca mais voltei a pensar no assunto da matemática mas voltei a pensar muitas vezes na satisfação de apreciar as fachadas dos edifícios mergulhados, os labirintos enquanto o timoneiro cantava, o passar sob a Ponte Rialto e todos os emaranhados de ruas onde a sorte me permitiu estar.  Mais tarde, iria perceber que a cidade desaparece tomada pela noite, escondida na máscara dos visitantes.