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A Origem das Cores do Nilo

Finalmente, chegou o dia da visita à nascente do rio Nilo. As estradas não são fáceis, não há tração nem suspensão automóvel que nos livre do efeito dos desníveis do terreno. As placas com as direções também não abundam, e o GPS na maioria dos casos não reconhece as estradas. O melhor é o motorista ir consultando os locais. Vou tirando fotos aleatórias da janela, porque em andamento, e com disparos a 1/2000 não há leopardo que eu não detenha congelado no meu cartão. Em todo o caso, hoje, não é dia para encontrar vida selvagem. Hoje, vemos sobretudo duas cores predominantes: o verde e o ocre férrico, tudo o resto é muito uma questão de sorte. Mesmo assim, atravessamos as localidades e encontramos os camiões do lixo, as lojas improvisadas com tudo e com nada, e os meninos que carregam o que lhes pedem as mães, naqueles caminhos africanos que não têm início nem fim, mas onde esses meninos vão sempre a caminhar. E era o lugar do começo do rio que tínhamos como destino. É claro que este assunto é susceptível de debate. O merchandising regional diz que é em Jinja a “Source of the Nile” mas, segundo Neil McGrigor, a origem poderá estar algures nas profundezas da floresta de Nyungwe, no Ruanda, e não no grande Lago Vitória. Em boa verdade, eu não me ocupo muito com a sua origem. Lembro-me de avistar este mesmo Nilo da varanda do Hilton no Cairo. E, se olharmos ainda mais de cima, é uma corrente de água a invadir 11 países, atravessando-os, sem distinguir fronteiras. E é esta a força que a Natureza tem. Basta estarmos atentos. A primeira paragem é nas cascatas de Itanda Falls. Depois de cobradas as entradas, há uma espécie de guia para ciceronizar o caminho que é evidente até às águas. Só há um lugar em frente onde a terra se detém. Ao longe, ouvimos a força das águas embrulhando-se apressadamente colina abaixo. Impondo respeito. E ficamos ali um pouco a tentar trazer aquilo dentro da câmera. A ver as poses que fazem os outros. A experimentar os vídeos. Mas por vezes, o melhor é mesmo só observar. Sentir a água correndo-nos num trajeto perpendicular, imparável e indiferente. Olhar essa beleza límpida de tão verdadeira, desmoronando-se na gravidade. E ler devagar as mesmas águas no seu violento e infinito incesto. Porque a natureza nem sempre cabe em fotografia e nem em palavras, mas lembrei-me do Herberto ter escrito:

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.

e era aquela mesma impossibilidade de descrição. No regresso ao carro, dirigi-me a uma família que cortava mandioca. A mãe passou-me um bebé para o colo, sem qualquer tipo de hesitação. A alegria dela por ver a minha é um daqueles momentos que não estavam previstos na viagem. É consolador notar a simplicidade de um povo. Doce, descalço, puro. E mesmo que não seja, nestes instantes é. Ou então, é minha a fortuna de conseguir olhar aquele mundo assim. Uma gente que permanece na infância, com olhos negros preciosos de ônix e sorrisos sagrados de alma. Com tanto disto, a palavra pobreza não lhes assenta bem mas a felicidade sim.

Continuamos para Jinja. E Jinja, é um daqueles lugares onde se pensa um dia voltar mas aos quais nunca se regressa. Depois de um ritual de batismo na nascente, o almoço é demorado mas o restaurante francês “Source of the River Nile“, que se localiza atrás do memorial a Gandhi, é uma espécie de esconderijo idílico junto à água que convida a ficar. De regresso a Kampala, paramos. As vendedoras de fruta correm até nós ao verem o carro chegar. De uma avalanche, erguem os pequenos cestos de fruta, desejando que as escolhamos. Sempre simpáticas, a sua alegria contagiante faz com que a compra de fruta seja um outro tipo de experiência. Pode haver uma ou outra exceção mas, sobre o que tenho conhecido, as africanas são pessoas com música por dentro. Entre o laranja e o amarelo predominantes, tiro fotos com elas que me pedem para rever e comentam. Ao final da tarde, já esgotou o ananás mas, trago cachos de bananas, e maracujá. Depois da pratada de peixe ao almoço e da grande oitava dos risos que ouvi ao longo do dia, um sumo natural parece-me um jantar extraordinário.

Viver em África: Uganda

“Uganda cena!…” dizia-me alguém muito próximo após lhe revelar o país africano que tem um grou-coroado no centro da bandeira, e que me viria acolher durante a execução de um projeto de Oil & Gas. De qualquer forma, de projeto em projeto, a pandemia continua a trocar-nos as voltas um pouco por todo o lado, por isso, vou andando ao sabor desta nova corrente sem fazer grandes planos de me demorar em cada geografia. E o melhor é aproveitar que vim uns tempos para África e tentar conhecer o que é já inolvidável. Ao cabo do primeiro mês, a primeira coisa que salta à vista em Kampala (e nas principais estradas nacionais) é a presença de taxistas de motorizada, os “boda boda“, que são o meio de transporte mais popular entre os Ugandeses. Independentemente da teoria das regras de condução, é aceitável encontrarmos 3 passageiros além do motorista, incluindo crianças, ou objetos de dimensão considerável serem transportados de motoreta nas estradas do país. Os capacetes são apenas ocasionais. E as senhoras equilibram-se bem, sentadas de lado, com as mãos livres e uma confiança que me faz questionar o excesso de zelo europeu. Mais regras no Uganda: fumar dentro do veículo e na via pública dá direito a prisão, e andar de skate é também proibido:

Mas a polícia não atua perante a condução em sentido contrário, talvez por o tráfego ser muito intenso, especialmente, ao início do dia e ao final da tarde. Ou por no meio de tanta contramão deixar de haver um sentido para considerar contrário e um sentido para avaliar como certo. E assim é a vida na capital. Quando subimos para norte, a paisagem muda, aproximando-nos da natureza. Depois de muitas horas de caminho, os motociclistas desaparecem totalmente do cenário. Agora o horizonte é mais denso e verde enquanto o sol se deita e é altura de parar para pernoitar na redoma das redes mosquiteiras do lindo refúgio da Saltek Forest Cottages, em Masindi. De manhã, os macacos bem despertos abrem as hostes em família, trepando e descendo as árvores para nos virem aceitar oferendas de fruta fresca num jogo quase igual de interação homem-macaco. Segue-se a aguardada incursão no Parque Nacional do Murchison Falls, na Provícia de Buliisa, pela grande estrada de asfalto que os chineses construíram, e onde a vida selvagem se encontra à espreita e me permite relembrar as aventuras de há dez anos na Tanzânia. São os babuínos que se atravessam na estrada à procura de comida, as gazelas, e os pássaros. Os big five ainda estão escondidos mas a cerca de 20 Km das cascatas do Nilo, de repente, uma mancha escura sugere algo novo que eu nunca tinha visto: os raros macacos da espécie Colobos Guereza de pêlo comprido preto e branco que se abraçam aos galhos no cimo das árvores deixando as caudas felpudas ao dependuro. Não consegui ainda fotografá-los devido à velocidade da pick-up a caminho das reuniões mas, eu hei-de voltar.