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Registar instantes que jamais se repetem

Não posso esconder o desejo em estar o mais perto possível dos animais. Mas a interdição de descer dos 4×4 que nos transportam nos safaris, leva a que se criem formas alternativas de se conseguirem as experiências e, por conseguinte, as fotografias, que julgamos irrepetíveis. Durante a maioria das viagens que faço, ocorre-me frequentemente esta sensação de estar a viver momentos únicos o que é uma alegria imensa, mas algo melancólica: de satisfação e de despedida, simultâneas. Por outro lado, todos os bons momentos da nossa vida são instantes que não voltamos a viver de forma igual. Naquele dia, a perspectiva de me integrar na savana fez-me sair pela capota tentando entrosar-me na paisagem, porém, foi do lado de dentro do jipe que se registou o meu ar mais confortado mas feliz por estar suficientemente próxima dos elefantes. É bom que entendamos algumas coisas. Eu sou um intruso na savana. Os outros jipes com viajantes também o são. Na verdade, aquele chão não é o meu, mas existe um qualquer trânsito energético a ligar-me a África. E foi-me permitido irromper na tranquilidade da pradaria onde os animais iam aparecendo. Primeiro, o efeito surpresa. A presença deles, ficando a cada segundo, maior do que a savana inteira. Há um elefante que me olha do canto do olho, esse que leva a cria ao lado. Uma definição de instinto que não vem nos dicionários, mas que nasce e morre ali para se apreender naquele momento. Isto há-de ser, qualquer coisa como saborear, aos poucos, o maravilhamento. Uma sucessão de imagens cada uma com a sua estória, que se divide entre um sorriso que fecha e outro sorriso que se abre. Ninguém viu, mas eu levava o coração pulsando-me nos olhos e a ocupar-me todo o sistema sensorial, com os refreios necessários em relação ao tacto. A tradução instantânea que tudo aquilo faz ao meu cérebro: a espessura da pele cinzenta-lilás destes gigantes de orelhas-abano caídas, as rugas nas quais não posso tocar, e a temperatura certa daqueles corpos ao sol que só avalio com os olhos. Os elefantes de passagem da direita para a esquerda, e nós na estrada de onde vínhamos continuando em frente. Cada qual nos seus caminhos. É bonito ter uma certa certeza que eles amanhã vão continuar ali no mesmo lugar, à mesma hora, com uma mesma idade. Apesar de os deixarmos para trás para sempre. Continuamos pelo parque e há mais um postal inesperado que se avista do cimo da montanha: um jipe de brincar e uma manada miniatura do outro lado do riacho. Um lugar onde estivéramos umas horas antes. Isto é o conceito de escala, sem dúvida uma boa ilustração da dimensão do continente africano. Parece que a geografia do mundo é, longe dos manuais escolares, uma coisa nova, cheia de cheiros que brotam da terra e eu não sabia. Quanto mais o dia avança mais penso que ontem o meu conhecimento era nada. Também não sei a quem posso agradecer. Diz-se que a savana só tem animais e eu nunca vi nada tão inundado de poesia até hoje.

Fotografias com elefantes fora do jipeMCO-3770MCO-3772MCO-0386MCO-00574MCO-00384MCO-0352-2MCO-0353MCO-0395-2