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Colibris na Martinica

As Caraíbas são ainda mais apetecíveis quando, na Europa, repousa lento o Inverno. E, a menos de um dia de distância, podemos voltar a aconchegar-nos no forte calor que pertence àquela América do centro, que nos recebe pela porta do sol agarrando-nos pela mão, pelos olhos, para nos dourar a pele. Sente-se assim o reconforto e a bem-querença deste paraíso no que oferece de mais basilar: praias vastas de areia limpa, águas calmas e outras mais fortes de um mesmo mar quente e temperamental, e o bálsamo do som dos passarinhos como banda sonora de férias. Na Martinica não há demasiados turistas, há espaço e a vida não é dirigida a quem vem de fora. Continua a ser uma série de gestos locais, diários, não fabricados e sem contradição com a vida de sempre que se passa na ilha. A tradição do turismo massivo acontece noutros locais próximos, que todos conhecemos das montras das agências como destinos de luas-de-mel. Neste sítio do Caribe, vivemos em francês uma relação orgânica doce que permanece depois como uma memória morna. À medida que nos afastamos da areia, exibe-se o verde em toda a parte, desde a margem das estradas, atrás das canas para o açúcar e o rum se fabricarem, e, depois no alto das colinas, encontrá-mo-lo um pouco mais forte em contraste com o azul do céu. Nas regiões mais interiores, o verde é ainda mais verdadeiro mas mesmo lá o mar entreabre-se sempre por uma qualquer brecha ao fundo. Os dias de sol e sal passaram depressa, junto ao mar, nas várias localidades da ilha, mas foi no Jardim da Balata, a dez quilómetros de Fort-de-France, que o meu olhar se prendeu. Nas Antilhas francesas, existe este magnífico espaço desenhado de flores e vegetação. Esteticamente bem arrumado, organizado em trilhas de espécies exóticas, e suas características que não mais se esquecem: as cores, os cheiros. E outras maravilhas como as pontes de corda no alto das árvores, os bambus mais grossos do mundo, as palmeiras mais altas de sempre, lagos de nenúfares e flores-de-lótus. Mas o melhor de tudo, que me parece de uma grande generosidade mundana: são os beija-flores de corpos iridescentes que vêm debicar junto à recepção. Foram estes pequenos meninos alados do jardim que me puseram a pensar que são justamente surpresas como esta que me viciam na missão de viajar. E comovo-me mais uma vez com a forma como a natureza gere o planeta. Quando olhamos para a rapidez suspensa dos colibris, não percebemos, de facto, o que é o movimento das asas que deixam de se ver a menos de um metro. Tive muita sorte naqueles minutos partilhados com os celebrados colibris, no terraço da casa crioula que atravessamos junto à entrada do jardim. Fiquei ali, imóvel, com os braços em ângulo recto a suportarem o elemento que, entre mim e os passarinhos, haveria de os registar para trazer aquela memória comigo. Àquela distância, não sei se os animais vigiam as nossas intenções enquanto os analisamos. Talvez o façam em segredo, talvez convivam connosco sabendo a quem fazer confiança. Acho que a natureza é muito mais sábia do que alguma vez se conseguirá provar. E foi assim que começou mais um dia nas Caraíbas. O meu último dia de férias, rico de emoções e de cores vivas, a poucas horas de apanhar o avião que me levaria de volta a França. Quem decide sobre os lugares mais bonitos do planeta há-de saber que a Martinica nasceu para ser visitada.

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