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Love, Upside Down

José Luis Borges estava certo quando disse: “No se puede contemplar sin pasión“. Portanto, eu, contemplo apaixonada a vida. Não há outra forma para encarar tudo isto. E olhar deve ser uma sucessão de pausas, de espanto, para se desvendar novamente um outro lado. Fevereiro, esta noite, em metamorfose, abrir-se-á em Março, de encontro à luz. Para arrancarmos borboletas das árvores e de dentro de nós. De maneira que, ainda neste Domingo, decidi escrever-te. Dizer-te que deste lado da terra, mais ao centro, o dia se acende quente. Há um punhado de Sol num lugar particular, como num poema. Há um vulcão invertido, uma cratera em chamas, um incêndio rasgando esse círculo no canto superior. Temos de aproximar o ouro dos olhos, brilho sobre brilho. E levantar a cabeça ao alto. Assistir a esse fogo. Por outras palavras, aproveitar a bola incandescente que principia continuamente no céu. E então, dizer-te sobre as tardes em que, aqui ao longe, uma nuvem cai inteira de cima. Dizer-te do cheiro africano, da terra vermelha. Primeiro húmida, depois muito seca – com esse chapéu inacessível que lês para ti; uma sombra circunflexa, fruto da tua atenção às minhas palavras. Antecipando uma espécie de esperança, porque mesmo que chova, tudo fica mais sério depois. E agora temos dias diferentes. Olho as águias em Kampala e a amplidão das suas vistas. E mesmo à distância, reconheço outros sentidos que fizeste em mim. E, por falar nesse ardor, já te falei na dispersão da grafite em brasa? Era assim sempre que te lia. Lembrei-me das paisagens de Salamanca. De nos perdermos com a tonalidade amarela das flores. Como se a terra inteira em grãos tivesse ali desabrochado, num silêncio luminoso, levemente interrompido pelo vento, e algum carro veloz a passar na auto-estrada. Eramos eu, tu, e o abismo do prado. A nudez das flores, magnética a espelhar o céu, deixando tudo tão claro, como agora, para virarmos o mundo ao contrário.

Funny Birds e Os Mercados de rua no Uganda

Dizem que África é toda igual mas não… Eu não concordo, eu acho que é mesmo tudo diferente. E há sempre aprendizagens para fazer; basta sair de casa e observar à volta. Por exemplo: nos mercados de rua ugandeses (que existem em todas as esquinas), podemos encontrar Rolex mas nem tudo é o que parece. Aqui, trata-se de um snack de pão indiano enrolado com recheio de omelete que já se tornou uma iguaria nacional. E, além deste, há outros mal entendidos para degustação: Assim que paramos o carro, vêm tentar vender-me nacos de carne em jeitinho de espetadas de galinha mas que, naturalmente, também escondem alguns mistérios. Em conversa com os locais com quem fui ganhando confiança, acabei por me informar que normalmente são vendidos “Funny Birds” em lugar de chicken sticks. Faltava saber que gatos são estes que nos querem fazer passar por lebres… As pesquisas na web, dizem tratar-se de abutres! Portanto, a parar ao pé da estrada, continuarei a optar sempre pela saborosa fruta por descascar desta “Pérola de África”, como bananas Matoke e ananás. Em todo o caso, são estas paragens ao longo do caminho, que nos permitem conhecer os ugandeses. É assim que aprendemos a decidir que são um povo simpático, curioso, e que não se inibe de se chegar a nós para conversar. No escritório em Kampala a interação é mais filtrada, pode haver algum assunto que nos melindre mutuamente, mas quando ficamos mais à vontade, a comunicação faz-se nos dois sentidos e às vezes é surpreendente. A Selma que trabalha no condomínio perguntou-me: “Are there African people in Portugal?” deixando-me feliz por ajudá-la em 2 minutos a transpor 2 continentes. Mas é na rua, entre estranhos, que misturamos as nossas culturas com maior liberdade e sem filtros. E, ao longo destes percursos prolongados de muitas horas, o caminho faz-se em grande parte através da janela, onde o movimento cria uma variedade de cores e de formas desconcertante, sempre ao nível térreo pela escassez de construção em altura, como no imaginário do cinema western. Durante as paragens, enquanto observo as pessoas, sinto-me observada, mas é só porque o Sol nos fez diferentes. As crianças com a sua luz transcendente ainda nos encaram de uma mesma realidade. É como se àquela distância, ainda não se detetem as diferenças que inevitavelmente aparecem socialmente com o avanço do tempo.

Da janela, o caminho vai ficando para trás. As localidades assemelham-se a quartos de brincar com tudo espalhado ao acaso. No espaço em redor, há certas preciosidades inesperadas como um new beetle junto a uma sucata, ou uma cabra a sair de uma loja, entre tecidos africanos dispostos em charriots de pau, pirâmides de hortícolas e artigos singulares que se distribuem pelas bancas até ao infinito das estradas nacionais. No entanto, é dentro da própria cidade, nas filas intermináveis de trânsito, que podemos observar com mais atenção as coisas de perto. E, além das máscaras de prevenção Covid, há muitas vendedoras e vendedores que carregam objetos diversificados, como coçadores de costas, quadros, coadores, alguidares, e até animais vivos. Há muitas crianças nas vendas carro-a-carro. Há oferta de muita coisa nas margens das estradas: sofás, roupa – os manequins do lado exterior das lojas exibem indumentárias estranhas – e o que quer que pareça fazer falta em dias de muito calor. Há apenas que saber procurar. E há sobretudo muito trânsito. Entre os muitos boda bodas apressados, há tudo de tudo, e cada pedaço que cabe na janela é irrepetível fazendo do Uganda um gigante patchwork animado. Tenho a certeza que amanhã já nada será igual.

Viver em África: Uganda

“Uganda cena!…” dizia-me alguém muito próximo após lhe revelar o país africano que tem um grou-coroado no centro da bandeira, e que me viria acolher durante a execução de um projeto de Oil & Gas. De qualquer forma, de projeto em projeto, a pandemia continua a trocar-nos as voltas um pouco por todo o lado, por isso, vou andando ao sabor desta nova corrente sem fazer grandes planos de me demorar em cada geografia. E o melhor é aproveitar que vim uns tempos para África e tentar conhecer o que é já inolvidável. Ao cabo do primeiro mês, a primeira coisa que salta à vista em Kampala (e nas principais estradas nacionais) é a presença de taxistas de motorizada, os “boda boda“, que são o meio de transporte mais popular entre os Ugandeses. Independentemente da teoria das regras de condução, é aceitável encontrarmos 3 passageiros além do motorista, incluindo crianças, ou objetos de dimensão considerável serem transportados de motoreta nas estradas do país. Os capacetes são apenas ocasionais. E as senhoras equilibram-se bem, sentadas de lado, com as mãos livres e uma confiança que me faz questionar o excesso de zelo europeu. Mais regras no Uganda: fumar dentro do veículo e na via pública dá direito a prisão, e andar de skate é também proibido:

Mas a polícia não atua perante a condução em sentido contrário, talvez por o tráfego ser muito intenso, especialmente, ao início do dia e ao final da tarde. Ou por no meio de tanta contramão deixar de haver um sentido para considerar contrário e um sentido para avaliar como certo. E assim é a vida na capital. Quando subimos para norte, a paisagem muda, aproximando-nos da natureza. Depois de muitas horas de caminho, os motociclistas desaparecem totalmente do cenário. Agora o horizonte é mais denso e verde enquanto o sol se deita e é altura de parar para pernoitar na redoma das redes mosquiteiras do lindo refúgio da Saltek Forest Cottages, em Masindi. De manhã, os macacos bem despertos abrem as hostes em família, trepando e descendo as árvores para nos virem aceitar oferendas de fruta fresca num jogo quase igual de interação homem-macaco. Segue-se a aguardada incursão no Parque Nacional do Murchison Falls, na Provícia de Buliisa, pela grande estrada de asfalto que os chineses construíram, e onde a vida selvagem se encontra à espreita e me permite relembrar as aventuras de há dez anos na Tanzânia. São os babuínos que se atravessam na estrada à procura de comida, as gazelas, e os pássaros. Os big five ainda estão escondidos mas a cerca de 20 Km das cascatas do Nilo, de repente, uma mancha escura sugere algo novo que eu nunca tinha visto: os raros macacos da espécie Colobos Guereza de pêlo comprido preto e branco que se abraçam aos galhos no cimo das árvores deixando as caudas felpudas ao dependuro. Não consegui ainda fotografá-los devido à velocidade da pick-up a caminho das reuniões mas, eu hei-de voltar.