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Pinturas da Natureza

Movimento-me enquanto fotografo da janela. Não sei exatamente onde estou mas (após as barracas da aldeia, dos postos de gasolina, depois das motos e das populações) vejo o contorno das árvores a passarem. Aqueles tons homogéneos, de verde em harmonia com outro verde parecido. E, pela frente, as linhas de troncos, equidistantes e muito equilibradas. Podia ser uma pintura de Monet, onde a complexidade da vida se interrompe. Ou sou eu que a interrompo para me deixar naquela ausência onde a natureza vive. A forma como aceitamos o que nos oferece o mundo é o que nos distingue uns dos outros. A forma como desejamos escalar o ombro das montanhas ou deslizar na neve. Pois o mundo, desde o começo, que se verga perante a nossa vontade. Não há lugar a contratos. E em diferentes circunstâncias recebemo-lo, ora com mais amor aguardando o por-do-sol, ora com menos cuidado a decifrá-lo. Tantas razões para me perder no seu mistério, tantas para aprender a lição que a pedra ensina. Pensar na morte impossível das águas do mar, transformadas em chuva. Por que tudo corre e passa desde a infância.

Movimento-me enquanto olho da janela. Nesta África, não existe Inverno. Sinto a pulsação do verde que o carro vai deixando para trás. Parece um jogo de espelhos num qualquer tempo, num qualquer século. O alinhamento da natureza integrada com as raízes ainda na terra, naquele sentido vertical, de ascender (nunca descer) durante o crescimento. Ou talvez no sentido de irromper uma visão ali tão simples: sem artefatos, sem o elemento humano, sem pássaros. Nem sequer um raio de sol a incidir para algum ponto particular. Nenhuma luz a retocar o rosto do dia entre os corredores de árvores. E nesse reino, à minha volta, somente um movimento levemente arrastado de vento a levar um pouco das folhas consigo. Penso nisto, e na minha maneira de não escapar às palavras, e na minha alegria de, com elas, digerir as minhas respostas, em qualquer geografia, defronte de qualquer horizonte ou fotografia. Há sempre poemas pois não sinto nenhum país como estrangeiro. Penso numa bola a orbitar alucinadamente. Um único mundo, uno, no seu próprio enigma. Com pessoas, como eu, tu, e outros que (ainda mais euforicamente) abraçam flores frescas à tona da tinta panorâmica, que observam com espanto, todos os dias.

“Negative thoughts just didn’t work in this room. I think this paiting is just too beautiful to support anything that is not optimism.”