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Tapeçaria de Bayeux

Foi uma das grandes curiosidades que quis satisfazer na Normandia: o enorme tapete de linho do século XI, peça identificada pela UNESCO como fazendo parte do projecto Memory of the World, ao lado, por exemplo, da partitura original da 9.ª Sinfonia de Beethoven. Há que preservar a nossa história conjunta. E revisitar o que nos trouxe aqui. Em Bayeux, há então um museu moderno que conserva este tesouro tecido. Podemos olhar o tapete e testemunhar a lonjura daqueles anos, década de mil. A batalha de Hastings ali bordada, ao longo de 70 metros de comprimento, ilustrando a conquista de Inglaterra pelos Normandos em 1066. As cenas da batalha: cavaleiros, espadas, escudos, trajes, animais, barcos, machados, canhões, palácios. Tudo isto desenhado com agulhas e linha. Cores pálidas sobre o tecido iluminadas através de luz artificial numa sala escura. Pigmentos que mudaram com o tempo e as imagens talvez já muito descoradas. Em cima, os títulos bordados em latim. E encontramos ali algumas respostas se perguntarmos como seria viver na Idade Média. Outras obtemos de diferentes maneiras. E há ainda as que fabricamos. Por exemplo, os filmes de época, apesar de nos trazerem verdade em alguma parte, não passam de tentativas de dizer sobre o que já não existe. Ao pensarmos sobre esse todo que veio de dantes, esse que não vivemos, é mais a ausência das coisas que se imagina. Temos agora nas mãos um mundo muito mais cheio de tudo. Mas o mistério da existência vem de muito mais longe. E por muito que o tempo prove a evolução, evoluímos afinal para onde e para quê? Haverá um sentido de progressão na robô Sophia, oradora na Web Summit, respondendo autónoma às nossas questões? Penso que a diferença entre uma máquina comum e a Sophia tem que ver com emoções, ela simula a transmissão de emoções. Pretende ser. Pretende ter. Então faz de conta que nasceu uma mulher-máquina que é como uma mulher. Lembro-me da visão de Spike Jonze em Her sobre as relações modernas satirizadas através de uma assistente pessoal criada informaticamente e a impossibilidade de reciprocidade sentimental homem-máquina. As emoções verdadeiras, essas, que são nossas, acompanham-nos imutáveis ao longo do tempo. O que sentimos, como nos sentimos, existe interiormente e está agarrado a nós. Saber sentir o vento, vibrar com uma voz ou uma imagem, entrar numa canção. Isso é muito e apenas animal. Não sei como será daqui a mil anos. O futuro parece ser um agente pretensioso e carregado de verniz. Brilha demasiado. Prefiro a purpurina para fantasias de época. Dizia-me ontem um amigo que vê a verdade das pessoas através dos olhos delas. Aquele brilho no lugar onde pertence, como quando sorrimos e os olhos contam aquela verdade sobre estar-se feliz. É tudo só aquele momento que vem à janela mas porque acontece dentro de nós. Então nada mais tem que brilhar.

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