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Setúbal, o Rio de Janeiro português

Cheguei a Setúbal em 2008 com um contrato de trabalho, uma mala no carro, e nenhumas referências sobre onde iria dormir, onde jantar, onde acordar. Ao almoço, estaria acompanhada pelas pessoas da empresa, o resto teria que arranjar-se no decorrer do dia e dos dias seguintes. Foi um desafio bem maior do que outros, que anos mais tarde viria a ter fora de Portugal, e se resumiriam a entrar num avião com todas as comodidades à minha espera além fronteiras. Lembro-me de chegar a Setúbal pela auto-estrada desde o Porto, abrandar junto à rotunda do Alegro (onde ainda era o Jumbo), escolher uma saída ao acaso e seguir. Não sei a razão mais lógica mas tudo nesta cidade nos impele para as suas margens. Talvez a força das correntes verde-turquesa obrigue a uma espécie de testemunho, um essencial baptismo dos olhos. Talvez o declive das avenidas a descer, ajude a descer. Na altura, parava-se dentro da Rotunda de Portugal. Foi a única vez que uma rotunda me tomou de surpresa. Mais à frente, passava o Hospital, a Tebaida, a Estação, o Bonfim para ver o Estádio à direita e continuar. Talvez fosse a fortuna do caminho dos carros no sentido da costa, mas senti uma tendência de não voltar atrás até chegar à avenida Luísa Todi, sem saber que estava na Luísa Todi. E lembro-me de virar à direita, e de me deparar com aquela rocha maciça, enorme, mesmo em frente, cada vez mais perto, e de me reclinar para olhar o lugar onde a serra acabava e assistir à grandiosidade que era a Arrábida. E que cidade era aquela protegida por uma montanha, cheia de muitas serras, deitadas até um outro lado. Arrábida, lugar de oração, imperatriz da região. Majestosa, detentora de um castelo que ela mesma parecia engolir, e de um convento ainda melhor escondido. Lembro-me de guiar serra adentro e sentir o assombro que era meio quilómetro de altura escarpado, e mesmo de Inverno as cores com cheiro a Verão e lembro-me de pensar quando ali cheguei: “Isto há-de ser o Rio de Janeiro português” e tive a certeza que havia um fascínio qualquer por explicar que nunca mais me deixaria. E nunca mais deixou. Talvez a magia do estuário se espalhe em moléculas que inspiramos ou vapores que nos embriagam os sentidos e seja esse o segredo do deslumbramento que se encontra ali. Uma metamorfose líquida, onde o Sado e o Atlântico se acarinham, embrulhando-se, transformando-se, e renascendo numa outra coisa. E o magnetismo dessa simbiose de águas esteja presente até ao outro lado no areal onde se estende Tróia. Ou talvez seja Tróia erguida ao longe quem nos acene junto às águas protegidas pela encosta. Um paraíso onde também os golfinhos se deixaram ficar. E assobiamos ao lado deles de barco para os assistirmos em mergulhos de mariposa,  e que sejam para sempre selvagens mas, simultaneamente, da terra. Tudo junto, tanto encanto e beleza naquele lugar. Como eu costumo dizer, cumprimentei Setúbal com o coração com vontade de falar e com o respeito que nunca senti por outra cidade. Há qualquer coisa no estado bruto da reserva natural, uma mesma magia com que ali se amarravam os barcos entre partidas de recreio e chegadas da pescaria. Foi feliz que me senti ao pensar que começava ali mais uma parte da minha vida. Foi o ano do choco frito e dos rodízios de peixe, o ano dos almoços mais frescos da minha existência. Foram os encantos da serra, desde a base onde residem as praias mais bonitas que conheço, até ao regresso a casa. Morei em Setúbal até ao ano seguinte com uma vista tremenda, provavelmente a mais perfeita que se podia ter de um 8.º andar na cidade: onde cabia o estuário, a península de Tróia com os neóns do casino na vigia nocturna da marina, os prédios coloridos, o hospital azul-clarinho, e, nas traseiras, o castelo de Palmela. E era a privacidade dos banhos de sol no terraço. Com tempo quente, os fins-de-semana tinham sempre sabor a férias. O ócio era também chegar à Figueirinha, ter a sorte de arrumar o carro e alugar um chapéu. E em companhia de gente da terra, ir conhecer cada uma das outras praias, para testar a delícia da água morna a sul do Tejo. Experimentar Galápos, descer à Galapinhos, desbravar a dos Coelhos e perceber, um pouco mais à frente, o recanto de paraíso que o Portinho é. Fora da água, a areia de Julho até Setembro a queimar os pés, a procura da sombra, as bebidas dos bares de praia, a fruta fresca trazida do Livramento, os gelados da Olá a fazer sorrir e muito protector solar. E, no final do dia, subir aos miradouros serpenteando a Arrábida para avistar uma única moldura de areia, guardada pela Anicha. Mais em frente, outra vez Tróia e as línguas de areia ora fora de água ora em horas de mergulho, e avistar Palmela do outro lado da serra. O bom de estar em Setúbal era também apanhar o ferry cor-de-alface com filtros de saturação e ir para Tróia passar o dia com os pés descalços na areia fininha e cuidada numa espécie de Algarve sem confusão e ruído, a 40 minutos de Lisboa. E 10 anos depois, habituei-me à euforia de chamar o táxi boat em Albarquel e seguir com o vento na cara a galope nos sulcos do estuário irrompido com velocidade, para descer directamente nas águas tranquilas de Tróia porque Setúbal é a cidade que me espera em Portugal. Entretanto, Albarquel ganhou um parque para as pessoas, e a cidade renasceu sob muitos aspectos. A Casa da Cultura ao lado da taberna medieval trouxe exposições, concertos e uma nova dinâmica. O fórum reabriu com novos espectáculos e um café concerto no piso 6 onde se vê o sol a por-se vaidoso no horizonte. Uns metros à frente, “o rapaz dos pássaros” eternizado no Largo Zeca Afonso. E eu gosto tanto de pássaros que os encontro, muitas vezes, em misteriosa comunhão comigo. Acho que, no essencial, nos percebemos bem porque, como alguém disse, ser livre é uma coisa muita séria.

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Búzios para ouvir o mar ao ouvido

Tive a sorte de viajar com um amigo brasileiro até Armação de Búzios. O que se verificou a melhor companhia do mundo, depois de ter sobrevoado sozinha o oceano inteiro que separou, naquele fim de Outubro, o Porto de Portugal do Rio de Janeiro. Lembro-me de rir muito no caminho que fizemos de carro. Eu perguntava pelos animais que víamos  das janelas a ficarem para trás e ele a responder: São búfalos. Ensinando-me que, afinal, havia búfalos no Brasil. Ele falava muito de si, da sua vida, dos seus projectos. Eu sempre fui boa ouvinte. Não me lembro em pormenor mas a viagem fora tão rápida que há-de ser verdade o que se diz: o tempo flui se estivermos bem. Quando chegamos, percebi que Búzios era um conjunto de muitas praias. Praias quase desertas por estar vento, ou, dito de uma outra maneira, paraísos adiados para dias mais aprazíveis. Esta fotografia tiramos na praia da Tartaruga. Não estava frio mas foi lá que o vento ficou para sempre a desarrumar-me o cabelo na cara. Gosto desta maneira que o universo inventa de dar vida às coisas invisíveis. Ainda confere mais sentido às fotografias. Estava então uma tarde amena com vento, e ele disse o nome dos vários areais que visitamos. Em comum, havia sempre a vegetação, do mesmo verde, estendendo-se até à água, emoldurando as piscinas de areia e mar. Entretanto, o sol pôs-se ao fundo, num panorama habilidoso de lonjura, vermelho e quente. A seguir, na praia da Armação, sentei-me no colo de bronze da Brigitte Bardot, que por lá está, eternamente jovem, absorta do resto e em contemplação do vaivém das ondas e dos barcos coloridos que flutuam em frente. Depois de visitarmos algumas das praias, ao abrir da noite, fui à zona mais central experimentar bikinis. Os dois que comprei eram tão brasileiros que foram sempre parcos em pano para usar no resto do mundo. Jantamos crepes no Chez Michou antes de regressarmos. O meu amigo não esgotava assuntos, percebi-o bem entrosado e a gosto na vida política brasileira, recheado de projectos sociais que contribuiriam para a melhoria das condições das populações menos favorecidas daquele país. Estas partilhas de ideias altruístas, de projectos que fazem sentido e de sonhos, alimentam bastante o meu imaginário. Muita matéria para despistar o silêncio. E, nesta viagem, não precisei, afinal, de ouvir o mar que assobia escondido dentro das conchas.

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O disco-voador

Atravessando a Baía de Guanabara, pela ponte ou pelo ferry-boat, deixamos o Rio para trás. A própria travessia permite uma perspectiva nova da cidade: as suas montanhas, o morro da Urca espreguiçado no mar, o Pão-de-Acúcar impondo-se à frente, o Corcovado pequenino mas indelével nas recordações, e a vista adiante de Niterói que se pretende desvendar. Para melhor aproveitarmos estas várias lindas paisagens, é preferível despender os 20 minutos que a barca demora pela baía e, com sorte, ainda cumprimentar Iemanjá. Depois de desembarcar, há pontos de interesse com cunho português, como a Fortaleza de Santa Cruz, mas, é no Mirante da Boa Viagem que se encontra atracado o edifício que me leva ali. Ei-lo então a dissociar a paisagem da cidade, fosse qual fosse a cidade, fosse qual fosse o lugar, completamente insólito, extraordinário, excepcional: o MAC. O meu museu de arte contemporânea preferido do mundo. Projectado por Oscar Niemeyer, e sem precisar de mais apresentações. Quisera ser uma espécie de flor ou taça mas, aos meus olhos, desde o primeiro instante, um disco-voador. É preciso fazer uma pausa, para pensar no nome do local escolhido que, quanto a mim, não poderia ser mais bonito, nem ter um nome mais bonito do que: Mirante da Boa Viagem. Um miradouro com desejos de bonança, perfeito para deixar um disco, ou esta espécie de semi-pião de cimento que parece girar em cima da água. A arquitectura da rampa de acesso permite admirar a obra de vários ângulos, mas é no seu interior que se percebe a genialidade do arquitecto. Há janelas de vidro, inclinadas numa faixa central, que circundam toda a extensão do edifício e permitem apreciar a paisagem do Rio de Janeiro, as vistas para a baía e para Niterói. O piso é em alcatifa, por isso, sentimo-nos convidados a passear descalços, na experiência de, confortavelmente, deambular entre as obras expostas e, descansar na plataforma junto às janelas, desfrutando da beleza exterior e da do próprio museu. Apetece ficar ali, a percorrer o disco em círculos, porque ele não vai decolar mas nós, se quisermos, podemos continuar a girar e voltar a girar, como naquele samba dos Tincoãs.

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‘No mar estava escrita uma cidade’

Foi em frente ao Copacabana Palace que as vi. As tecedeiras mágicas de trancinhas africanas. E, ante a possibilidade de me manter penteada nos dias seguintes, não hesitei um segundo. Decidi ficar a aguardar a minha vez, com as minhas amigas igualmente à espera. Há lugares onde situações como esta ganhariam uma espécie de espessura que pareceria aumentar o tempo, no entanto, há outros em que acontece o inverso. O calçadão carioca é uma sala de espera delirante porque os brasileiros são naturalmente bem-dispostos, curiosos e de bem com a vida. Na verdade, nesta viagem, retive para mim, que o povo brasileiro utiliza o sofrimento como um profissional da rádio, com um talento similar para fabricar permanentemente alegria. Ou então redescobrem-se em face da melancolia, fingindo-a. Talvez a convertam numa outra coisa, exorcizando a amargura que a todos algum dia atinge, porque demonstram invariavelmente bom humor, ou, como preferem dizer, alto astral. Por isso, não me lembro de as meninas demorarem mais de 10 minutos trançando-me o cabelo. As distracções já eram muitas além dos transeuntes enquanto esperávamos: a moldura da cidade com o mar por dentro, a Urca unida por fios com carrinhos ao Pão-de-Açúcar, os campos de jogadores na praia, os vendedores de água de coco e os prediozinhos alinhados ao longe. No mar estava escrita uma cidade, uma cidade muito cheia de clichés mas o Rio de Janeiro tem direito a isso tudo e mais. Há uma imensidão de paisagens quando se olha do Corcovado. E Cristo de braços abertos a abraçar o céu e toda aquela cidade que deslumbra, única, mais bonita do que os postais mais bonitos e as fotos mais carregadas de efeitos. Vale a pena corrermos a todos os recantos porque as diferentes perspectivas são lindas e cheias. Então lá estava eu, Carlos Drummond de Andrade, e a Flávia, num banco em Copacabana. Já lá vão 10 anos e parece-me que foi muito mais tempo atrás. Isto há-de querer dizer que eu aproveito o tempo que passa, enchendo-me com o novo para sobrepor nas várias memórias da minha vida. Para quem lê, esta estória podia ter sido ontem. Felizmente, nada, de facto, se sobrepõe. Simplesmente cada coisa fica no seu lugar, ou então, as camadas estarão lado a lado num espaço estranhamente sem geometria temporal. Como aquele mar sem fronteira, que é o mesmo mar agora e já anunciava a cidade antes do Rio nascer.

Em frente ao Copacabana PalaceTrancinhas - CopacabanaTrancinhas - CopacabanaDrummond e eu - Copacabana