Pentear ideias e entrançar ideais

Já perdi a conta dos meses que se passaram desde a última vez que entrei num cabeleireiro. Tanto quanto recordo irei a caminho de uns dois anos. Não aprecio a experiência e não encontro mais-valias na transformação: o antes e o depois da aplicação do champô, da ampola, da passagem do secador e da placa. E depois há o tempo despendido nisto. É mais ou menos como passar a ferro os lençóis da cama ou as toalhas de banho, sabendo que basta um pouco de amaciador para subtrair a rigidez aos tecidos dentro do tambor da máquina. Ao longo da vida, fui aprendendo o que são para mim coisas importantes e a questionar os ensinamentos que me foram passados. O que é que eu gosto, o que não gosto. E eu gosto de ver as ondas dos lençóis na cama, que podem ser o rastro do amor, ou do sono, do sonho, mas os vincos do ferro não têm ligação humana com a vida, não indiciam toque. É como se o ferro a altas temperaturas retirasse a presença orgânica que gosto de imaginar entre a trama e o urdume. Gosto de rir da verdade e do que dela nunca se chega a saber, gosto de enfunar responsabilidade às minhas decisões e de levar calor às coisas de modo mais ou menos descomprometido. Por esta razão, além das actividades do cabelo, escuso-me também às unhas de gelinho, primeiro porque não me identifico com unhas compridas, segundo porque (ao contrário do que se diz) são uma real fuga à liberdade feminina dada a frequência da manutenção. Isso e a obrigação da tinta para cobrir as raízes, à qual também ainda não sinto necessidade de aderir. De toda a maneira, se for para tornar o cabelo mais curto, a Sara tem talento com a tesoura e, seja na casa dela ou na minha, resolve-me a questão em poucos minutos. Outra coisa bem diferente é o cabelo entrançado. Sempre tive uma predileção por esse estilo. Acho que não fico mais bonita mas sinto-me permanentemente penteada. Gosto de trancinhas e uso regularmente. Mas para realizar as que começam desde a raiz, muito finas que nem precisam de elástico nas extremidades, para essas, preciso da ajuda de uma africana. E não são difíceis de encontrar africanas que saibam fazer trancinhas a comercializar o serviço; estas tecedeiras de cabelos montam as suas bancas normalmente junto à praia e têm sempre clientes. Prezo receber a alegria delas que sinto passar-me desde os dedos para os fios capilares. Basta-lhes um borrifador nas mãos e normalmente cantam. A verdade é que as africanas não debitam conversa circunstancial como nos cabeleireiros, onde todos têm – na ponta da língua – dicionários de palavras fatigadas de informação. Em inglês diz-se small talk, quando usamos palavras sem cuidado nenhum, sem verdadeiramente as escolhermos, revestindo-as de excesso de detalhes antes de as expulsarmos da boca; e, conversar não é isto. Prefiro o silêncio. A ideia de que para existirmos temos de saber falar sobre tudo, concordar ou discordar dos outros, frequentar cabeleireiros, ou pedir um empréstimo ao banco para cumprir uma vida normal, são noções sociais. Tenho outras ideias na cabeça. Prefiro ouvir as pessoas da minha vida, essas interessam-me muito, e gosto de escutar o mar, o vento, entrevistas, pod casts e com os olhos perscrutar o cofre dos meus livros, muitas vezes inteligências de outras épocas. Serão coisas menos importantes, estas que não andam já na boca do mundo? É preciso distinguir se queremos viver as nossas preocupações a 5 ou a 1000 anos. Contudo, mantendo os pés no presente, sem nos deixarmos consumir pela televisão e pelas manchetes dos jornais ou a vida acabará por se transformar num pântano que é preciso atravessar. Interessa-me muito mais estar atenta ao resto, para não perder aqueles instantes mágicos de luz do fogo-fátuo. Hoje a Tori Amos faz 59 anos. Verifico que o cabelo vermelho deixou de o ser, mas nunca me hei-de esquecer da cover do Smells Like Teen Spirit e quando a tocou em Montreux, no início dos 90’s, a versão mais sensual alguma vez conseguida de uma canção pop. Aprendi que interpretar uma canção não se trata de a copiar mas é dar-lhe outra vida, como pode ser reproduzir um quadro. Gosto da arte da recriação e ainda agora estava noutro continente a falar de cabelos mas escrever, para mim, está em muito no prazer de despentear um texto. Confesso que acabam por me interessar muito as coisas simples do mundo, não tanto providas de poder e de discursos gloriosos, ainda que possam ser assuntos de um documentário. Ou então valorizar a troca de palavras quando alguém te fala sobre si, mas te fala mais a fundo. Como dizia a Elis Regina “Às vezes, no simples se relacionar com um jardineiro aprende-se mais do que lendo Marx.“, basta ouvirmos o outro com atenção, e a sua experiência pode ensinar-nos mais do que um milhão de teorias. E aí temos de nos envolver, partilhar a nossa versão de o que é fazer o bem. Penso que a grande transformação da sociedade, começa numa conversa de café e não nos microfones da Assembleia da Republica, daí a responsabilidade de partilharmos a nossa versão mais clara e de vermos as coisas do ponto de vista colectivo, do bem de todos. As africanas que me trançam os cabelos não leram Rousseau, nem Voltaire, não vêem noticiários, mas elas falam dos seus filhos e dos membros da família como se fossem artistas de cinema e maiores que o mundo inteiro. As africanas choram de espanto se lhes puseres o Pavarotti a cantar o Nessun Dorma, não têm filtros de habituação na forma genuína como reagem às coisas, como quando éramos crianças e não pensávamos muito no porvir lá mais para a frente. De qualquer forma há diferenças, que vão muito além da cor da pele, entre os povos frios do norte e estes do sul. Dizem que é o calor que nos distingue nos trópicos e sou obrigada a corroborar a afirmação, pelo menos tenho experienciado um certo fenómeno causado pelo sol que se manifesta de acordo com a genética. É um facto que em África, o cabelo ao calor faz-nos suar permanentemente. Porém, a textura dos cabelos das negras é totalmente diferente e o modo como crescem ainda evidencia melhor as diferenças. Naquele caso, há uma juba que se forma da raiz para as pontas. Nas caucasianas, o cabelo obedece às leis da gravidade e cai. Mas é possível entrançarmos ambos os tipos de cabelo. Em África e no Médio Oriente as mulheres preferem os postiços. Mesmo que sejam cabelos verdadeiros são postiços sempre que passam a aplicar-se nas cabeças não originais. As extensões são práticas de colocar e transformam completamente o rosto das utilizadoras. Quando trabalhava no Uganda não reconheci uma técnica da minha equipa porque, de um dia para o outro, a Betty que tinha uma farta cabeleireira de tranças, entrou no meu gabinete com o cabelo pelos ombros esticadíssimo. Reconheci-a debaixo da peruca pela simpatia e pela voz doce. Nunca cheguei a conhecer como eram na verdade os fios que a natureza lhe dera para cobrir a sua cabeça. No Brasil, enchi-me de tranças em frente ao Copacabana Palace. Aquilo durou 2 semanas. Seguiu-se a Martinica. Agora faço poucas, as suficientes para me manter penteada e não permitir que o cabelo liberto me venha para a frente dos olhos tapar alguma visão do vasto mundo.

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