Viver é envaidecer

Penso que todos gostamos de fotografias e de estórias, boas estórias. Eu gosto de escrever e de partilhá-las, mas as melhores ficam só comigo: as mais íntimas, as que tirariam outras pessoas da sua privacidade, e embora não o pretendesse sei que relatá-las me encheria de presunção. As más, confesso que também as reservo, na enclave das aprendizagens, onde guardo as ideias sobre as emoções e os sentimentos, numa espécie de biblioteca onde a atitude se vai afinando. Quanto às piores, essas nunca as escrevo e tento condená-las ao malogro, confessando-as uma e outra vez, na esperança de que fora da minha boca se volatilizem. Depois existem as outras, aqueles pequenos excertos épicos da vida em que pensas “viver é isto” e, na verdade, sempre que somos protagonistas de episódios realmente especiais eu até sinto que viver é mais do que simplesmente viver, e admito para mim que: “viver é envaidecer”, pois dá-se o acaso de ficarmos vaidosos pelo bafejo de sorte sempre que a vida é melhor cumprida. E esse sopro da Providência que entrega mais vida à vida, essa energia que te chega do lado do bem e que deves saber aproveitar, dá-te outra camada de brilho, outro fulgor, e nesse instante passas a mortal incomum e um incomum mortal distingue-se dos outros.

Tenho também boas estórias que vivi por observação, por simples testemunho sem que nelas tenha participado a não ser através de um sorriso cúmplice ou de um esgar condescendente. No baú destas histórias há muitas que me ensinaram algo, às vezes coisas muito importantes e gostava de nunca as esquecer. Quando vivia em Hartlepool, visitava Newcastle com alguma frequência. Não eram dias particularmente marcantes pelo que posso conferir no meu registo de imagens de então: uma passagem pelo Graiger Market, as ruas com bandas ao vivo, até uma carroça onde por 3 libras o destino se profetizava e claro o Arco Chinês em frente ao estádio a desvelar a gesta da cidade; mas, de tudo o que poderia ter experienciado ali, há 7 anos, sobrou-me uma estória que teve lugar dentro de um restaurante asiático: o KeCo Buffet na Gallowgate. Sei que foi em Janeiro de 2015 porque na altura colaborava activamente na plataforma Yelp e pude com facilidade confirmar a data.

Era Inverno e o meu grupo e eu estávamos sentados ao lado de uma mesa onde havia uma mãe e uma filha. O pai chegou um pouco mais tarde e foi recebido com imenso contentamento, diria mesmo que em festa, como se aquele triângulo de pessoas fosse o princípio e o fim do mundo deles e mais ninguém lhes fizesse falta. Comecei por prestar-lhes atenção porque a menina era daquelas crianças efusivas cuja alegria cintila no rosto. Parecia uma pequena boneca, vestida de rosa claro com os cabelos pouco espessos, loiros, divididos em dois tótós e uns olhos azuis muito expressivos. A menina deveria ter uns 3 anos. A forma de interagir com a mãe baseava-se em falar quase sem parar “mammy this, mammy that, mammy mammy mammy” dando pequenos saltinhos do assento com a força da pequena coluna que inclinava para a frente sincopadamente. Os pés ficavam longe do chão mas parecia confortável. Tanto o pai como a mãe mantinham nela uma atenção constante. Praticamente não dialogavam entre si, com o cuidado de lhe responderem, e de lhe projectarem toda a sua dedicação. A menina ria muito. Lembro-me como se a estivesse a ouvir neste momento. Aquele seu riso era felicidade em estado puro, puríssimo, e o exteriorizar desse júbilo era epidémico, contagiava-nos a todos. É curioso que não tenho a mínima memória da conversa que se encetou na minha mesa nesse dia, mas guardo plena noção do quanto a sala estava animada. Portanto, o almoço decorreu normalmente com a variante da alegria daquela família ser a banda sonora do restaurante. Quando chegaram à sobremesa, os pais brindaram a menina com um gelado de cone com várias bolas, o que a deixara ainda mais radiante. Rapidamente se denotou gelado no queixo, no nariz, a cair para a roupa, para a pele da cadeira mas ninguém parecia importar-se. Todos sorriam saudavelmente do que poderia ser considerado uma falta de etiqueta caso a família fosse outra, mais severa, mais austera. Finda a sua refeição, há um momento, em que o pai, descontraidamente se levanta para ir ao toilette. Deve ter demorado uns 2 minutos; a menina instintivamente e cheia de risos genuínos ao deixar de ver as costas do pai, num impulso, verte o cone do gelado em cima da cadeira dele deixando cair o que, em volume, eu diria corresponder a uma bola de gelado e meia. A mãe assiste e arregala os olhos ao máximo, levando as mãos à boca aberta em oval numa expressão similar ao Grito de Munch, porém, ao contrário do quadro, totalmente desprovida de horror, mas cheia de marotice. A mãe parece alinhar na brincadeira, fazendo com que a criança ria cada vez mais alto. Nisto o pai regressa e faz-se algum silêncio. O casaco da cadeira não o deixa prever a borradela que eu antevia do meu lugar e senta-se. Ao instalar-se é a euforia total. A menina ri, mas ri com o corpo todo. A mãe ri perdidamente. E o pai, titubeante pela reacção delas à sua chegada, mas apercebendo-se do efeito frio e húmido da mistela de gelo já atravessando-lhe o tecido, levanta-se para verificar o que sucedera e todos quantos nos encontrávamos na mesma ala do restaurante vemos as calças irremediavelmente cheias de gelado a escorrer por ali abaixo. E aqui é o instante em que todos aguardamos a próxima acção do pai. O melhor é nem ver, pensei, provavelmente, vai dar-lhe uma palmada e deixar a menina a chorar. Mas, numa reacção naturalíssima, ele desata a gargalhar olhando a menina e aumentando o divertimento generalizado com foco naquela linda família. No restaurante em volta todos rimos em coro, sem ponta de troça, mas em plena concórdia com a graçola da menina, a conivência da sua mãe e a benevolência do pai. A harmonia vigente da união daqueles três vértices só podia ser amor. Aquilo era viver, sem ponta de farsa, sem gabarolice mas com o envaidecimento natural daquela circunstância: o júbilo, e o estado de graça. E eu, que toda a vida tinha ouvido dizer que os povos albiónicos eram frios, libertei-me nesse dia de um grande preconceito.

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