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Jerusálem é inspiração

Cidade da Paz, Jerusálem é um não acrescentar de palavras, pois já se diz além. Além do esperado, além do que nos ensinam, além do que cabe na fotografia, e além de tudo o que já escrevi. Ao entardecer em Jerusálem, é ainda bom deambular e beber sumos frescos. Sentar, pelo prazer de apreciar quem passa, de observar a alegria dos transeuntes estampada numa face que brilha e num olhar que sorri. E olhamos luminosos uns para os outros como quem confirma “Também sabes como é bom aqui estar“. Na pretensão de, por breves momentos, se conhecer os desconhecidos. Depois, reparar melhor nas praças, nas pedras da rua, nas lojas, nos seus objectos expostos que também brilham. Como se a essência da fé se cruzasse entre nós e as coisas. E fosse isto sentir o regozijo de olhar em volta e voltar a olhar só para ver tudo melhor outra vez. Por que Jerusálem é uma razão de existir assim, única, é uma timeline naquele ponto particular do espaço onde tudo se conjuga. Tem magnetismo, e pede ao coração para não ter medo. Tem a energia das crenças públicas, dos símbolos, e de uma visão divergente da história que leva a tanto e a nada. E, nela, sente-se um prenúncio de futuro incerto.

Dizem que devemos agradecer. E, por isso, um parágrafo para respirar esta gratidão. Dar graças por estes momentos dentro da minha vida. Por existir na oportunidade de fazer as coisas que fiz pelas razões fora dos sentidos habituais. Comprei o lenço da Palestina (o Keffiyeh militar) sem acreditar no simbolismo político associado ao tecido. Visitei muitas igrejas. Vi coisas incomuns. Cheirei aromas novos. Trouxe a fortuna de hamsá. Aprendi a tradição dos azulejos que marcam as ruas da cidade velha. E Jerusálem foi ainda o lugar onde fiz uma coisa que disse que nunca faria. Fora das muralhas é uma cidade menina, em crescendo moderna, onde os bairros se sucedem: os restaurantes, os hotéis, os bares, os movimentos cosmopolitas. E onde mais de perto o Sol se deita para nascer no dia a seguir. Fora da cidade, vieram outra vez as montanhas agrestes e as placas trilingues do caminho de volta à Jordânia, e com ela o serviço VIP da fronteira para ser mais fácil atravessar a ponte Hussein e, a seguir, apanhar o táxi para almoçar em Amã e depois seguir até ao aeroporto para regressar ao Koweit. E apesar da dificuldade em ali chegar, é o primeiro lugar onde senti que irei provavelmente voltar e de onde nunca irei sair.

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Jerusálem

Passar a fronteira entre a Jordânia e Israel, foi o começo de uma grande aventura do final de 2019. Por isto, e por tudo, tenho de ser grata à vida. As experiências pouco planeadas como foi esta incursão na Cidade Santa plantada nas montanhas da Judeia, que aconteceu na manhã de uma outra noite passada na Jordânia, dão um sabor especial ao meu dia. Tudo começou com uma hora de táxi desde o hotel em Amã. Seguiu-se o serviço “VIP” que facilita a travessia evitando os autocarros, e torna o processo muito menos moroso. (A sala de espera não faz jus ao nome. Trata-se de uma área de sofás em napa e pequenas mesinhas onde nos servem café arábico ou chá, e onde nos sentamos à espera que nos chamem pelo nome.) Mas depois de entrarmos na van, percebe-se a vantagem da diferença de valor atribuída ao serviço: o motorista encarrega-se de mostrar os passaportes nas diversas instâncias de paragem até Israel e as patrulhas na fronteira apenas perguntam directamente se transportamos armas. Depois, o trajecto é feito de montanhas de rocha, áridas, quase sem vegetação, que se vêem fora do arame farpado, numa extensão de quilómetros. No terminal em Israel, o processo é complexo porque o inquérito é rigoroso. Convém ter o booking do Hotel em mãos para justificar o propósito da estadia, mas há assistentes americanas com aspecto de trainees a facilitar a chegada ao país. Finalmente é concedida a autorização de entrada (através de cartões com o visto independentes do passaporte) e pode apanhar-se um táxi directamente dos serviços no terminal e seguir até à cidade antiga, escolhendo uma das portas. Damascus Gate, tornou-se o meu portão de entrada no quilómetro quadrado mais interessante do mundo. Porque as muralhas que circundam Jerusálem escondem os segredos de um lugar controverso, instável, que alberga 3 religiões entre empedrados com 5000 anos. A atmosfera em redor dos pontos mais visitados é contagiante. Principalmente, junto da Church of the Holy Sepulchre. Mas o ponto imediatamente reconhecido (visível da via rápida, junto à vedação com a Palestina que também se vê) é a cúpula dourada da Rock of the Dome. Um lugar vedado a não-muçulmanos. Além dos pontos edificados repletos de significado, existe uma outra energia inesgotante que é a das multidões, e, atrás das pessoas, as portas abertas que ladeiam as ruas estreitas por onde as pessoas passam: o brilho colorido organizado das lojas de souvenirs; e a fruta liquida servida num sumo acabado de fazer; os tecidos; as fotografias de época; a originalidade dos objectos que só se encontram ali. Depois de experimentar o sabor da cerveja israelita, paramos no bairro Judeu, ao lado da Sinagoga para almoçar. E observar melhor o rebuliço geral naquela mistura particular de pessoas, perceber o seu estado de desenvolvimento, ver a satisfação entre os jovens que cantam e dançam, e os outros que parecem carregam nas feições uma tristeza antiga. Mas há nestes uma atmosfera espiritual que se percebe na própria postura do corpo que anda. Alguns grupos identificados com as mesmas vestes e cartões de identificação “Pilgrims to the Holy Land“, assumidos seguidores de doutrinas religiosas em procissão. E encontram-se pessoas diferentes, nos diversos quadrantes. Muçulmanos (desde o portão onde entrei), cristãos, e judeus, incluindo os mais ortodoxos que, ao entardecer, se identificam melhor a caminho da Western Wall para as suas preces. Fora das muralhas, continua a haver movimento na Torre de David em frente à Jaffa Gate com uma lua já presente no céu. Famílias judias caminham juntas. E experimento a fotografia em preto e branco para os devolver ao tempo a que ainda parecem pertencer. Atravesso as letras do amor por Jerusálem no caminho para o Hotel com o coração cheio. E depois de todos os sons do dia encontro um piano já a dormir no meio da praça, onde se lê (em francês) a palavra Obrigada.

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Madaba, Amã e o Adhan

O Adhan na Jordãnia tem uma sonoridade mais suave. Porque é um país também mais leve, mais solto. É, como eu já disse aqui, uma bandeira que se levanta para dançar. Onde parece mais fácil ser feliz. E ir ali é perceber que a serenidade também existe no Médio Oriente, onde as crianças afinal sabem sorrir. Onde as cores são mais vivas e as pessoas menos escondidas nas suas vestes, como se se pudesse ser melhor aquilo que se é. Talvez seja apenas um pouco mais de liberdade com que se caminha nas ruas. Ou a história de um passado que se celebra a céu aberto. E outra estória desde as montanhas até Madaba, com a cor castanho-clara do monte e Oliveiras agarradas à terra que não nos deixam esquecer que não precisamos de nada, além de braços para nos equilibrarmos firmes nos nossos corpos e que esse tanto seja só Amor. Porque Madaba é um lugar espiritual. Visitei a igreja grega de pedrinhas coladas de mapas-mosaico no chão, para ter uma primeira experiência ortodoxa. E senti-me mais alinhada com a vertente herdada do império bizantino do que com a talha dourada e o relevo trabalhado das figuras bíblicas a que me habituei a fugir no catolicismo. Já os sabores da Jordânia ficam na memória. Haret Jdoudna é o sítio obrigatório que se encontra uns cem passos à esquerda se estivermos a sair da igreja, e atrás de portões largos em madeira numa espécie de jardim interior, num restaurante que nem parece um restaurante (como ele o descreveu), enquanto procurávamos esse lugar para almoçar. Madaba é também lugar de carpetes, de artesanatos, de mashadah vermelho e branco (e é assim que se coloca: 4 voltas no mesmo sentido e pousar nos ombros), malas com motivos de camelos e deserto. Uma cidade com ruínas de impérios distantes semi-perdidos pelo tempo e semi-recuperados, sobre os quais se contam lendas. É uma cidade pequena que recebe e encanta. Amã, mais tarde, tem muito mais para surpreender, há a desorganização e o ruído do trânsito, o turbilhão dos táxis, mil e uma lojas abertas, as gentes que ali chegaram e que agora ali pertencem, a mistura da religião, a contaminação americana das t-shirts e dos bonés que falam de globalização, o pechisbeque dos antiquários egípcios à mostra nas montras da rua, e, a contrastar, os pozinhos de areia colorida dentro dos frascos acabados de fazer para recordação de algo tradicional mas logo, ao virar da esquina, o esplendor do anfiteatro romano. E fico a pensar: Quantos mundos dentro de um pequeno espaço de mundo?

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Amã: a cidade e a cidadela.

Amã: a cidade e a cidadela. A cidade colorida à cidade antiga. O taxista não percebe a indicação em inglês Citadel e (depois de algumas voltas até subir a alta colina que termina na entrada da Cidadela guiada pelo googlemaps) declara junto da entrada; It is OK. Esta expressão na Jordânia significa que se deve pagar o que se achar justo. Aceite a oferta, saio do carro. Antes de entrar na cidadela olho ao longe, cubos com massa da cor do deserto com pontos de janelinhas. E, em cima, a bandeira que aguarda o vento para exibir um país e uma estrela que podem ser os 7 versos do Corão ou as 7 colinas da capital. Os pontos mais importantes são as ruínas Templo romano de Hércules, o Museu onde se visitam objectos desde a Idade da Pedra e o Palácio recuperado da dinastia Omíada, de 730 D.C. Do alto da cidadela, a vista da cidade é feita de contrastes. O caminho para o hotel é a descer e faz-se a pé.

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Monte Nebo e a Holy Land

Não há tradução para isto. Ou, se a quisermos: Terra Prometida, mas, ao dizê-lo assim parece torná-la um pouco menos sagrada. Antes disso, a noite anterior. Chegar ao hotel e largar as coisas para fazer o reconhecimento de Amã: As ruas coloridas, vendedores ambulantes de shisha com bancos improvisados no meio da praça. Lojas de artesanato e bugiganga em Rainbow Street de onde trago um elefante de tromba erguida. (Dizem que se a tromba estiver para cima, dão sorte.) Depois, os restaurantes, o trânsito, a fila dos Quebab, e um bar. Não me lembro do nome do bar. Não tenho fotografias da entrada mas recordo o rooftop e a energia das pessoas. Aprendi nesta noite que os árabes jordanianos são diferentes dos árabes que conheço do Médio Oriente. Na Jordânia, os jovens dançam e cantam e não se importam de se mostrarem felizes aos estranhos. A música não é sombria, é destapada como o rosto da maioria das mulheres. Talvez por não perceber árabe e o que os árabes dizem, possa prestar-lhes a devida atenção. Não disperso na tradução, nem em buscar sentidos para perceber o que dizem. É um ouvido novo que escuta a música do bar e a das vozes que conversam e riem mas a minha atenção está no que olho e vejo. Será a diferença de um país que permite a venda de álcool? Regresso ao Hotel contente. Amanhã o dia será longo. É a subida ao Monte Nebo.

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De táxi tudo parece perto, mas entre o Hotel e uma das partes centrais da Bíblia, separavam-se cerca de 40 quilómetros. O que foi equivalente a uma hora, até Madaba. Até abraçar o menir onde ficou Moisés e entrar na Basílica reconstruída. Entendido no chão e retido nas paredes, resiste o mosaico recuperando os desenhos ao passado. A arquitectura sóbria das madeiras e o cheiro a novo das obras de recuperação, anula um bocadinho o tempo. Mais à frente, sinto o mesmo entusiasmo no museu. Atá lá as oliveiras frondosas vão abraçando o calor árido da paisagem. Mas o que sinaliza o lugar é a cruz de ferro de Giovanni Fantoni que tem uma serpente envolta. E nesse lugar do monte ou, do cimo dos muros de pedra, vislumbra-se o firmamento. Tudo o que os olhos alcançam numa pedra 800 metros acima do vale. O mar morto a oeste e, na planície em frente, o Monte das Oliveiras e Jerusalém, entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo. Terra onde pertencem várias terras. O lugar mais espiritual do mundo para cristãos, judeus e islâmicos. Continuo depois o puzzle de pedrinhas. Mais tarde iria ver estes mosaicos transformados em desenhos feitos à mão, pinturas e fotografias de pedra, numa técnica de corte e cola sobre tela. Este passeio foi um sonho que não sabia que tinha até o viver.

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