Declaração de Agosto

No início, cada frame é como uma obra do Noronha da Costa. Tudo meio difuso mas que se sente perfeito. À pintura falta-lhe o foco e contemplámo-la tal como está. Porém a vida é movimento, inquietude, e interessa desvelar cada momento, torná-lo nítido. Em fotografia, foco é profundidade de campo, e profundidade é uma boa palavra para trazer a este contexto pois carrega algo mais à frente, mais ao fundo: tempo, conhecimento. Ou seja, estórias, projectos, sonhos, aromas, outros sentidos e tudo o mais que possamos evocar. Mas, quando começa, apetece consumir de imediato, gravar dentro de nós para passar a fazer parte. Como o gozo de tirar o doce do forno e levar à boca ainda quente. Em essência, é um acontecimento feérico a chegar-te ao colo numa bandeja dourada quando encontras alguém que na presença de quem és, por alguma iluminada surpresa, cria em conjunto contigo esse embelezamento. E esse bem-estar epidérmico ou químico ou cósmico serve para sublimar a nossa existência, usufruir melhor da vida. Cada dia vão-se acumulando uma série de felicidades simples e essa beleza somada substitui o ar que quero levar aos pulmões. Então sem hesitações: uma garrafa de vinho e falas, eu silencio. Olhas, eu observo. Depois trocamos. E, porra, fazes-me rir. É um automatismo reflexo. Apanhas-me. Pouco me importa se não havia intenção, a verdade é que me apanhas em três horas que parecem três minutos. Mais um copo a fechar e já estou assombrada e sem absolutamente sombras nenhumas, é tudo clarividência e confiança. Podia ser sempre assim com toda a gente, mas é uma espécie de cometa que passa raramente. Ainda por cima é Agosto. Portugal está de férias. E bastou uma noite para na manhã seguinte já pulsar de outra maneira. É Agosto e a Terra já não chega, apetece voltar a explorar os astros e a sua correspondência. Mas um ser humano é um relato imenso e tudo o mais que ele não diz.

É tarde. Estou a ouvir o Evening dos Tin Pan Band e a pensar como também é bom agarrar o silêncio contigo. Ver o sol a descer. Aqueles poucos instantes em que vermelharia até que se escondera, depois olhar a praia desde a falésia à direita com o teu abraço por trás. As ovais angulosas da praia que a natureza ali montou: adoro as matizes do céu com o mar e a areia por baixo. Podia ser uma fotografia banal de Agosto, depois da saída do sol e antes do turno da lua, mas ali tudo é exultação.

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