A cavalo por Viñales

Para encerrar a viagem a Cuba, decidi seguir para Oeste, a cerca de 180 quilómetros de Havana, numa tour de 5 horas a cavalo pelo Parque Natural de Viñales, com paragens numa plantação de tabaco, almoço e belíssimos miradouros. Tenho muitas vezes vontade de sentir a natureza a avançar sobre mim, pois quando estamos muito tempo sem sair da cidade, há uma certa pressão para ficarmos mais formais, mais compostos, naquele estado que nos faz pensar na forma como caminhamos, como nos vestimos, nos penteamos, e nos apresentamos aos outros, por sermos constantemente observados, num à-vontade relativo em que nos preocupamos talvez demasiado com os olhos das outras pessoas, e esses olhos são apenas consensos. Ocorre-me sempre a obra Les Yeaux de Vieira da Silva quando penso na metrópole e como nos sujeitamos ao julgamento externo. Há um modo de viver idêntico na cidade no qual se vai perdendo a identidade, sem darmos conta disso. As sociedades fazem isto de nós e a vida segue, por isso, é tão importante habitarmos lugares diferentes e viajar muito, de preferência onde não nos sintamos privados de liberdade. Para perder a liberdade, que seja apenas no desejo de nos agrilhoarmos a um outro porque o amor é a melhor das prisões e o único cárcere voluntário. Assim, antes que a memória se dissipe com memórias mais recentes, quero falar de Viñales.

Em Viñales há poucas pessoas, a terra é vermelha, há campos de tabaco e de milho e montanhas características que são os “mogotes“: formações de calcário agigantadas cobertas por vegetação. Há um certo apelo na grandeza desta natureza que sai à rua vestida de verde. Parece coisa feitas de pincéis mas, olhando assim, compreendo que possam existir prodígios maiores do que o homem. Além da terra que se abre em frente, reinam apenas duas forças: a luz e a gravidade e isso sente-se. Depois de uma carroça me recolher junto do estádio de beisebol, dirigimo-nos ao vale. Não me agrada que o condutor use uma corrente-chicote para ordenar ao cavalo que puxe a carroça, mas a verdade é que o faz para que o cavalo não pare de andar. Tento não pensar muito nisso com esperança de que o percurso seja curto mas não consigo evitar aquela reflexão de que os cavalos deixaram de ser selvagens para nos servirem, e pergunto-me: que sentido faz isto nos dias de hoje? De resto, também eu vou andar a cavalo sem saber a vontade do animal em carregar-me. Curioso estar a pensar nisto quando a carroça está prestes a chegar ao vale e já se antevêem os animais em espera, imóveis, com as rédeas presas nos troncos de árvores. O cavalo que me é atribuído chama-se Coco Loco, porque, segundo as palavras do guia, “não é muito certo, é um pouco louco”. O nome do cavalo é suposto ser o som que o define. Acho um piadão ao nome a acreditar na personalidade do equídeo; penso que foi bem escolhido para mim. Acaricio-lhe o dorso, as crinas, o chanfro. Para meu consolo espiritual, quero que tenha vontade de me transportar. Isso é o mais importante. Não sei como convencer um cavalo a ter vontade de me carregar no dorso, em vez de ser eu a impor-me sobre ele, mas gostava que a experiência acontecesse assim. Em todo o caso, é hora: insiro o pé esquerdo no estribo esquerdo; apoio as mãos na sela e subo. Acaricio-o o mais que posso já sob a sela e antes de começarmos a andar. Agora somos os dois qualquer coisa que se criou. Debruço-me sobre ele, falo com ele. A minha expectativa é travar algum grau de confiança apesar de nos termos conhecido há poucos instantes. Quero que Coco Loco concorde com o passeio. Não tenho pressa. Detesto e condeno a brutalidade desabrida com que os homens dominam os animais. Eu tenho tempo. Espero que as minhas carícias sejam sentidas: o acto de montar um animal não pode ser uma coisa mecânica; para mim tem de existir alguma ternura, não basta a domesticação. Vamos juntos para qualquer lado, portanto, quero que o cavalo seja solícito; quando eu puxar a rédea para esquerda quero que ele concorde seguir para a esquerda comigo, quero que ele avance de forma e vontade mais ou menos voluntária. Contrariar um animal faz-me querer desistir da experiência. Venho cá tentar que a sua jornada se alinhe com a minha, sem domínios de um ser sobre o outro, para nessa concomitância poder elevar o meu estado de gratidão em relação ao passeio.

O percurso vai-se fazendo ao vagar do cavalo, ora caminhando ora a galope. Quando o guia estala a língua no céu da boca, todos os cavalos correm. Parece que vou cair e aperto as pernas contra a sela encolhendo-me um pouco para baixo mas, apesar do risco, é impossível parar de rir. O sol move-se sobre as árvores. Quando chegamos à plantação de tabaco, aprendo a fumar um charuto com mel cuspindo o fumo para o ar. Naturalmente que me divirto muito mas não será uma prática para levar dali. Está um calor muito intenso a desprender-se de qualquer parte como de um forno. Almoçamos sem pressas nenhumas e com muito gelo nos copos. Tiramos fotografias no campo exalando os cheiros aromáticos da terra. Os cavalos esperam como máquinas paradas mas tento não me entregar a essa ideia. Após cerca de uma hora voltamos a montá-los. Concordamos em atravessar um lago onde os cavalos se refrescam e nos molhamos até aos joelhos. Morremos a rir. Os ténis e as meias ficam cheios de lama. Parece que nos deixamos desfermentar e voltamos a ser crianças. Mas rimo-nos muito. Rimo-nos tanto que olhamos para nós e nos vemos sujos de felicidades. Haverá melhor que isto? Mais tarde, paramos no Valle El Silencio, para secarmos e regenerarmos o espanto com um novo lugar que consola o espírito, dotado de uma beleza natural que alimenta. Sento-me nas traves de um banco a contemplar a vastidão do vale de barriga cheia: é o almoço, o contentamento de ali estar, e a capacidade de ver beleza em tudo. Passa uma aragem que é um milagre mortificado de verão, e a vida torna-se tão simples quanto o é na realidade e nem sempre a sentimos assim. A liberdade de ter este tempo para me pôr em pausa faz-me feliz. Ficar no presente faz-me feliz. Aceito-me com os pés descalços sabendo que as meias e os ténis não vão secar até chegar a Havana. E é isto a vida a valer. A felicidade torna-nos patetas, vulneráveis e talvez um pouco mais humanizados.

%d bloggers like this: