“São Paulo é um Bouquet”

No Brasil as mesmas palavras da língua portuguesa vestem-se de significados diferentes. E é através da sua roupagem que vemos a alma das gentes. É o som louco das palavras que cantam mais do que falam. O ão aberto de São. Ou a boca a abrir-se ao dizê-lo. E o de Paulo a dar-lhe um sinal embandeirado da altura dos Pês dos Prédios. Porque eu vejo bandeiras em toda a parte. Talvez esse orgulho no pano verde e amarelo seja amor. E talvez seja o amor que defina um povo. E ali o amor todo em bandeiras. É que a vida agita-se na cidade e na vertical. Os prédios são bem altos. Levantamos os olhos aos graffiti tatuados nas fachadas. E em baixo, a vida também se embaralha. As ruas estão inchadas… de vida. Só vida. Tanta. Imensa desde a ponta dos pés vivos que caminham até ao mais honesto olhar que se adianta ao fundo. Lá mais à frente, íris jogadas berlindes dobram já esquinas na Paulista. O MASP é como um grande banco de cimento para se parar por um momento entre o passado e o presente. Há milagres expostos (Modigliani, Van Gogh, Renoir, Degas, tantos: um espólio que comove quem aprecia tudo isto) e no mesmo espaço peças de outros artistas modernos brasileiros, com igual relevo e sem qualquer destaque. Peças suspensas lado a lado apesar dos séculos que as separam, apesar do prestígio colado a algumas e do ainda quase anonimato de outras. Como um grupo de amigos a respirar o mesmo ar, juntos na mesma mesa, entregues à mesma comida, mesmo vinho no copo, porque os artistas vivem através das obras. Ali têm o mesmo valor, a mesma graça. E isto quer dizer muito.


É Setembro, é Inverno mas o calor colabora e levamos os braços sem mangas. Atravessamos o mercado empurrando a brisa cálida. Os prédios ladeiam tudo. Não dá para esquecer onde estamos. Basta erguer os olhos e é a selva urbana, a arte urbana. É a selva de pedra como lhe chamam. E apesar disso, os brasileiros abordam-nos. Entre bocas e bocas que falam e cantam. Encantam. Riem. Os brasileiros excedentes de vida mas carregando nos olhos alguma melancolia doce. Aquela parece ser a melancolia dos sem-futuro, dos sonhos impossíveis. Há um ano em Havana, senti que os cubanos queriam ser resgatados, mas os paulistas procuram ser abraçados e não querem fugir. Existem e pertencem ali, enchendo de beleza a cidade com aquela vida sem fim. Corações com um milhão de formas para nos conquistar.


Criolo diz que “Não existe amor em SP”, mas eu vi amor nas ruas de SP. E aquela língua sempre menina, meio-irmã meio-estrangeira, senti-a como um poema. Ele diz também que “São Paulo é um Bouquet” e este é um bom lema para esconder a cidade-surpresa, como um ramo que segue muito vivo até às mãos de quem ainda não sabe que o vai receber.

“Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com o doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você.”

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