Os Macacos de Gibraltar

No topo do Gib (ou rochedo) vivem os traquinas macacos-berbere. São eles quem nos chamam a Gibraltar, ou sou eu que faço deles pretexto para Norte da agulha bussolar. Mas se tivesse pesquisado melhor esta viagem de “4 dias, 4 países”, teria encontrado informação em abundância sobre o modo ali, em particular, como estes animais interagem com os humanos. Assim, fiquei a saber pela experiência que é frequente saltarem para as costas das pessoas, sobre as mochilas. Estão habituados a fazê-lo se nos aproximarmos o suficiente e isso aconteceu-me. Na verdade saltaram-me dois para a cabeça. Mas não me assustaram nem me fizeram mal. Tive de lhes dar tempo antes de os sacudir ligeiramente protegendo a cara com as mãos. Mea culpa mas gosto da própria natureza da Natureza que é intempestiva. E, de entre todos os animais do mundo, gosto especialmente destes, os macacos. E o rochedo é deles apesar de todos os intrusos-humanos que os visitam. Este episódio aconteceu a mais de 400 metros de altitude, no Top of the Rock de onde se vislumbra África – que dista apenas 20 quilómetros dali -, o Mar Mediterrâneo e o estreito de Gibraltar a correr no vasto Atlântico.

Antes disso, atravessamos a pista do aeroporto a pé, depois de erguermos passaportes na fronteira na cidade espanhola de La Línea de la Concepción onde ficou arrumado o carro. Caminhamos todo o sopé da montanha até junto do teleférico que, em apenas 6 minutos, leva cerca de 20 pessoas ao topo do Rochedo, fora o não contabilizado intervalo de espera. O bilhete para o cable car dá direito a várias experiências dissemelhantes ao longo da reserva natural: skywalk, a ponte suspensa de Windsor, e a esplendorosa Saint Michael’s cave.


A gruta de São Miguel é avassaladora, serviu de hospital na Segunda Grande Guerra, e agora é uma sala de espetáculos sem correspondência no interior da rocha. O jogo de luzes e o som ambiente resultado da instalação “The Awakening” convidam a ocupar uma cadeira do anfiteatro cuidadosamente organizado na subterra. Mas é o arcanjo esculpido nas rochas calcárias o fator mais assombroso: e, embora se assemelhe a um elemento alado simetricamente perfeito, a escultura não foi esculpida por ação humana, é uma obra da natureza com milhares ou mesmo milhões de anos de processos geológicos. Uma maravilha natural. Portanto, vale a pena deixar o mundo lá fora e adentrar na caverna.

Mas em Gibraltar há mais vida em território escavado ao londo dos túneis da 2ª Guerra Mundial que parecem não ter fim. Lá fora, a ponte suspensa e o skywalk em vidro permitem outras vistas magníficas do território e de além-mar. A magia está no visível. É a paisagem que se quer trazer com o olhar dos impressionistas. É a paisagem que envolve tudo. E é também a paisagem do rochedo, o real monumento que voltamos a admirar depois de pisarmos toda a escadaria descendente de volta às avenidas.

Na reserva vejo um sinal de perigo com uma Borboleta ao centro. Que fenómeno passado justificaria erigir-se tal poste? Desejei que uma colónia de borboletas aparecesse. Porém nem uma nos saudou. Apesar do sinal, nenhuma visão de frágeis asas multicoloridas, apenas sonhos.

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