De Tarifa a Tânger vai um ferryboat de caminho: é o estreito de Gibraltar. Dito de outra forma, cerca de uma hora e meia de viagem através da FRS dividem dois continentes por via marítima. As instalações da embarcação são boas mas não propriamente modernas. O chão alcatifado não surpreende. Estamos um tempão numa fila para entregar aos agentes do Serviço de Fronteiras os bilhetes preenchidos com a razão da visita. O barco arranca momentos depois. Está frio na área exterior devido ao movimento do barco então ocupamos lugares aleatórios na ampla sala. É hora de desligar o roaming para evitar surpresas. O barco oferece wi-fi gratuito e uma garrafa de água por pessoa. Da janela, abre-se uma paleta análoga de azuis: o céu refletido na água e o do próprio céu. Penso que vista do espaço a Terra é azul mas cá de baixo dir-se-ia que o universo diurno também o é. Miró ocupara-se com isto, Picasso ocupara-se com isto mas não são temas de que se fale. É o azul a ver-se lá fora e isso basta para que a vida siga. Então a vida segue e a saída para território marroquino faz-se de forma ordenada entre carros e peões. O porto onde atracamos não parece pertencer a África. Com todo o respeito que África me merece, esta é uma África a um braço de distância da Europa; outras Áfricas não são bem assim. O porto encontra-se praticamente vazio, muito limpo e bem organizado. Subitamente, o espanhol converte-se em francês. Temos um guia que abandonaremos ao final de meia-hora. Só precisamos de saber où on va se rencontrer e a que horas. Insistem para que sigamos juntos de van até à Praça dos Canhões, e descemos a pé para a Medina. Atravessamos um arco a separá-la da praça. Dizem-nos para estarmos às 17 horas no Gran Cafe Central e isso parece fácil. Tânger é pequeno demais para que nos possamos perder. São ruelas e ruelas de coisas, trapos e velharias. É o senhor que vende os pães porta a porta. São pães em círculo a passar de mão em mão. É o carrinho das garrafas de gás. E em qualquer loja que se entre sente-se uma certa pressão para comprarmos alguma coisa. Há peças muito interessantes que tornariam única uma decoração mas raramente há etiquetas com preços à vista. É preciso não esquecer que estamos em Marrocos. Depois de algum sobe e desce nos labirintos da Medina vamos almoçar comida típica apesar de eu tentar fugir ao Tagine. Ouve-se o primeiro Adhan a provir de uma das mesquitas mas o movimento na rua parece manter-se. Ao segundo chamamento, os muçulmanos já deverão estar ajoelhados sobre o tapete prontos para iniciar as orações. Enquanto isso, almoçamos já tranquilamente. Evidentemente que não há álcool para acompanhar a refeição; então bebemos chá quente, que por estar tão quente junto ao vidro dos copos, segurámo-los com papel para não queimarmos os dedos. No final o café, esse, bebemo-lo na rua. Há-de ser o melhor café dos quatro dias de viagem. Atravessamos depois o mercado dos locais; a peixaria é um must see mas não consegui encontrar discrição para a fotografar. Até era o ruído que gostaria de ter trazido em vídeo não era bem a fotografia do peixe morto. Além de tudo nas bancadas, havia um atum gigante no chão, esventrado, provavelmente cortado ali mesmo. Moscas por todo o lado. Era mais o ruído de quem fala sobre quem fala. Não sei como se conseguem entender mas os marroquinos comunicam de forma diferente. Falam por camadas mas entendem-se bem. Para lá da Medina as ruas estão menos limpas. As lojas não são tão interessantes. Continua a haver velheiros a expor as suas antiguidades. Mas as lojas tomam outro carácter menos turístico. Decidimos experimentar uns pequenos doces a vulso mas já distantes da Medina só se fala Árabe e a troca de euros e dirhams é mais uma cortesia do que um pagamento. Tentamos beber uma cerveja no Grand Café de Paris mas também não é possível. E o consumo dos sumos obriga-nos a ir a uma loja de câmbios pois ali não aceitam cartões; só dirhams. Às cinco da tarde já todo o grupo se acotovela no lugar combinado e seguimos juntos a pé até ao porto prontos para embarcar de regresso a Espanha. À chegada a Tarifa jantamos. Se todos os dias pudéssemos visitar um país diferente e até mudar de continente a vida seria um poema. Finalmente, há vinho para brindar.























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