A Arte, o Tempo e o Mundo

O processo cultural humano da consciência faz-me considerar a Arte, o tempo, e o mundo como indissociáveis. A Arte per se leva-me a viajar, escolho dedicar-lhe uma atenção específica reconhecendo a sua influência estética no mundo. É como se a Arte viesse adornar a Terra com a serventia de nos fazer questionar a nossa própria interpretação de tudo. Não obstante a sua imutabilidade face ao passar dos anos (séculos, milénios) e à luz da sua origem, a Arte contribui para o entendimento e para a fundamentação de muitos conceitos e princípios. Salvo se houver destruição, as obras nascem para perdurar, sobrevivendo-nos. Porém, se a Arte não vai até ao Homem, o Homem se quiser pode ir de encontro à Arte. Cabe-nos, então, pelas nossas próprias razões, decidir criar (ou não) a oportunidade de nos deslocarmos aos espaços que a Arte habita. É, no entanto, um luxo extraordinário da vida humana isto da ventura de podermos escolher e decidir o que fazer com o nosso próprio tempo. Seguindo este ímpeto genuíno, e referindo-me à Arte materializada sob a forma de Obra, não hesito em validar esta minha escolha de encalçar o que para mim é o mais interessante, seja uma pintura, uma escultura, uma obra de arquitetura, ou qualquer representação artística que me ative maior curiosidade, embora reconhecendo que a linguagem da Arte está presente em todo o lado. O propósito de alguém conseguir criar algo único para expressar ideias e emoções mostra-nos a natureza da nossa espécie e, manifestamente, a originalidade de cada ser em particular. Seguindo o raciocínio de sermos todos dotados de inteligência criadora, é inútil pensar que possa haver duas criaturas iguais. O espaço social, o meio, as experiências e os instrumentos à disposição são também determinantes para reconhecermos e dissociarmos a Arte que irrompe das diferentes culturas. A criação de um contexto favorável não parece ser suficiente para se dedicar uma vida atrás da Arte. E ainda menos para uma pessoa que, como eu, fez a opção da engenharia como base económica de vida. No entanto, é possível perseguir a ideia de seguir no encalço da Arte para tirar o máximo partido deste desejo de a reconhecer como forma última onde alinhar o espírito, submetendo o mundo a uma espécie de questionário constante.

Às vezes penso que, por falta de organização ou de excesso de dedicação ao trabalho, nem sempre vivo uma relação vida-trabalho equilibrada. Por outro lado, por circunstâncias da sorte ou da oportunidade, o trabalho tem-me permitido imergir verdadeiramente no seio de outras culturas. Na verdade, não basta ir para ver, é preciso tempo nos sítios para nos misturarmos com as outras pessoas, vivermos entre elas. E ao embrenharmo-nos nesses submundos é essencial admitir alguma falta de conforto e aceitar certas adversidades. É uma opção para assimilar de maneira mais profunda ao ponto de quase se sentir o que outras pessoas sentem e assim ser-se capaz de compreender melhor o que nos rodeia. Portanto, no afã de progredir e aumentar o meu conhecimento deixo-me frequentemente consumir pela vontade hipnótica de ir atrás do mundo. Já aqui contei que a ânsia de contemplar o Grito me fez um dia viajar de camioneta de Gotemburgo a Oslo com esse único propósito. Ou admitir que o intuito do meu batismo de voo foi sobretudo admirar o Guernica em Madrid. Tenho um sem número de estórias e exemplos que me ajudaram a construir a personalidade e a embarcar num certo tipo de vida, ou pelo menos num modo de estar menos convencional para o sistema cultural do lugar onde nasci.

A Arte move-me, não pela obra em si mas por querer perceber a entidade do criador. Estar em frente a uma obra de arte, ou ouvir uma peça de música ao vivo e despertar a alma. Tudo isto são diferentes modos de receber o resultado de uma obra artística que alguém criou. E é esta a lógica espiritual da Arte ser feita por pessoas. A mim seduz-me a ideia de visitar o ponto mais distante disponível mas nem é preciso. A viagem interior pode acontecer em casa: ler um texto que naquele momento inflama as melhores emoções; ou o simples assistir a um filme que pode ser transformador, pelo poder da redescoberta de algo intenso dentro de nós. E assim nos incendiamos. Isso é o que me fascina: a forma de pensar de um artista que impõe um tipo de reflexão que é, ou deveria ser, muito importante para o pensamento coletivo. Esta motivação que sinto de querer perceber como um outro pensa é uma espécie de pólo positivo que atrai a minha atenção e que subtrai as impossibilidades da equação matemática da realidade enquanto acontecimento estanque. É certo que cada pessoa age de acordo com as suas preferências e necessidades mais fundamentais. A mim move-me o crescimento sob o ponto de vista de quem quer perceber melhor o que existe enquanto segue o seu caminho pelo mundo-escola. Ora, eu nunca dissociei uma geografia enquanto morada de sua Arte. Normalmente, o espaço transforma-se; o lugar que acolhe as coisas vai-se modificando, ou as coisas mudam de espaço e é preciso saber onde encontrá-las, por exemplo, no caso das exposições itinerantes, e, às vezes basta estar atento à agenda cultural das nossas cidades. Há uns bons anos, aconteceu-me alcançar o mar de Turner na Fundação Calouste Gulbenkian. Porém, apesar do espaço físico variar, a obra permanece, perdurando ao tempo. Curiosamente, o nosso tempo é também o mesmo, independentemente, da maneira como o consumimos, por isso, saber aproveitá-lo é aprender a otimizar quem nós somos. Não é a mesma experiência pesquisar uma peça noutra forma (livro, catálogo ou no universo da web). René Magritte resignificou esta ideia de distinção entre o objeto e a sua representação em Ceci N’est Pas une Pipe. Para perceber a “coisa”, é preciso observar à mínima distância a estrutura, a cor verdadeira ou a mescla do equilíbrio de tons, sem o artifício da exposição e do contraste da imagem digital. A meu ver, torna-se importante também integrar as obras com a nossa existência. Avaliar o efeito real dos signos e da geografia: meio metro de largura de uma Mona Lisa perdida na imensidão do Louvre; a barba remendada sob o queixo esculpido da máscara de Tutankamon no Cairo, e a curvatura das linhas dançantes de cimento que Niemeyer desenhou em Belo Horizonte. E é preciso olhar com deslumbramento. Honrar a magia de anular os tempos das obras que eternizam os artistas.

Bertolt Brecht disse que “todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver”. Por isso, sublinho que a Arte me leva, mas também me acompanha. Faz-me sentir melhor quem sou mas além de me levar e acompanhar, antes de tudo, é a Arte “quem” me convoca. Na Normandia, aproveitando um dia de descanso semanal, entrei sozinha no carro e só parei 229 quilómetros à frente, em Southampton, para visitar a obra de Vincent Gavinet em homenagem às atividades portuárias da região do Havre. Uma instalação artística de rua monumental, composta por dois grandes arcos construídos com contentores marítimos, cada um de sua cor, uma obra mutável de cada uma das múltiplas perspetivas diferentes de observação. Os contentores marítimos, símbolo de rotina de viagem, de abrigo e de transporte, de entrega e de recolha, de conexão entre distâncias, ali dispostos como objetos descontextualizados aprisionados para sempre numa estrutura impedida de movimento. Não imaginei que o setor dos contentores estivesse hoje em crise. O preço de um contentor agora 10 vezes superior em consequência da crise pandémica. E olhar esta obra hoje ao refletir sobre o tempo presente é dar-lhe outra significância. É preciso aproveitar cada instante porque tudo está em constante transformação. Apesar de as obras resistirem enquanto produto acabado, e da sua intemporalidade física, conferem em si uma capacidade de nos fazerem despertar.

Por outro lado, se quisermos prestar alguma atenção ao que se passa realmente no mundo, é um facto que a noção de Arte também contém variantes. A propósito de um evento online, tomei conhecimento esta semana sobre os certificados NFT (ou “Non-fungible Token“), que conferem originalidade e exclusividade a certos bens digitais. O dito marco-histórico tecnológico de 2021 que auto-promete a impossibilidade de falsificação veio, ao que parece, revolucionar o mercado da arte digital entre colecionadores e investidores que se sabem posicionar na vanguarda dos tempos que vivemos. Eu aprecio o conceito de arte enquanto processo criativo e em todas as suas formas, porém, ao visitar algumas plataformas de exposição destes ativos, encontrei-me com desenhos digitais e gifs abundados de pixeis de difícil expressão semiótica. Por analogia lógica, pensei quase automaticamente na obra genialmente imperfeita de Basquiat, fazendo lembrar desenhos de crianças, animações, no contexto artístico de 40 anos atrás, e num meio que via os preços dispararem para valores previamente impensáveis, seguindo lógicas especulativas fruto do entusiasmo da época e puramente económicas. A verdade é que existem já NFT transacionados a valores inimagináveis enquanto aquisições imateriais. Assistir a isto não deixa de me surpreender. Sabem como é a sensação de o futuro já ter chegado e de não sentir aquele entusiamo pueril que se tem quando as coisas nos tocam o coração? É um pouco como perceber que há todo um universo sintomático permeável que se abate na Terra e, com isso, perdemos um pouco o contacto com as coisas materiais e com a própria Natureza, a terra enquanto terra, o céu enquanto céu, e por isso desligámo-nos de quem somos. Ao mesmo tempo, tenho andado atenta a esta tendência minimalista de se despojar a casa do excesso de material, transformando-a, redecorando-a mas, paradoxalmente, nesta mesma era discute-se a presença definitiva ou a extinção próxima da bitcoin. Então a pergunta que se impõe é: Estaremos a representar bem a nossa identidade?

Às vezes penso que os millenium ou a geração Y chegaram ao mundo tecnológico de forma incipiente ainda que sem opção de escolha entre integrar um mundo assim ou pertencer ao outro tal qual se apresentava antes do império da virtualidade. É interessante refletir que são eles os youtubers, e os nómadas digitais que decidem o espaço físico e a geografia onde trabalham. São eles que interagem nas redes sociais um pouco descomprometidos com as convenções de outrora. Os masters coach e os marketers invadem-nos os canais digitais de forma colorida e crescente, com vídeos caseiros que prometem serviços cheios de boas receitas e oportunidades para novas profissões. São eles os influencers, e os novos empreendedores que, através de monólogos, vêm servir info-produtos com calendários editoriais exigentes para produção maquinal de novos conteúdos. Parece tudo acontecer na ponta dos dedos. Parece haver um mundo virtual a desvirtuar a Arte. E parece que o tempo segue a uma velocidade maior. De repente, só existimos em rede e sob a forma de energia. Então, que mundo nos resta quando apagarmos a luz?

%d bloggers like this: