Menino com a Mão no Peito

“Sou humana como tu”, penso. Olho os seus olhos gigantes e estendo-lhe a mão. Mão grande com sinal que agarra mão pequenina. Segue-se uma pausa. A luz diminui um pouco ou é a sombra que aumenta enquanto a cabeça se inclina ligeiramente. Diante de mim, o menino deixa de ser propriamente uma criança: leva a mão direita ao coração fechando os seus olhos gigantes e não se percebe exatamente a diferença entre ser extremamente frágil ou tremendamente forte. É quando acontece a fotografia. Nesse momento, é possível reconhecê-lo soberanamente místico. Apesar do silêncio, a mão pequenina aperta-me os dedos, num somatório de enigmas que se comunicam numa mesma vibração. Ouço o meu sorriso em pequenas notas. Não dou atenção ao tempo, mas parece uma viagem esplêndida de um ou dois minutos, na qual o menino responde por todos os meninos do mundo. Comungando a inocência, de todos os que são inocentes. E continua a sentir o coração de olhos fechados enquanto o observo. Talvez sejam as estrelas pulsando do lado de dentro do peito. Ou qualquer outra mensagem secreta a chegar-lhe. Daquela idade não se finge ser solene. É uma presença densa, absolutamente verdadeira. Sem subterfúgios. O sangue, a pele, o brilho. Alguém, todo ele realidade. Num sentido de estar imenso. Sensível aos grãos de terra, com os pés descalços. E, por causa do toque, talvez eu receba parte da energia daquela corrente de vida, sagrada, quente de pôr-de-sol. Recebo ainda, através da mãozinha, o batimento do chão. Não é diferente de recitar daimoku. Sei que vem do mesmo lugar de bem, pois cresço da mesma velha raiz, e divido os mesmos gestos. “Sou humana como tu”, penso outra vez. Desde a origem que todos somos filhos do mesmo clarão. Somos antigos. Somos idênticos. Somos em coro. Trocamos olhar por olhar e estendo os dedos da minha mão grande, libertando-lhe os dedos pequeninos que é o meu jeito sereno de dizer Adeus sem o dizer. Depois aceno enquanto me afasto. Daí a pouco terei desaparecido, mas ele será para sempre um poema a habitar um desenho-memória que a lente me permitiu gravar. Largo-lhe a mão e parece que termino a estória. Mas podia prolongar o texto: acrescentar coisas do dia, remexer outras memórias da mesma sequência. Incluir os cestos coloridos, as mulheres da província. Segurar, acima do texto, o balão do título “Menino com a mão no peito”. Contar como chegamos ali, e que por causa dos cestos pedimos para o carro parar perto de Lira. O telemóvel dizia o nome da localização: Amaich (parece que se lê “há mais”) mas além das memórias e do aroma do barro que se traz na pele é preciso guardar no fundo dos bolsos todas as outras palavras. 

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